No extremo leste do estado de São Paulo, quase na divisa com Minas Gerais, existe um distrito que parece ter escapado da pressa, do concreto e da lógica imobiliária que transformou tantos destinos turísticos brasileiros. São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos, reúne cachoeiras, trilhas, montanhas, gastronomia de serra e um silêncio que hoje vale mais do que muitos resorts. E ainda assim, continua relativamente desconhecido do grande público.
Quem chega pela estrada sinuosa da SP-050 tem a sensação de estar entrando em outra realidade. A Mata Atlântica fecha o horizonte, a temperatura cai alguns bons graus, o sinal de celular falha em vários trechos e as pousadas surgem discretamente entre araucárias, eucaliptos e riachos. O lugar virou refúgio de paulistanos exaustos, casais em busca de isolamento e viajantes que preferem fogão a lenha a fila por um gin tônica em algum beach club badalado do momento.
São Francisco Xavier é a prova de que ainda existem lugares onde o tempo parece ter um compromisso com a lentidão. Um distrito que começou como pouso de tropeiros e se tornou refúgio de quem quer fugir da agitação, sem renunciar ao conforto e a boa gastronomia. É curioso que consiga manter esse ar de segredo, mas talvez esse seja seu maior trunfo. Se você quer um fim de semana diferente, com natureza, sossego e uma dose de sofisticação caipira, São Francisco Xavier está esperando. Só não espalhe por aí.

Onde fica e qual é a história de São Francisco Xavier?
São Francisco Xavier é um distrito do município de São José dos Campos, situado na Serra da Mantiqueira e a cerca de 54 quilômetros do centro daquela estranha cidade cinza ao Sul do Brasil (#xexeolives). O acesso principal é pela rodovia SP-050, passando pelo município de Monteiro Lobato, em um trecho de serra restaurado no início de 2009. O distrito fica a 720 metros de altitude, mas seu ponto mais alto, o Pico do Selado, chega aos 2.082 metros, de onde é possível avistar cidades vizinhas em meio a um relevo de montanhas e vales.
A origem do povoado remonta à rota dos tropeiros que desciam de Minas Gerais para vender produtos no Vale do Paraíba. A partir de 1830 fazendeiros, em sua maioria portugueses, se instalaram na região da Fazenda Rio do Peixe, propriedade de Luciano José das Neves, devoto do santo São Francisco Xavier, que mandou construir uma capela de pau a pique em homenagem ao religioso.
A capela se tornou ponto de parada dos tropeiros e deu origem ao vilarejo, formado por cerca de dez casas, um armazém, uma botica e a igreja. O distrito foi oficialmente criado pela Lei Estadual nº 59, de 16 de agosto de 1892, e recebeu iluminação pública a lamparinas de querosene em 1911. Por sua localização estratégica , foi um dos pontos usados pelos paulistas durante as revoluções de 1930 e 1932.

O que é a Pedra de São Francisco ?
É o mirante mais fotografado do distrito, e um grande mal-entendido em termos de localização. O Mirante da Pedra de São Francisco, popularmente chamado de Pedra do Porquinho, fica a mais de 1.200 metros de altitude e a cerca de 30 minutos do centro de São Francisco Xavier. A questão é que, apesar de a pedra ficar administrativamente dentro do distrito de São Francisco Xavier, o melhor caminho de acesso é feito antes, pela cidade vizinha de Monteiro Lobato, seguindo por uma estrada de terra de cerca de 12 quilômetros sinalizada com placas até o mirante. Ou seja, falta assunto no interior.
Mas no alto, duas formações rochosas recebem escadas de madeira e corrimãos que facilitam a subida até o topo, de onde se avista 360 graus entre o Vale do Paraíba e a Serra da Mantiqueira, incluindo a cidade de São José dos Campos. Aos pés da Pedra de São Francisco há uma imagem do santo e uma placa com a oração de São Francisco de Assis. A visitação é gratuita e o passeio é considerado leve, adequado para crianças e idosos, já que os carros conseguem chegar bem próximo ao mirante.

Por que dizem que a grande estrela da região são as cachoeiras?
Porque a lista é mais do que generosa para um distrito deste tamanho. A Cachoeira Pedro David, ou Pedro Davi, a cerca de três quilômetros do centro, é apontada como o principal cartão-postal aquático da região. Tem cerca de 15 metros de altura em várias quedas, entrada gratuita das 7h às 18h, estrutura com vestiários, banheiros e área de piquenique. Como fica dentro de uma Área de Proteção Ambiental sé é permitido o tchibum e o lazer contemplativo, com regras rígidas que proíbem descer até a cachoeira com churrasqueira, barracas de acampamento ou caixas de som. Ufa!
Outras quedas seguem a mesma lógica de nomes descritivos e escalas modestas, mas cenográficas. A Cachoeira das Couves, com 15 metros e visitação apenas com guia, a Cachoeira do Sabão, com 25 metros em três quedas na confluência com o Rio do Peixe, e a Cachoeira do Roncador, com 45 metros de altura, localizada dentro de uma pousada de mesmo nome a 14 quilômetros do centro, onde é possível pagar um day-use. Os guias locai citam ainda a Cachoeira do Pouso do Rochedo, a Cachoeira Santa Bárbara, a Cachoeira do Turvo e a Cachoeira das Andorinhas como parte do roteiro, reforçando a recomendação geral de que o verão é a estação das cachoeiras e corredeiras, enquanto o inverno favorece as trilhas.

O planeta dos macacos
São Francisco Xavier possui uma relação profunda com o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides), uma espécie criticamente ameaçada de extinção. É considerado o maior primata das Américas, podendo chegar a 1,5 metro de altura e pesar cerca de 15 quilos. A população total estimada no Brasil é de apenas 1.300 indivíduos. São Francisco Xavier abriga uma parcela significativa desse total, com estimativas que apontam de 100 a 200 muriquis vivendo em suas matas, o que torna a região um dos refúgios mais importantes para a espécie. A importância da área é tão grande que a prefeitura, em parceria com universidades, realiza projetos sistemáticos de pesquisa para monitorar a espécie.
Claro que avistar um muriqui não é uma tarefa fácil. São animais ariscos e vivem no alto das copas das árvores. No entanto, existem locais específicos para quem deseja tentar a sorte, sempre com a ajuda de guias locais para não prejudicar os animais. E o principal destino para isso é a Toca do Muriqui, uma reserva ecológica de 270 hectares, criada em 1990. Ela é considerada o lar da maior população de muriquis-do-sul do mundo e oferece trilhas monitoradas para observação dos primatas e de outras espécies, como jaguatiricas, antas e tamanduás-bandeira, além de cachoeiras e passeios a cavalo.

Por que falam tão bem do clima de lá?
A explicação é basicamente geográfica. São Francisco Xavier tem temperaturas amenas no verão, baixas no inverno e chuvas bem distribuídas ao longo do ano, um contraste direto com o calor mais seco e abafado do litoral e da capital paulista na mesma época. Essa amenidade tem endereço certo: o centro do distrito já está a 720 metros de altitude, e boa parte das trilhas e mirantes da região sobe para além de 1.200, 1.600 e até 2.082 metros no Pico do Selado.
É esse relevo, típico da Serra da Mantiqueira, que faz o termômetro cair conforme o carro sobe a serra vindo de Monteiro Lobato. Os meses de maio a setembro formam o período de temperaturas mais amenas, ideal para explorar a natureza, o que coincide com o inverno paulista, quando o distrito costuma ficar ainda mais frio do que o normal para os padrões do estado de São Paulo, a ponto de amanhecer com geada em determinados invernos. Não é exagero de quem posta foto de cachecol em rede social: é altitude fazendo o trabalho que o discurso turístico só precisa embalar.
O que mais tem para fazer por lá?
Quem não é fã de água corrente também tem opções. A Prefeitura de São José dos Campos lista diversas trilhas para caminhada e mountain bike, além de uma rota de voo livre e pontos com altitude apropriada para parapente. Outro destaque vai para a trilha da Pedra do Queixo Da Anta, de nível moderado a difícil, com subida íngreme e percurso de ida e volta de seis quilômetros até um pico de 1.634 metros de altitude.
Para quem viaja em família, é imperdível percorrer a Trilha dos Muriquis, batizada em homenagem ao macaco símbolo da região. O Sítio Arte da Terra, a cinco quilômetros do centro, une produção sustentável e arte, sem falar no tradicional passeio pelo “centrinho” do distrito, com lojinhas de produtos locais. Aos fins de semana, a Praça Cônego Antônio Manzi, em frente à igreja matriz, recebe feiras de produtos orgânicos e artesanato, segundo o portal São Francisco Xavier, fechando o roteiro entre natureza e vida de vilarejo.

E ainda existe mesmo uma robusta cena gastronômica?
Sim, a cena gastronômica de São Francisco Xavier evoluiu significativamente, tornando-se um dos grandes pilares do turismo local e atraindo chefs especializados na cozinha autoral e caipira. O distrito consegue harmonizar a rusticidade da culinária tradicional com propostas contemporâneas e refinadas.
Exemplos marcantes dessa diversidade incluem o restaurante João de Barro, famoso pelos pratos contemporâneos, ou o autoral Casa Mozi, focado em criações vegetarianas inovadoras como o risoto de beterraba. Para quem busca carnes na brasa, o Rancho Três Paineiras surge como referência, enquanto o Armazém do Neo se destaca pelos queijos e embutidos artesanais de produção própria.
E para quem aprecia um bm drinque, o Bar dos Alquimistas funciona ligado à destilaria Alquimistas da Serra, produtora dos gins High Mountain e Butterfly, que oferece um tour com degustação de quatro drinques às sextas, sábados e domingos. Mas não esqueça. Se for dirigir, não beba. Se for beber, me chame.

Se tem tudo isso porque falam que é quase um segredo?
Parte da resposta está na própria geografia que garante o clima ameno. O acesso mais direto ainda passa por um trecho de serra sinuoso de pista simples, com poucas oportunidades de ultrapassagem, e alguns caminhos alternativos, vindos de Joanópolis ou Monte Verde, envolvem trechos de estrada de terra.
Somado a isso está a legislação ambiental que, desde a década de 1990, restringe o desmatamento e a ocupação de novas áreas, o que impede o crescimento acelerado que vem transformando destinos de montanha do Sudeste em polos imobiliários.
Isso mantém o fluxo de visitantes distribuído entre pousadas butique e passeios que exigem carro próprio, sem a infraestrutura de recepção em massa de destinos como Campos do Jordão, cidade com a qual a região da Mantiqueira costuma ser comparada. O resultado é um lugar que aparece cada vez mais em roteiros de blog e redes sociais, mas que continua fisicamente pequeno demais para deixar de parecer “secreto”, mesmo depois de descoberto repetidas vezes.

Como chegar?
No total, quem sai da Guanabara deve calcular algo entre 4h30 e 5h30 de estrada até o centro de São Francisco Xavier, sem contar eventuais paradinhas. Saindo de São Paulo, por óbvio, é mais rápido, cerca de eh30 de carro.
Não há linha direta de ônibus do Rio até lá. Somando as duas pernas, dá algo em torno de R$ 64 a R$ 70 de ida, sujeito a reajustes, promoções e ao tipo de ônibus escolhido na primeira etapa.


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