O avanço do crime organizado no Rio de Janeiro já afeta diretamente empresas, comerciantes e moradores em diferentes regiões da capital e da Baixada Fluminense. Reportagem especial exibida pelo RJ2 e publicada pelo g1 nesta quarta-feira (6) mostrou que traficantes e milicianos passaram a controlar a circulação de mercadorias, impor fornecedores e cobrar taxas ilegais de empresários em áreas dominadas por facções criminosas.
Segundo a reportagem, empresas relatam cobranças mensais que variam entre R$ 4 mil e R$ 10 mil para continuar funcionando em determinadas localidades. Em alguns casos, criminosos também exigem pagamentos semanais para permitir entregas de produtos dentro das comunidades.
Distrito industrial sob pressão do crime
Um dos principais exemplos apresentados na reportagem é o distrito industrial de Fazenda Botafogo, na Zona Norte do Rio. Criado em 1978 para impulsionar o desenvolvimento econômico da região, o local hoje convive com abandono urbano, presença armada do tráfico e pressão constante sobre empresários e trabalhadores.
De acordo com informações obtidas pelo RJ2, traficantes do Terceiro Comando Puro passaram a exigir pagamentos mensais de empresas instaladas na região. Funcionários relataram ameaças feitas por criminosos armados nas entradas das companhias.
Em uma das mensagens obtidas pela reportagem, um funcionário afirma que homens armados retornaram ao local cobrando dinheiro após ameaças anteriores.
O distrito industrial ocupa mais de 1 milhão de metros quadrados e abriga atualmente 32 empresas ligadas aos setores químico, petrolífero, de reciclagem e vidro. Segundo dados apresentados, cerca de 14 mil empregos diretos dependem da atividade econômica da região.
Facções controlam comércio e serviços
A reportagem também mostrou que o domínio criminoso vai além da cobrança de taxas. Moradores relataram que traficantes e milicianos passaram a controlar quais produtos podem ser vendidos em determinados bairros.
Itens simples, como vassouras, galões de água, carvão, alho e tomate, passaram a depender da autorização dos grupos criminosos, segundo relatos ouvidos pela equipe da TV Globo.
“A loja não tá mais autorizada a vender vassoura”, contou um morador da Zona Oeste. Segundo ele, os criminosos passaram a redistribuir os pontos de venda de produtos dentro da comunidade.
Moradores também denunciaram dificuldades para contratar serviços básicos, como internet e telefonia. Em algumas regiões, apenas empresas autorizadas pelos criminosos conseguem operar.
“A gente só tem acesso a empresas que, ou eles permitem ou eles são os donos”, afirmou um morador ouvido pela reportagem.
Empresas interrompem entregas
Documentos internos obtidos mostram que empresas chegaram a suspender entregas em determinadas áreas por causa das ameaças feitas por criminosos armados. Funcionários relataram riscos de roubo de caminhões, furto de mercadorias e ataques às equipes de entrega.
Em um dos relatos apresentados, criminosos exigiam uma espécie de “taxa pedágio” semanal para permitir a entrada dos veículos nas comunidades. Diante da situação, algumas companhias decidiram deixar de atender dezenas de estabelecimentos comerciais.
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro afirmou que o avanço da insegurança afeta diretamente a atração de investimentos para o estado. O gerente de infraestrutura da entidade, Isaque Ouverney, destacou que a segurança pública é decisiva para empresários. “Sem segurança pública, os investimentos não serão realizados e não ficarão no território”, afirmou.
Moradores entrevistados pela reportagem relataram sensação de medo e abandono diante do crescimento do poder das facções criminosas em diferentes regiões do Rio. “A gente tá hoje refém dessa bandidagem”, afirmou um dos moradores ouvidos, sem se identificar.






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