Na madrugada de 23 de maio de 1987, uma explosão na Praça Afonso Viseu, no Alto da Boa Vista, matou o motociclista José Barbosa de Paiva e feriu outros nove integrantes do Balaios Moto Clube. O atentado, ocorrido durante uma confraternização de membros do grupo, foio episódio mais dramático de uma das disputas mais misteriosas da história do underground carioca, e lançou holofotes sobre um conflito existente entre os Balaios e o recém-chegado capítulo carioca dos Hells Angels, organização internacional cercada de fama, temor e lendas controversas.
Para cariocas e simpatizantes que viveram os anos 1980, era só o que faltava. A Guanabara daqueles tempos já não se impressionava fácil. A cidade já conhecia a Falange Vermelha e nomes como Escadinha ou o Professor, e ostentava uma das maiores taxas de homicídio do planeta, mas foi um bando de motociclistas de colete, botas e ideais de irmandade que, por algum motivo digno de tese de doutorado em sociologia, virou notícia obrigatória. No mês seguinte ao atentado, o termo “Hells Angels” apareceria nada menos que 108 vezes no Jornal do Brasil, um volume de citações digno de banda de rock, não de clube de sábado à tarde.
A história que se seguiu a essa explosão é um verdadeiro caldeirão de versões, acusações cruzadas e um silêncio ensurdecedor que, no fim das contas, falou mais alto do que qualquer bomba. Entre a negativa dos Hells Angels e a acusação dos Balaios, a única certeza que restou foi o rastro de pólvora e a interrogação que até hoje é assunto em resenhas dos bares da cidade: quem cometeu aquele desatino?
A madrugada em que uma praça virou cenário de guerra
A Praça Afonso Viseu, cercada pela vegetação do Alto da Boa Vista, era um ponto de encontro comum motociclistas. Naquela madrugada de sábado, integrantes do Balaios Moto Clube estavam reunidos quando um artefato explosivo detonou no centro do grupo. José Barbosa de Paiva morreu no local, enquanto outros nove membros sofreram ferimentos de diferentes gravidades.
Segundo reportagem do Jornal do Brasil, a explosão foi ouvida a quilômetros de distância, ecoando pelas curvas da estrada do Sumaré e assustando a fauna local. Quando o emaranhado de fumaça densa se dissipou sobre o paralelepípedo, o cenário lembrava uma praça de guerra, rodeada por motos tombadas e poças de sangue.

Bomba ou granada? O detalhe que complicava a investigação
Um dos pontos mais controversos do caso sempre foi a natureza do artefato. Em muitos relatos posteriores, o episódio passou a ser descrito como a explosão de uma bomba artesanal. Outros documentos e reportagens da época mencionam a possibilidade de uma granada de mão, hipótese considerada mais provável por investigadores diante do padrão da detonação e dos ferimentos provocados nas vítimas.
A diferença não era apenas técnica. O problema é que se fosse uma granada militar, o caso ganhava contornos de acesso a armamento restrito e possível atuação de pessoas com relacionamentos específicos, digamos assim. Já se fosse uma bomba improvisada, a investigação apontaria para fabricação clandestina e planejamento prévio.
A polícia trabalhou com ambas as possibilidades em diferentes momentos, mas não conseguiu produzir uma conclusão definitiva e aceita. Fosse o que fosse, a intenção do fabricante de tal bizarrice bélica claramente não era assustar, mas exterminar quem estivesse na trajetória dos fragmentos.

Mas quem eram esses caras?
Bom, vamos começar a organizar a bagunça. Clubes, associações ou seja lá o nome de sua preferência e reúnem gente que gosta de andar de moto em galera existem desde 1927, quando foi criado na Guanabara o Moto Clube Brasileiro.
Motoclube, portanto, no sentido em que o termo é usado desde os primeiros grupos brasileiros, é uma associação organizada de motociclistas unidos por regras próprias, hierarquia interna, símbolos que identificam o grupo e, na maioria dos casos, uma sede fixa conhecida no jargão internacional como clubhouse.
É nesse espaço que acontecem reuniões, festas, cerimônias de admissão de novos integrantes e, em muitos clubes, o convívio diário entre os chamados irmãos de colete.
Balaios Moto Clube: a inspiração do Cangaço em duas rodas
O Balaios Moto Clube nasceu em 1969, na Guanabara, e se tornou o primeiro clube brasileiro a adotar as chamadas normas internacionais de organização motociclística, algo como um manual de etiqueta para quem prefere a poeira da estrada ao mofo do escritório. Seu nome é uma homenagem à Revolta da Balaiada, ocorrida no Maranhão no século XIX, em alusão ao espírito de rebeldia e união.
Fundado por Blint Bob na oficina do Mister, o grupo elegeu como pilares fraternidade, solidariedade e respeito, valores que, segundo o próprio clube, permanecem intocados até hoje, mesmo com o Brasil tendo trocado de moeda, de constituição e de gerações de motociclistas nesse meio tempo.
A identidade do grupo bebe na fonte da cultura nacional, adotando a estampa do cangaço e a estética de rebeldia associada à história da resistência sertaneja. Diferente de clubes que copiam fielmente o modelo norte-americano, os Balaios construíram uma mística própria e ultranacionalista de irmandade de estrada. A organização sobreviveu aos turbilhões das décadas, mantém sedes ativas em diversos estados brasileiros e continua operando com suas regras internas rígidas.

Hells Angels MC Brazil: a franquia de má fama importada dos EUA
O Hells Angels Motorcycle Club nasceu nos Estados Unidos em 1948, na cidade de Fontana, Califórnia, e hoje é considerado o maior clube de motociclistas do mundo, com centenas de clubhouses espalhados por dezenas de países.
O Hells Angels MC Brazil começou sua trajetória na Guanabara em 1974, quando um grupo de amigos apaixonados por motos decidiu fundar o que viria a ser a primeira filial da organização na América do Sul. Em 16 de junho de 1984, o clube foi aprovado como o 54º capítulo dos Hells Angels no mundo, integrando-se à “liga mundial”. A sede oficial foi inaugurada em 1982.
Se em 1987 os Hells Angels apareciam nas manchetes como sinônimo de perigo, hoje o próprio clube preza por reforçar a defesa rigorosa de suas marcas registradas, do nome ao símbolo da caveira, realizando um trabalho que mais parece o do departamento jurídico de uma multinacional do que a de um bando de arruaceiros de estrada, o que, vamos combinar, é uma reviravolta e tanto para quem viveu décadas como um dos vilões favoritos da imprensa mundial. E não foi à toa.

Pois é, voltando à história…
A versão dos Balaios foi direta e sem rodeios: uma granada foi lançada por integrantes do motoclube Hells Angels. A acusação, embora um tanto óbvia dado o histórico de rivalidade, nunca foi comprovada de forma cabal pela polícia. Para os Balaios, no entanto, a autoria era inequívoca: tratava-se de um ataque premeditado de seus rivais para eliminá-los fisicamente e, de quebra, abalar sua moral e sua presença nas ruas do Rio.
O peso da acusação também explica por que o caso ganhou tanto espaço editorial num Rio já saturado de violência urbana. Atribuir a um clube rival a autoria de um artefato explosivo em uma bucólica praça pública transformava uma disputa de subcultura quase em caso de terrorismo doméstico, categoria que a imprensa carioca, generosa em adjetivos, não hesitou em explorar.
Os Angels rebatem: “a bomba era dos próprios Balaios”
A turma que usava o colete da caveira, o Hells Angels MC Brazil, negou qualquer envolvimento no atentado. A versão que circulou como contraponto sustentava que o artefato pertencia ao próprio grupo Balaios e teria detonado de forma acidental durante a confraternização na praça, hipótese que, se verdadeira, transformaria a tragédia em um caso de fogo amigo, não de agressão externa.
Essa versão teve impacto importante na investigação porque deslocava o foco da autoria para a posse do explosivo. Se o artefato era dos Balaios, surgiam perguntas incômodas sobre por que motociclistas carregariam material explosivo e em que circunstâncias ele estava sendo manipulado. A ausência de provas conclusivas permitiu que as duas narrativas sobrevivessem por quatro décadas, alimentando uma disputa de memória que continua até hoje.
O dia seguinte
O atentado na Praça Afonso Viseu teve um efeito imediato e devastador sobre a cena dos motoclubes no Rio de Janeiro. Ambos os grupos, Balaios e Hells Angels, sumiram de circulação. A violência do ataque assustou não apenas os motociclistas, mas também a sociedade carioca, que passou a ver os motoclubes com outros olhos.
A guerra, pelo menos em sua forma mais explícita, arrefeceu. Mas os encontros de fim de semana, antes disputados por curiosos e fotógrafos de revista, minguaram, e os coletes e Harley Davidsons que antes desfilavam pela Zona Sul e pelo Alto da Boa Vista só passaram a ser vistos em ocasiões mais discretas.

E o que fez a polícia?
A Polícia Civil instaurou investigação para apurar a explosão, ouvir testemunhas e identificar afinal, o que era e a origem do artefato. Perícias foram realizadas, integrantes dos motoclubes prestaram informações e diferentes hipóteses foram examinadas, incluindo atentado, vingança e acidente durante o manuseio de explosivos.
Apesar do esforço investigativo, a combinação de versões conflitantes, dificuldade de obtenção de testemunhos confiáveis e ausência de prova conclusiva impediu um desfecho definitivo. O atentado entrou para a memória policial como um daqueles casos em que todos parecem saber o que aconteceu, mas ninguém consegue provar.

Quantos motoclubes ainda existem no Brasil?
Estimativas divulgadas por veículos especializados e por iniciativas legislativas estaduais apontam a existência de cerca de quatro mil motoclubes espalhados pelo território nacional, número que inclui desde agremiações centenárias, com sede própria e estatuto registrado em cartório, até grupos informais organizados majoritariamente pela internet.
Quase quarenta anos depois da misteriosa explosão, Balaios e Hells Angels retomaram suas atividades associativas. Mas hoje disputam o asfalto com motoclubes cujos nomes soam mais a bloco de carnaval do que o rugir das máquinas.
Entre as pérolas do cadastro nacional, destacam-se figuraças como os Bodes do Asfalto, presente em várias regiões; o Cramunhão da Discória, de Nova Iguaçu; ou o sensacional Fantasma Moto Clube, o Espírito Que Anda, de Irajá.
A mistura entre nomes ferozes e outros francamente hilários resume bem o espírito de um universo que, apesar do estigma herdado de episódios como o de 1987, é hoje formado majoritariamente por gente que só quer mesmo rodar de moto e, de vez em quando, batizar o próprio clube com um nome capaz de arrancar risada até do motociclista mais carrancudo.






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