Em 1986, o deputado federal Álvaro Valle conheceu a glória. E não, esse não é o nome da moça com quem ele se casou e gerou uma controvérsia danada mais tarde. Trataremos disso adiante. Naquele ano ele foi eleito pelo Rio de Janeiro com 324.941 votos, a maior votação para a Câmara no estado, depois de já ter sido deputado estadual, diplomata, professor, advogado e candidato a prefeito. Fundador do Partido Liberal, ele passou décadas transitando entre o Congresso e o Itamaraty, numa carreira tão improvável e extraordinária que desafia quantas profissões cabem numa única biografia.
Nascido no Rio em 15 de maio de 1934, Valle pertenceu a uma espécie cada vez mais rara de se encontrar na política. Era um intelectual refinadíssimo, um homem formado em Direito e Filosofia que escrevia livros, peças de teatro e estudos políticos. Alguém que ficaria, no mínimo, perplexo ao ver que sua legenda hoje é atalho para outro tipo de discurso, mais grosso e menos francês. Valle não chegou a ver esse desfecho (morreu em 2000), o que o poupou do desconforto de gravar um react de algum programa do partido.
Sua história ainda guarda episódios incontornáveis das crônicas de bastidores da política crônica carioca. Houve a candidatura à Prefeitura, os boatos sobre sua vida privada, um casamento ocorrido antes de uma campanha que parecia competitiva e só aumentou a fofoca e até uma explicação espirituosa para a derrota eleitoral que ele atribuiu, em tom de brincadeira, a um erro de gráfica. No fim, Álvaro Valle deixou uma obra política muito mais complexa do que a lembrança de fundador de uma sigla que, décadas depois, mudou tanto de fisionomia que talvez precisasse de uma looooonga apresentação em Power Point ao próprio fundador.
Quem foi, afinal, esse tal de Álvaro Valle?
Advogado, filósofo, diplomata e político, uma sequência de profissões que já entrega um tipo de currículo que hoje soaria improvável num só indivíduo. Formou-se bacharel em Direito pela UFRJ em 1956 e licenciou-se em Filosofia pela UERJ em 1958, antes de completar estudos nos Estados Unidos, na Suécia, na Áustria, na Alemanha e na Itália. Também escreveu mais de 20 livros, entre trabalhos de ciência política, sociologia, literatura, teatro e reflexão política.
Antes de se tornar deputado federal, foi deputado estadual pela Guanabara em 1962, deixou o mandato em 1964 para seguir carreira diplomática e retornou à política em 1970. Depois da eleição para a Câmara em 1974, passou a representar o Rio de Janeiro com a fusão entre Guanabara e antigo Estado do Rio. Desde então foi reeleito em 1978, 1982, 1986, 1990 e 1994. Em 1998, já adoentado, perdeu uma nova reeleição por um único voto.

Deputado ou diplomata? Os dois!
Aqui mora uma das curiosidades mais extraordinárias da trajetória de Valle. Ele não escolheu entre a diplomacia e a política, ficou com as duas, revezando. Em 1964, ao ser transferido para a embaixada em Washington, deixou o mandato de deputado estadual; depois seguiu para a Suécia e para a Argentina. Passou pelas dependências da ONU, da OEA e da OIT, pelo escritório do Brasil em Nova Iorque e pela embaixada do Brasil na França. Tinha mais vistos de entrada no seu passaporte diplomático do que muito figurão do primeiro escalão da República.
Em 1970 ele pediu licença da carreira diplomática para se dedicar com mais afinco ao mandato. Mas o padrão se repetiu tantas vezes ao longo da vida que fica difícil dizer se Valle era um diplomata que fazia política ou um deputado que nem precisava pedir senha para ligar no wifi quando ia ao Itamaraty.
A participação indireta do Rock in Rio na fundação do PL
O Partido Liberal foi fundado em junho de 1985. Valle havia antes participado da criação do PFL, mas entrou em conflito com a direção da legenda porque queria ser candidato à Prefeitura da capital. A direção partidária, entretanto, preferia apostar suas fichas em Rubem Medina, um parlamentar também experiente, e que vinha com o brinde de ser o irmão de Roberto Medina, quem em janeiro daquele ano realizara o primeiro Rock in Rio. O sobrenome dos irmãos estava na boca do povo. Mesmo que o povo não soubesse dizer quem era um e quem era o outro. Valle resolveu então criar seu próprio espaço político.
O manifesto do novo partido defendia aquilo que Valle passaria a chamar de liberalismo social. A plataforma combinava defesa das liberdades individuais e da economia de mercado com preocupações sociais, maior autonomia de estados e municípios, maiores orçamentos para educação, saúde e se você não caiu da cadeira até agora, se segure: a defesa de uma reforma agrária e um reforma urbana.
O PL original, portanto, não nasceu como uma legenda simplesmente dedicada a reduzir o tamanho do Estado. A ideia de Valle era mais híbrida. O Estado deveria proteger direitos, assegurar oportunidades e combater desigualdades, mas sem substituir a liberdade individual nem transformar a máquina pública em feudos de grupos políticos.

As inserções partidárias que uma geração jamais esqueceu
Antes de o PL descobrir o bolsonarismo, ouvia Verdi. Seus programas de televisão começavam ao som de Va, pensiero, o coro dos escravos da ópera Nabucco, transformando a propaganda partidária em algo que era, por alguns segundos, uma ode à liberdade. Em seguida vinha Valle, em zoom, até a câmera fixar-se nele e começar uma espécie de aula sobre o seu liberalismo social. Valle estudava exaustivamente os assuntos antes de falar e procurava combinar domínio do conteúdo com naturalidade diante das câmeras. E dava certo.
Na voz de um elegante embaixador com queda para a oratória filosófica, esse formato austero rendia algo bem distante do que se tornaria praxe décadas depois, quando siglas passaram a preferir jingles a arrazoados sobre doutrina econômica. Não seria exagero dizer que Valle usava o tempo de TV do jeito que um professor universitário usaria um programa de rádio educativo, o que talvez explique por que algumas dessas inserções sobreviveram na memória popular.

A canoa virou…
Entre as duas campanhas, sem sucesso, de Valle à prefeitura do Rio, em 1985 e em 1988, houve um episódio que a biografia oficial trata em poucas linhas, mas o colunismo social da época certamente não deixou passar em branco: o deputado teve um casamento rápido com Márcia, funcionária de seu escritório, celebrado durante a campanha para a prefeitura. Foi aquele fuzuê.
Valle era 30 anos mais velho que a noiva. E havia morado a vida toda com o irmão, o coronel do Exército Fernando Valle. Aquilo tudo junto e misturado era um prato cheio para a oposição que espalhou pela cidade as piores fofocas homofóbicas questionando sua opção sexual e afirmando que o casamento era uma jogada política, justamente para lhe roubar votos entre o eleitorado conservador. Em agosto de 1988, pesquisas indicavam empate acadêmico entre Álvaro Valle e Marcello Alencar, com Artur da Távola no calcanhar dos dois. Abertas as urnas, Valle terminou em terceiro.
Cabe dizer que não há nenhuma declaração pública de Valle a respeito de suas preferências particulares. Só quem viveu sabe como eram duros os anos 1980. Não era preciso ir longe para acender preconceitos irrelevantes. Também não há nenhuma prova, bilhete ou gravação afirmando que o casamento foi uma marquetagem. O casal se separou em 1991, sem ter filhos.
Um legado na educação
Nem todo político deixa uma lei com o próprio nome no rodapé, ainda que informal, e Valle deixou. O Partido Liberal rompeu com o governo de Fernando Henrique Cardoso quando este alterou a aposentadoria especial dos professores, benefício que havia sido fixado por um projeto do próprio Álvaro Valle, episódio que resume bem o tipo de bandeira que ele carregava: educação, categoria do magistério, e uma desconfiança crônica em relação a reformas que, na sua leitura, apenas corroíam direitos adquiridos.
A ligação com a causa educacional não era acessório de discurso de campanha, era quase obsessão. Ele presidiu comissões voltadas ao tema no Congresso e, segundo relato do instituto que hoje leva seu nome, foi a voz que não se calava diante do que considerava ataques à educação brasileira. Naturalmente é um retrato produzido por admiradores, vale o parêntese, e por isso convém lê-lo com os mesmos critérios que se aplicam a qualquer obituário escrito por quem gostava do morto.

Da série What if? Como Álvaro Valle veria o PL de hoje?
Vamos combinar que é impossível saber o que uma pessoa morta pensaria sobre acontecimentos posteriores à sua morte. Mas é possível fazer um exercício de ciência política comparando as ideias que Valle efetivamente deixou registradas com as posições pelas quais o atual PL é conhecido.
O primeiro choque provavelmente seria programático. O PL de Valle se apresentava como liberal social e defendia explicitamente eleições diretas, liberdade política, concurso público, autonomia federativa, reforma social, educação e combate às desigualdades. O partido atual é outra construção histórica, resultado da fusão do antigo PL com o Prona em 2006 e da posterior retomada da denominação PL em 2019.
Há ainda uma diferença de ambiente político. Valle era um homem da redemocratização e da Constituinte, embora tivesse construído parte importante de sua carreira dentro do sistema político da Ditadura. Sua defesa de eleições diretas e de instituições representativas estava associada à ideia de liberdade política. Já o PL contemporâneo se tornou uma das principais forças do campo político conservador e bolsonarista.
Um cientista político poderia, portanto, formular a hipótese de que Valle reconheceria o nome, o número e parte da genealogia partidária, mas encontraria um partido ideologicamente bastante diferente daquele que imaginou em 1985. Isso não significa dizer que necessariamente o aprovaria ou rejeitaria. Significa apenas reconhecer que o liberalismo social de Valle e a identidade contemporânea do PL pertencem a contextos políticos e coalizões diferentes.
Talvez ele fizesse o que costumava fazer quando discordava de alguma coisa: escrevesse um livro. E provavelmente seria grosso.






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