O general João Baptista Figueiredo governou o Brasil por seis anos, entre 15 de março de 1979 e 15 de março de 1985, na condição de último presidente do regime instaurado pelo golpe de 1964, tendo sido moldado por uma coleção de contradições que resistem até hoje a qualquer tentativa de síntese fácil. Um general de tradição militar sólida que assinou a anistia, mas que, segundo documentos da própria CIA, aprovara anos antes execuções sumárias de opositores. Um presidente escolhido para humanizar o regime sob o rótulo de “João do Povo” que preferia, sem qualquer pudor, dizer que preferia o cheiro de seus cavalos ao do tal povo. Um governo que conduziu formalmente a abertura política enquanto setores do próprio aparato de Estado promoviam atentados a bomba contra advogados e plateias de show, na tentativa de sabotar essa mesma abertura.
Figueiredo não conversava. Rosnava, ironizava, escapava para o interior de Brasília ou para seu Sítio do Dragão, em Petrópolis, sempre que podia, e deixava a seus assessores a tarefa impossível de transformar em estadista um homem que preferia, sem disfarce algum, a companhia de um puro-sangue lusitano à de qualquer plateia. Mas embora tentador, é incorreto reduzir Figueiredo a uma galeria de frases infelizes e anedotas equestres, mesmo que boa parte da memória popular sobre ele hoje de fato se resuma a isso.
Por trás das gafes e da paixão por cavalos existiu um governo que presidiu a mais profunda crise econômica do período militar, e que terminou entregando o país a uma transição tumultuada, marcada pela morte de Tancredo Neves antes mesmo da posse. Entre o folclore e o documento histórico, a figura que resta é a de um homem que talvez tenha sempre se sentido, de fato, mais confortável na sela de um cavalo do que na cadeira da Presidência da República, mas cujas decisões, ou omissões, ajudaram a moldar o Brasil que viria depois dele.
Uma dinastia militar que fez o João Baptista já nascer fardado
João Baptista de Oliveira Figueiredo nasceu na Guanabara, em 15 de janeiro de 1918, filho do general Euclides de Oliveira Figueiredo. Seu pai comandou tropas rebeldes durante a Revolução Constitucionalista de 1932, e depois da derrota paulista, foi preso e exilado com a família, primeiro em Portugal e depois na Argentina. Uma anistia permitiu seu retorno ao Brasil em 1934, quando se engajou na oposição a Getúlio Vargas. Mais tarde, foi eleito deputado constituinte pela União Democrática Nacional (UDN), em 1946.
Mas farda não parou no pai. O jovem João Baptista ingressou na Escola Militar do Realengo em 1935, aos 17 anos, formando-se oficial de cavalaria. Dois de seus irmãos, Euclides e Diogo, também alcançaram o generalato, um deles no comando da 1ª Divisão de Exército e do Comando Militar da Amazônia, o outro à frente da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.
Somente o terceiro irmão, Guilherme, escapou da farda para se tornar um famoso dramaturgo premiado pela Academia Brasileira de Letras e, por uma ironia que a história adoraria repetir, diretor artístico da TV Tupi, justamente a emissora que o próprio João Baptista extinguiria por decreto décadas depois.

Da cavalaria ao Planalto: a escalada do espião que virou presidente
João Baptista Figueiredo construiu uma carreira militar sólida, embora nada extraordinária. Deus é um cara gozador, e ao se formar em primeiro lugar na Escola Militar de Realengo em 1937, recebeu o espadim das mãos do próprio Getúlio Vargas, a quem o pai (e certamente ele, por tabela) detestava.
Seguiu-se uma carreira quase inteiramente ligada à cavalaria e ao ensino militar. Foi instrutor de equitação, cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, integrou missões diplomáticas junto ao Exército paraguaio entre 1955 e 1957 e, em 1956, recebeu a medalha Marechal Hermes por ter obtido o primeiro lugar nos três principais cursos de sua carreira.
A grande virada em 1964
Figueiredo participou da articulação que depôs o presidente João Goulart e, a partir daí, deixou de ser apenas um oficial de cavalaria para se tornar peça do aparato de inteligência do regime. Chefiou o Serviço Nacional de Informações (SNI) no Rio de Janeiro, comandou a Força Pública de São Paulo entre 1966 e 1967, foi chefe do Gabinete Militar durante o governo Médici e, no governo Geisel, assumiu a chefia nacional do SNI, o órgão central de espionagem e controle político da ditadura.
Foi exatamente nessa cadeira, a de chefe do serviço secreto, que Figueiredo se tornou o nome escolhido para suceder Geisel, eleito pelo Colégio Eleitoral em 1978 e empossado em março de 1979. A escolha surpreendeu poucos. Ele era visto como um burocrata leal, discreto e, sobretudo, controlável. O que ninguém imaginava é que o “burocrata controlável” se revelaria um presidente incontrolável, dono de um temperamento que nenhum manual de etiqueta militar previa.

Operação simpatia: “João do Povo”, o slogan que ele mesmo sabotou
Diante da impopularidade crescente do regime militar, o marketing do governo idealizou uma estratégia ousada para suavizar a imagem do ex-chefe do SNI: lançou a campanha do “João do Povo”. A ideia central consistia em apresentar o general como um homem simples, acessível, praticante de esportes e profundamente conectado com os anseios do cidadão comum. Comerciais, fotos promocionais e agendas públicas foram cuidadosamente desenhados para fabricar um líder popular e simpático.
A empreitada do marketing, contudo, colidiu de frente com a personalidade explosiva do próprio presidente. Figueiredo não possuía paciência para a teatralidade da política e demonstrava visível desconforto durante aglomerações e eventos populares.
Em 21 de agosto de 1978, abordado por um jornalista no interior de São Paulo, Figueiredo foi perguntado se estava gostando do “cheiro do povo” desde que virara o candidato oficial. A resposta, curta e definitiva, ficaria marcada para sempre na memória política brasileira: “prefiro o cheiro dos cavalos”. Cai o pano.
Eu sei o que você fez no verão passado
Em 2018, o governo dos Estados Unidos tirou o sigilo sobre documentos secretos produzidos pela CIA que lançaram luz sobre as decisões de bastidor do alto comando militar brasileiro no final dos anos 1970. Um memorando da CIA, redigido pelo então diretor da agência William Colby e endereçado ao secretário de Estado Henry Kissinger em abril de 1974, descreve uma reunião ocorrida em 30 de março daquele ano entre o recém-empossado presidente Ernesto Geisel e o chefe do SNI, o próprio general João Baptista Figueiredo, ao lado de generais ligados ao Centro de Informações do Exército (CIE).
Segundo o documento, hoje disponível no site do Departamento de Estado americano e localizado pelo pesquisador da FGV Matias Spektor, o general Milton Tavares de Souza relatou que cerca de 104 opositores haviam sido “executados sumariamente” pelo CIE no ano anterior, e que “métodos extralegais” deveriam continuar sendo usados contra “subversivos perigosos”.
O trecho mais grave do memorando, no entanto, afirma que “Figueiredo apoiou essa política e insistiu em sua continuidade”. Dias depois, Geisel teria dito a João Baptista que a política deveria seguir, desde que se tomasse cuidado para executar apenas “subversivos perigosos”, e os dois concordaram que qualquer execução realizada pelo CIE passaria a depender da aprovação pessoal de Figueiredo. Ou seja, o homem que seis anos depois assinaria a Lei da Anistia foi, segundo a própria CIA, quem centralizou a autorização final para matar presos políticos.

A carta-bomba na OAB
Foi às 13h40 do dia 27 de agosto de 1980 que uma carta bomba endereçada ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Eduardo Seabra Fagundes, explodiu nas mãos de sua secretária, Lyda Monteiro da Silva, então com 59 anos e funcionária mais antiga da entidade, matando-a poucas horas depois. O artefato lhe decepou o braço.
Durante mais de três décadas o crime permaneceu sem responsáveis oficiais, até que, em 2015, a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-Rio) concluiu, após mais de dois anos de investigação, que oficiais do Centro de Informações do Exército foram os autores do atentado, identificando o sargento Guilherme Pereira do Rosário como o homem que preparou a carta bomba.
O mesmo sargento morreria no ano seguinte em circunstâncias que ligariam definitivamente os dois episódios mais sombrios do governo Figueiredo.
A noite chocante do Riocentro
Na noite de 30 de abril de 1981, cerca de 20 mil pessoas assistiam a um show em comemoração ao Dia do Trabalhador no centro de convenções Riocentro, quando uma explosão no estacionamento revelou o que seria, segundo relatório da Comissão da Verdade, “possivelmente o maior atentado terrorista da história do Brasil”.
Dentro de um carro modelo Puma, o sargento Guilherme Pereira do Rosário (aquele mesmo da carta bomba) e o capitão Wilson Luiz Chaves Machado, ambos ligados ao Destacamento de Operações de Informações (DOI-Codi) do Rio, transportavam explosivos que, segundo a versão posteriormente comprovada, seriam colocados no pavilhão onde ocorria o show. Uma das bombas explodiu antes da hora, matando o sargento e ferindo gravemente o capitão. Era um plano tão macabro que previa trancar as saídas de emergência antes da detonação, o que causaria uma calamidade a níveis absurdos.
O episódio expôs a atuação clandestina da linha dura militar, mas o governo Figueiredo montou um Inquérito Policial Militar que forjou conclusões e protegeu os oficiais envolvidos de qualquer punição. O capitão Machado chegou a ser condecorado por “atos de bravura”.

O jornalista que sabia demais
O episódio que ficou conhecido como o Caso Baumgarten envolve o jornalista Alexandre von Baumgarten, diretor da revista ilustrada O Cruzeiro, que relançou a publicação em 1979 e, para escapar da falência, buscou apoio financeiro do SNI, órgão que Figueiredo comandara pouco antes de se tornar presidente.
Baumgarten recebia recursos do SNI em troca de matérias favoráveis ao governo, mas, guloso, passou a chantagear a própria instituição em busca de mais e mais dinheiro, o que lhe rendeu a inimizade do general Newton Cruz, então chefe da Agência Central do SNI.
O desfecho é sombrio. Em entrevista concedida ao jornal O Globo nos anos 1980, o general Otávio Costa, que havia sido porta-voz do governo Médici, afirmou que Baumgarten fora assassinado por integrantes do serviço secreto do Exército em razão dessa treta com o SNI.
A reportagem que expôs o escândalo, publicada pela revista Veja, venceu o Prêmio Esso de Jornalismo, e ajudou a revelar como o aparato de propaganda montado por Figueiredo podia se voltar, de forma letal, contra os próprios aliados que dele se aproveitavam.

Poesia de farda: as frases que fizeram Figueiredo entrar (mal) para a História
Figueiredo foi o pior porta-voz que a Ditadura poderia ter escolhido para si mesma, contradição que ajuda a explicar por que boa parte de sua herança pública ficou associada a gafes, e não a discursos. A história do cheiro de cavalo é apenas uma entre muitas que dariam um livro inteiro sobre declarações infelizes.
Em 1979, um garoto perguntou o que Figueiredo faria se ganhasse apenas um salário-mínimo, e a resposta foi rápida: “Eu dava um tiro na cuca”. Outra pérola: “Quem for contra a abertura, eu prendo e arrebento.” ou seu pedido ao deixar o governo: “Me esqueçam”.
Mas um dos melhores causos envolve o lançamento do chamado “leite da vaca mecânica”, uma bebida feita a partir de soja que o governo pretendia utilizar, entre outras coisas, na alimentação escolar. Na cerimônia Figueiredo recebeu um copo para experimentar, tomou um gole e cuspiu o leite diante das câmeras, reclamando do sabor. A Folha de S.Paulo registrou, em 2002, que ele “cuspiu longe, sem a menor cerimônia, na frente de fotógrafos e cinegrafistas”.
Que ele cuspiu o leite de soja não há dúvidas. O problema foram as inúmeras versões para a frase que ele teria dito depois, que vão desde o prosaico “Nossa, que coisa ruim!” até um “ainda bem que não sou pobre para beber essa M”. Seja lá qual for a verdade, todas tinham a cara dele, justamente por sua fama de rispidez e de desprezo mal disfarçado por compromissos protocolares.
O refúgio do general: o que escondia o luxuoso Sítio do Dragão?
Figueiredo tinha seu universo particular no famoso Sítio do Dragão, no bairro de Nogueira, em Petrópolis. A propriedade ocupava um vale de 35 mil metros quadrados equipado com um haras completo com seis baias, pista de equitação, lago artificial, campo de futebol e cinco casas em estilo chalé, construídas em madeira e pedra.
Dona Dulce, a primeira-dama, sempre se hospedava num chalé diferente do general. E o do general era espetacular. Para surpresa de quem só conhecia a imagem pública de João Baptista, o imóvel tinha uma robusta biblioteca, um quarto com pertences e escritos do general Euclides Figueiredo, que João Baptista pensava em organizar em um museu, e um espetacular banheiro todo esculpido na rocha, com duchas de água de nascente.
Todas as maçanetas e torneiras tinham algum motivo equestre. Era lá também que ele guardava presentes recebidos de chefes de Estado ao longo da carreira diplomática e presidencial. Em março de 2001, já viúva, Dona Dulce Figueiredo organizou um leilão para vender parte dos presentes, entre eles obras de Di Cavalcanti, uma bandeja de prata oferecida por Augusto Pinochet e uma escultura de cowboy assinada pelo artista americano Harry Jackson, presente de Ronald Reagan
Entre as 218 peças leiloadas estava também um cavalo madeira em tamanho natural que, segundo relatos da época, havia encantado o presidente norte-americano Ronald Reagan durante visita ao sítio, arrematado por apenas 14 mil reais pelo antiquário Manuel Machado, dono de uma prestigiada loja no Shopping de Antiguidades da Rua Siqueira Campos, em Copacabana.
Um colecionador ofereceu 1,5 milhão de reais pela peça. O antiquário recusou, e recusa até hoje, recusando até a dar explicações claras. Mas, segundo amigos, a razão não é financeira. Ele simplesmente se apegou à peça. Seja como for, a estátua permanece na vitrine, como um troféu ambíguo, testemunhando a incapacidade de Figueiredo de se livrar de seu próprio legado, nem mesmo por um milhão e meio de reais.

Uma imagem vale mais que mil palavras
Durante uma visita oficial do presidente à cidade de Florianópolis em 1979, o roteiro preparado pelas autoridades locais previa o tradicional aperto de mãos entre o governante e estudantes de uma escola pública. Alinhadas para cumprimentar Figueiredo, as crianças estendiam as mãos à medida que o general passava acompanhado por sua comitiva e por dezenas de cinegrafistas.
A cena tomou um rumo imprevisto quando Figueiredo se aproximou de uma menina de apenas cinco anos, chamada Rachel Sheherazade (que não é a apresentadora de televisão homônima). A garota cruzou os braços, recusou-se a estender a mão e encarou o presidente com expressão séria. A fotografia da criança desafiando a autoridade máxima do país correu o mundo e virou símbolo icônico da rejeição popular ao regime.

Como um governo impopular barrou o grito pelas “Diretas Já”
Em 1984 o Brasil foi tomado pela maior mobilização popular de sua história com o movimento “Diretas Já”, que exigia a aprovação da Emenda Dante de Oliveira para restabelecer o voto direto para presidente. Apesar do apoio esmagador da sociedade e das multidões nas ruas, Figueiredo articulou uma pesada contraofensiva para impedir que a proposta atingisse os dois terços de votos necessários na Câmara dos Deputados.
Para sufocar a votação, Figueiredo decretou medidas de emergência em Brasília, cercou o Congresso com tropas do Exército e bloqueou o acesso de manifestantes à capital. Nos bastidores, a máquina estatal operou liberando verbas públicas, emendas e cargos governamentais para fechar o apoio da bancada do PDS (partido governista) à manobra. A ideia era simples, os parlamentares governistas só precisavam não ir ao plenário, fazendo com que a emenda fosse derrotada por falta de quórum no dia 25 de abril de 1984.

O balanço de um colapso
Uma avaliação do governo Figueiredo aponta para um período marcado pelo colapso em três frentes centrais. Na economia, o país mergulhou na pior crise do século, caracterizada pela hiperinflação (que ultrapassou a barreira dos duzentos por cento ao ano), explosão da dívida externa e recessão profunda.
Na comunicação, o presidente acumulou um desgaste irreparável provocado por suas declarações agressivas e postura ríspida, distanciando o governo da sociedade civil. E no campo político, o plano das Forças Armadas de conduzir uma transição sob rígido controle estatal naufragou diante do terrorismo de linha dura e da pressão popular pelas liberdades democráticas.
O resultado foi um mandato lembrado, ao mesmo tempo, pelo fracasso econômico, pelas gafes presidenciais e pela violência que o próprio Estado praticou contra o processo de redemocratização que dizia liderar.






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