Ele se casou bem e governou melhor: a história de Amaral Peixoto, que transformou o Rio de Janeiro no seu quintal por meio século
Reportagem Especial

Ele se casou bem e governou melhor: a história de Amaral Peixoto, que transformou o Rio de Janeiro no seu quintal por meio século

Ele foi interventor, governador, senador, ministro, embaixador, genro de Getúlio e comandante de uma máquina política que atravessou regimes e partidos. Seus inimigos juravam que ele enjoava até nas Barcas. Mas ele atravessou Vargas, ditadura, MDB e PDS sem perder o rumo. Só perdeu o poder,…

Ernani do Amaral Peixoto governou o Estado do Rio de Janeiro em dois períodos distintos (1937 a 1945 e 1951 a 1955), construiu uma máquina política que sobreviveu a cinco presidentes da República e só encerrou a carreira em 1987, aos 82 anos, com um almoço discreto num restaurante de Niterói. A explicação mais simples para essa longevidade cabe numa frase que os adversários repetiam com prazer mal disfarçado: ele era o genro de Getúlio Vargas. A explicação completa, no entanto, exige um pouco mais de paciência (e um pouco menos de simplificação). 

Porque reduzir Amaral Peixoto ao “marido da Alzira” (como diziam os inimigos, sem nenhuma sutileza) é ignorar um sujeito que soube se articular com prefeitos de cidades minúsculas do interior do estado com a habilidade de quem conserta relógio usando luvas de boxe; sobreviveu a rompimentos partidários que engoliriam carreiras inteiras, até mais robustas, e no fim da vida terminou presidindo o partido que sucedeu à ditadura militar. Amaral Peixoto teve uma trajetória que começa como primeiro-genro do e termina como um decano do poder, tendo atravessado, no meio do caminho, praticamente todos os arranjos institucionais que o Brasil experimentou no século XX. 

Talvez a lição mais interessante de sua trajetória não esteja nas piadas sobre sua suposta submissão à esposa ou sua suposta incompetência naval, mas na capacidade quase camaleônica de atravessar ditadura, democracia, nova ditadura e redemocratização sempre em posição relevante, ainda que trocando de legenda partidária com uma flexibilidade que os puristas ideológicos jamais lhe perdoariam. Amaral Peixoto não foi o político mais brilhante nem o mais carismático de sua geração, mas foi, sem dúvida, um dos mais resilientes, e essa resiliência, no fim das contas, talvez seja seu legado mais duradouro. 

Quem foi Amaral Peixoto? 

Ernâni do Amaral Peixoto nasceu em Niterói em 14 de julho de 1904, em uma família de forte tradição militar. Entrou na Escola Naval em 1923 e se formou engenheiro geógrafo pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1927. Chegou a Capitão de Fragata na Marinha, e seus correligionários o chamavam de “Comandante”, apelido que ele preferia, segundo relembrou décadas depois o senador Roberto Saturnino Braga.  

Ele até gostava mais de “Comandante” do que de “Almirante”, título que acabaria carregando de qualquer forma nos anos finais de sua carreira. Por influência do irmão Augusto, também militar, aproximou-se do movimento tenentista antes de 1930 e, na sequência da revolução que levou Vargas ao poder, tornou-se ajudante de ordens da Presidência da República em 1933. 

O casamento com Alzira Vargas, a filha mais próxima de Getúlio Vargas, em 1939, mudou tudo em sua vida. A partir daí, Amaral Peixoto deixou de ser apenas um militar bem relacionado para se tornar peça central do varguismo: foi interventor federal no Rio de 1937 a 1945, governador eleito de 1951 a 1955, embaixador em Washington entre 1956 e 1959, ministro da Viação no governo Juscelino Kubitschek, ministro do Tribunal de Contas da União, deputado federal em três legislaturas e senador por 16 anos (1971 a 1987). 

Foi também um dos fundadores do PSD em 1945 e presidiu a seção fluminense do partido até sua extinção em 1965, o que faz dele uma espécie de fio condutor de quase todos os arranjos partidários que o Brasil experimentou entre a ditadura de Getúlio e a redemocratização dos anos 1980. 

Amaral Peixoto (Crédito: Reprodução)

O Que Era a “Amaralina”? 
 

A expressão “Amaralina” não se refere a um bairro, mas a todo o Estado do Rio de Janeiro durante o longo período em que Amaral Peixoto dominou sua cena política. Seu poder, construído durante o Estado Novo, transformou a máquina estatal em um instrumento de sua vontade, algo que os historiadores chamam de “amaralismo”. Esta hegemonia política, baseada na interventoria e no controle do PSD (Partido Social Democrático), criou uma estrutura de poder tão sólida que se tornou um verdadeiro feudo. 

Amaral Peixoto contou, em depoimento reunido no livro Artes da Política, de Aspásia Camargo, que decidiu percorrer pessoalmente cada município fluminense logo no início de sua interventoria, recebendo prefeitos numa espécie de sabatina informal para decidir quem ficava e quem saía do cargo. O resultado, segundo o depoimento de Hamilton Xavier (um adversário inicial que acabou convertido em aliado), foi que ele se tornou “o dono” da política estadual, mesmo quando derrotado nas urnas em alguns momentos. 

Mas a partir deste feudo, ele articulou fortemente o desenvolvimento econômico do estado, com a implantação da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) e da FNM (Fábrica Nacional de Motores). Mas para seus opositores, como o jornalista José Eduardo de Macedo Soares, “Amaralina” era o símbolo do autoritarismo e da apropriação privada do espaço público, um alvo constante de suas críticas no Diário Carioca. 

Construção da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, uma articulação de Amaral Peixoto (Crédito: Reprodução)

A piada que virou apelido e definiu um casamento 

José Eduardo de Macedo Soares, proprietário do Diário Carioca e principal adversário de Amaral Peixoto no pós-1945, chamava o governador de “Alzirante”, apelido que misturava o nome de Alzira Vargas, esposa de Amaral, com o sufixo “-ante”, sugerindo que ele era apenas “o marido de Alzira”, um genro que devia seu poder apenas ao sogro Getúlio Vargas. O termo era usado em tom de ironia e desdém, para minar a densidade política de Amaral Peixoto no estado, estampando-o como alguém que não tinha capacidade para alçar voos próprios. 

O Diário Carioca batia pesado. Entre os apelidos, adjetivos e termos construídos por Macedo Soares em alusão a Amaral Peixoto e/ou à interventoria, estavam: “Alzirante”, “Alzirão”, “Interventoria nupcial”, “Interventor-marido”, “O genro”, “Consulado do genro”, “Consulado genrocrático”, “Genro do Estado Novo”, “Bem nutrido genro do Pai dos Pobres”, “Rechonchudo e felizardo genro do sr. Getúlio Vargas”. Esse é espetacular. 

Mas o melhor dessa história é que Amaral Peixoto, segundo ele próprio, foi “inventado” por José Eduardo de Macedo Soares, que pensava em criar um fantoche, mas acabou criando um adversário político formidável. No auge da artilharia, Amaral Peixoto relatou que pensou em abandonar completamente a política, mas Getúlio o convenceu: “Não. Vocês têm uma missão a cumprir, têm que ficar e continuar na luta”. 

Getúlio Vargas em momento descontraído com a filha Alzira (Crédito: Reprodução)

A gozação com o almirante de água doce 

O Diário Carioca não poupava Amaral Peixoto e o ridicularizava como homem do mar de gabinete e, em uma das provocações mais conhecidas, afirmava que ele seria capaz de enjoar na barca da Cantareira, o transporte que fazia a curta travessia entre Rio e Niterói. O objetivo era transformar sua condição de oficial da Marinha numa anedota náutica. 

O repertório era amplo. Macedo Soares o apresentava como “almirante em seco”, “Almirante da Baía de Guanabara” e “Leão dos Mares Guanabarinos”. A brincadeira pegou porque havia uma circunstância real por trás dela. Amaral realmente tinha carreira na Marinha, mas sua trajetória política tornou-se muito mais importante do que sua carreira operacional. Em 1952, já na reserva, chegou a ser promovido a contra-almirante pelos serviços prestados durante a guerra no Serviço de Abastecimento.  

Portanto, a tese de que ele simplesmente “não era almirante” é falsa. O que existia era uma diferença entre a patente real e a imagem caricatural criada pelos adversários.  Em outras palavras, não há prova de que Amaral Peixoto algum dia tenha passado mal na Cantareira. O que se tem é a prova de que Macedo Soares achava a ideia engraçadíssima. 

Mas qual é a história dessa treta? 

A rixa nasceu ainda em 1937, quando Vargas escolheu Amaral Peixoto para a interventoria fluminense justamente para barrar as pretensões de Macedo Soares ao cargo. Jornalista e homem de fortuna, José Eduardo de Macedo Soares foi deputado federal entre 1915 e 1923, deputado constituinte em 1933 e senador da República em diversas ocasiões. Foi pai de Lota de Macedo Soares, uma das responsáveis pelo projeto do Parque do Flamengo.

Era um antigetulista ferrenho, e foi ficando cada vez mais antigetulista à medida em que Amaral Peixoto foi ficando poderoso, transformando o estado do Rio num feudo dele. Ao nomear o genro, Vargas quebrou a hegemonia dos Macedo Soares na política do Rio de Janeiro. A briga, que se estendeu de 1945 a 1950, foi uma verdadeira guerra de narrativas. 

Com o enfraquecimento do Estado Novo, Macedo Soares passou a combater abertamente o amaralismo e tornou o Diário Carioca uma das principais tribunas contra Amaral Peixoto. Entrou na UDN, enquanto Amaral organizava o PSD fluminense. A disputa deixou de ser apenas pessoal. Era uma luta pelo controle político estadual, pelo eleitorado rural e pela definição de quem teria condições de mandar nos municípios. 

Macedo Soares tinha uma arma particularmente perigosa: escrevia muito bem. Seus ataques combinavam ironia, metáfora, caricatura e insulto elegante. Amaral tinha outra, mais prosaica e talvez mais eficiente: uma rede política construída durante anos. De um lado, uma rotativa. Do outro, os diretórios municipais.  

O dia em que um velho oposicionista resolveu atravessar a rua 

A mudança de Amaral Peixoto para o PDS, em 1979, foi uma das maiores guinadas partidárias de sua carreira, embora não tenha sido exatamente um raio em um céu azul. Amaral estava no MDB desde a extinção do PSD, em 1965, e havia se tornado uma das principais lideranças da oposição no antigo Estado do Rio. Em 1978, inclusive, foi eleito o único senador “biônico” escolhido pela oposição, já que o Rio era o único Estado cujo colégio eleitoral tinha maioria oposicionista. 

Em 1979, a reforma partidária extinguiu o bipartidarismo e mudou o tabuleiro. Amaral negociou sua passagem para a legenda governista diretamente com integrantes do Planalto. Não foi uma adesão sem condições, naturalmente. A motivação, segundo relatos de seus pares, foi um choque com o governador Chagas Freitas dentro do MDB. 

Esta guinada foi vista como uma traição por seus antigos companheiros de oposição, mas como uma jogada de sobrevivência por seus novos aliados no PDS, que o receberam de braços abertos. Ele justificou a mudança como uma necessidade de “modernizar” sua atuação política.  

O último almirante de uma política que já não existia 

Amaral Peixoto não cabe facilmente na categoria de herói ou vilão. Foi homem do Estado Novo, mas também participante da redemocratização. Foi genro de Getúlio, mas construiu carreira própria. Foi alvo de caricaturas devastadoras, mas sobreviveu politicamente aos caricaturistas. Foi chamado de “almirante de água doce”, embora tivesse efetivamente carreira na Marinha e chegasse a contra-almirante. Foi chamado de “Alzirante” porque era casado com Alzira, mas sua força política não terminou quando terminou o casamento político com o getulismo. 

O mais impressionante talvez seja sua capacidade de sobreviver às mudanças. Amaral Peixoto sequer precisou vencer todas as batalhas. Precisou permanecer no jogo. E permaneceu. Construiu uma rede política no Estado do Rio, viu essa rede atravessar o PSD, o MDB e o PDS, enfrentou jornalistas que queriam derrubá-lo, sobreviveu à queda de Getúlio, à ascensão de Juscelino, ao golpe de 1964, à ditadura, à abertura e ao nascimento da Nova República. 

Amaral Peixoto passou meio século navegando por águas políticas muito mais turbulentas do que a Baía de Guanabara. E, apesar de todos os naufrágios ao redor, conseguiu manter o barco firme até quase o fim. Talvez Macedo Soares tenha acertado apenas numa coisa: Amaral realmente era um almirante. Só que seu oceano nunca foi o mar. Era o poder. 

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