Ela foi vereadora, deputada estadual por dois estados diferentes, secretária de dois governos, presidente do BNH, candidata ao governo, apresentadora de TV, colunista de jornal e, nas horas vagas, uma intelectual e poliglota que dominava seis idiomas. Foi durante décadas a personificação da “dama de ferro” da política da Guanabara. Sandra Cavalcanti faleceu aos 96 anos em março de 2022, deixando um legado tão controverso quanto sua personalidade altiva, com uma carreira que atravessou a Ditadura Militar, a redemocratização e sete partidos diferentes, sempre pairando sobre sua memória a sombra sinistra de denúncias de incêndios em favelas e mendigos atirados no mar _ ou no Rio da Guarda, depende da versão, ou do mendigo.
Sandra Cavalcanti foi uma personagem de contradições suficientemente grandes para escapar de qualquer resumo confortável. Defensora da habitação popular, comandou uma política de remoções que deixou marcas profundas nas favelas cariocas. Lacerdista convicta, tornou-se presidente do BNH durante o governo militar e saiu do cargo depois do rompimento de Lacerda com os militares. Antibrizolista, disputou o governo pelo PTB.
Sua história também mostra como a política carioca era feita antes de existir a expressão “personagem folclórico”. Morreu aos 96 anos, deixou uma trajetória que não cabe em nenhuma caixinha ideológica dos novos tempos, mas se encaixa em muitas histórias do Rio, uma cidade que, como ela, é complexa, contraditória e, acima de tudo, inesquecível.
Quem foi Sandra Cavalcanti?
Sandra Martins Cavalcanti de Albuquerque nasceu em 30 de agosto de 1925, em Belém do Pará, mas sua carreira pública foi essencialmente carioca. Formada em Letras pela PUC-Rio, com pós-graduação em Filologia e Linguística, dominava alemão, francês, espanhol, italiano, grego e latim, algo que, na política brasileira, soa mais ou menos como um superpoder desperdiçado.
Em 1954, Sandra foi eleita vereadora com 3.474 votos, pela UDN. Já em 1960, quando se elegeu deputada estadual pela Guanabara, obteve 14.513 votos, o que a colocou em sexto lugar entre os mais votados da UDN. O apoio da escritora Rachel de Queiroz, que disse “a quem um voto dado será um voto dignificado”, ajudou a dar um ar literário à campanha, mas o que realmente contou foi a máquina lacerdista e a capacidade de Sandra de se tornar uma figura conhecida, quase uma celebridade, antes mesmo de assumir o cargo.
Mais do que uma política, Sandra foi uma personagem, uma “coqueluche” que, em uma época dominada por homens, se impôs pela verve afiada e pela convicção inabalável Ela representou, acima de tudo, uma direita intelectualizada, católica, anticomunista e lacerdista, que via na política uma extensão da missão educativa e moralizadora. Foi uma das primeiras mulheres a ocupar cargos de destaque no Rio, defendeu a criação de um ministério para assuntos femininos, votou contra o aborto e a pena de morte, e ainda assim foi acusada de mandar incinerar favelas e afogar mendigos, acusações que ela sempre rebateu com a mesma veemência com que defendia a livre iniciativa, e sobre as quais trataremos adiante.

Mas que história é essa de incendiar favelas e afogar mendigos?
A atuação de Sandra como parlamentar logo a levou a uma posição de liderança no lacerdismo e rendeu o convite para assumir a Secretaria Especial de Serviços Sociais. Sua gestão foi marcada pela remoção de favelas para conjuntos habitacionais como a Cidade de Deus, Vila Kennedy e Vila Aliança, projetos que, na época, eram vistos como modernos, mas que, logo, ganharam a reputação de “higienização social” da Zona Sul.
O problema é que retirar milhares de pessoas de seus lugares de origem e levá-las para conjuntos frequentemente distantes de seus antigos empregos e redes sociais era uma política com enorme potencial de conflito. Mas o problema não foi nem a remoção em si, mas os métodos que lhe foram atribuídos para realizar a missão.
Seus detratores acusavam o governo Lacerda de agir com violência extrema, narrando episódios de incêndios premeditados nas comunidades e, o mais macabro, o suposto afogamento de mendigos no Rio da Guarda. Essas acusações se tornaram uma das mais persistentes lendas urbanas do Rio, que Sandra passou a vida negando veementemente.
Mas onde termina a história e começa a lenda?
A parte mais sinistra da biografia de Sandra precisa ser contada com cuidado. Durante anos circulou a acusação de que ela teria mandado jogar mendigos no Rio da Guarda e ordenado incêndios de favelas. A história ganhou enorme repercussão nas eleições de 1982, quando o candidato Miro Teixeira, então no PMDB, acusou Sandra publicamente de responsabilidade pela chamada “chacina dos mendigos”.
Mas há um detalhe pouco conhecido. Em 1962 houve de fato uma “Operação mata-mendigos”, como ficou conhecida e denunciada pelo jornal Última Hora que virou um fenômeno político e midiático com relatos de execuções de moradores de rua pelo “Serviço de Repressão à Mendicância” (pois é) da Guanabara. Esses absurdos ocrreram antes mesmo da criação da secretaria de Sandra, mas a imagem da senhora de classe média alta, de vestido e usando salto, comandando operações de “limpeza social” em áreas pobres, foi um poderoso combustível para a mitologia política carioca.
Sandra sempre se defendeu das acusações dizendo que eram calúnias propagadas por comunistas e brizolistas, numa tentativa de desmoralizar o governo Lacerda. Para ela, não passavam de rumores sem fundamento, inventados para manchar a imagem de uma gestão que, segundo ela, estava fazendo o certo.
O problema é que essa defesa só alimentava mais a polêmica, porque soava como uma tentativa de desviar o foco das acusações concretas, transformando o debate num embate ideológico. E Sandra, com sua retórica afiada e sua formação de professora, sabia, para ódio e ranger de dentes da turma da esquerda, exatamente como transformar uma acusação num manifesto político, e foi isso que fez, repetidas vezes.

Um cargo que durou pouco
Sandra foi a primeira presidente do Banco Nacional da Habitação, nomeada por Castelo Branco em 1964. Ficou pouquíssimo tempo, até janeiro de 1965. A ruptura política de Carlos Lacerda com o governo militar acabou atingindo Sandra, que perdeu o cargo.
Com a extinção dos partidos pelo AI-2, em outubro de 1965, ela ingressou na Arena, partido de sustentação do regime militar. Só que a própria ruptura de Lacerda com os militares, que se aprofundaria com a Frente Ampla a partir de 1966, empurrou Sandra para uma posição curiosa: continuava identificada com o campo conservador e lacerdista, mas este havia deixado de ocupar o centro da cena política.
Ela voltou ao magistério e, segundo pesquisa acadêmica recente, trabalhou também como consultora na construtora Carvalho Hosken, o que é no mínimo curioso, porque a Carvalho Hosken era uma empresa do setor imobiliário e a política habitacional e de remoção de favelas de que Sandra havia participado na Guanabara tinha estreita relação com a expansão imobiliária da parte mais rica da cidade.

Com esse currículo, como ela foi parar no PTB?
Em 1978, Sandra Cavalcanti, na governista ARENA, foi derrotada elo emedebista Nelson Carneiro na disputa para o Senado, e a outra vaga foi preenchida “bionicamente” por Amaral Peixoto. Senadores biônicos foram parlamentares indicados indiretamente pela Ditadura Militar para garantir maioria governista no Congresso.
O termo surgiu do Pacote de Abril (1977), quando um terço das vagas do Senado passou a ser escolhido por colégios eleitorais. O apelido fazia piada com a série de grande sucesso na época “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, indicando políticos “fabricados” artificialmente pela Ditadura.
Mas como toda boa lacerdista, Sandra não podia cruzar com um varguista na rua que já achava provocação. Quando a ARENA virou PDS ela recusou-se a aportar no mesmo partido e Amaral Peixoto que era casado com nada mais nada menos que Alzira Vargas, a filha mais politizada do próprio Getúlio.

O que ela fez?
Sandra trabalhou para consolidar o Partido Democrático Republicano (PDR), e até conseguiu registro provisório, mas o TSE decidiu que partidos com registro provisório não poderiam disputar eleições naquele ano. Sem legenda, Sandra migrou para o PTB de Ivete Vargas, prima de Alzira, onde concorreu ao governo do Rio em 1982.
Foi uma jogada de sobrevivência política, mas também uma demonstração de que Sandra não se prendia a rótulos: se o PTB era a única legenda disponível, que fosse o PTB, mesmo que isso significasse concorrer com a sigla de Getúlio e Jango, dois nomes com os quais ela sempre cultivou uma relação de amor e ódio, mas sem a parte do amor.
O vencedor foi Leonel Brizola, do PDT, com 34,17% dos votos, seguido por Moreira Franco, do PMDB, com 30,60%. t Sandra, que liderou as pesquisas durante boa parte da campanha, viu no resultado mais do que uma derrota pessoal, mas uma confirmação de que o Rio, naquele momento, queria algo diferente do que ela representava.

A emissora de televisão ambulante
Sandra era prima do apresentador Flávio Cavalcanti, uma relação familiar que ajudou a aproximá-la de um universo no qual sua personalidade encaixava quase perfeitamente. Sandra já tinha experiência jornalística, mas foi sua presença diante das câmeras que se tornaria parte inseparável de sua imagem pública.
Ela foi diretora de telejornal na TV Tupi e ganhou grande exposição como integrante do corpo de jurados do Programa Flávio Cavalcanti. Mais tarde, apresentou o Manchete Shopping Show, na TV Manchete, e participou do Mulher de Hoje, também na Manchete. Não era exatamente o perfil de uma política que precisava de uma assessoria de imprensa para descobrir como aparecer na televisão. Suas participações em diversos programas contribuíram para construir a imagem da “Dama de Ferro”, uma mulher de mente aguçada, mas que sabia falar a linguagem do povão e não tinha medo de se expor nos debates mais polêmicos.
A volta por cima
Mesmo depois de se afastar da carreira parlamentar, Sandra permaneceu ativa. Na primeira gestão de César Maia como prefeito do Rio (1993-1997), ela foi nomeada Secretária Municipal de Projetos Especiais. A indicação foi fogo no parquinho.
César era associado a uma nova direita carioca menos raivosa e admirava a administração de Lacerda. A presença de Sandra em seu governo foi interpretada como uma espécie de ponte entre o velho lacerdismo e a política carioca encarnada no “neo-lacerdista” Cesar Maia.
Entre seus planos estava a retomada das cooperativas habitacionais, especialmente para a classe média, além da defesa da ampliação da capacidade do Porto de Sepetiba. Em 1996, ela não se aguentou e chamou atenção ao criticar as filmagens do videoclipe de Michael Jackson no Morro Dona Marta, reclamando da utilização da pobreza carioca como cenário. Em 1997, já na gestão de Luiz Paulo Conde, coordenou a visita do papa João Paulo II ao Rio. Sandra morreu no Rio, em 11 de março de 2022.






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