Jovens se afastam das urnas e desafiam política a reconstruir conexão com nova geração
Reportagem Especial

Jovens se afastam das urnas e desafiam política a reconstruir conexão com nova geração

Especialistas apontam crise de representação, mudanças na educação e novas formas de participação como fatores do fenômeno

Gostar de política ou não nunca foi uma opção para a publicitária Thaina Fragoso, de 27 anos. Aos 6, ela descobriu que tinha diabetes tipo 1 e que precisaria, ao longo da vida, de injeções diárias de insulina. Em Quissamã, no Norte Fluminense, via a mãe levantar cedo e encarar as longas filas de espera para conseguir o medicamento de forma gratuita na Farmácia do Sistema Único de Saúde (SUS) da cidade. Thaina sempre soube a importância de escolher bem seus representantes para que nunca lhe faltasse a medicação que a mantém viva. Por isso, aos 16 anos, escolheu tirar o título de eleitor e adiantar um processo que só se torna obrigatório a partir dos 18: votar.

“São medicamentos de alto custo que, sem esse auxílio, eu não conseguiria comprar. Muitas pessoas pensam que votar é simplesmente ir até uma urna e apertar um número. Para mim é muito mais do que isso”, diz.

Publicitária Thaina Fragoso tem diabetes tipo 1 e usa insulina desde os 6 anos, isso atraiu seu interesse ao campo político |
Crédito: Arquivo pessoal

“Meu voto nunca foi apenas um número. Reconheci desde pequena que, por trás daquela escolha, estavam decisões que poderiam impactar diretamente a minha saúde, a vida da minha família e a de tantas outras pessoas.”

Thaina Fragoso, publicitária.

A decisão de Thaina vai em contrapartida com os recentes dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que mostram uma diminuição de 14,5% no número de brasileiros de 16 e 17 anos aptos a votar. O eleitorado com até 18 anos saiu de 4.177.627 pessoas em 2022 para 3.571.159 em 2026. Mas por que? 

Para os especialistas ouvidos por Agenda do Poder, não existe uma explicação única. O afastamento pode estar relacionado à crise de representação, às transformações na educação, às redes sociais e à própria forma como os jovens encontram espaços de participação.

Uma geração que não se vê representada

O cientista político Jorge Chaloub, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta uma questão geracional na relação entre jovens e representantes. Ele pontua que a política institucional é formada, em grande parte, por pessoas mais velhas, o que pode ampliar a sensação de distância.

“Usualmente, não só os mais diversos governos representativos, aqueles que governam são mais velhos do que o jovem. Existe uma diferença geracional que gera algum tipo de desconforto, de discordância, por um lado. Por outro lado, a própria representação política traz desconforto. Os representantes são sempre mais restritos, o que produz uma certa sensação de que o governo não está fielmente vinculado às ideias de quem vai votar”.

José Niemeyer, também cientista político e professor do Ibmec-RJ, acrescenta que o jovem pode não enxergar nas instituições um processo capaz de produzir efeitos concretos em sua vida. Para ele, essa percepção ajuda a explicar o desinteresse.

“Tenho a impressão que o desinteresse pela política tem a ver com uma nova gama de interesses, positivos e alguns, na minha opinião, negativos, que fazem com que o jovem não perceba, na instituição pública ou no processo eleitoral nos partidos políticos, um processo que vá trazer benefícios diretos para ele”, avalia. 

Thaina conta que, para ela, nunca teve nada que pudesse sobressaltar a importância de pensar e votar consciente. E isso aprendeu dentro de casa, com a própria mãe, que nunca escondeu a importância que essa decisão poderia ter em sua vida.

“Foi por isso que, em 2016, passei a exercer meu direito ao voto com consciência, procurando escolher candidatos que realmente pudessem contribuir uma melhora na saúde pública e para a garantir os direitos da população, em especial os diabéticos, como eu, mas muitos outros”, pontua a publicitária. 

Como fazer a juventude se reconhecer na política?

Priscila Keiko Sakurada, professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que a redução da participação entre os adolescentes pode estar relacionada a mudanças na formação escolar. 

“Vamos ter como um dos parâmetros de observação o próprio impacto, por exemplo, que tem relação à reforma do ensino médio. A gente teve uma redução da carga horária da área de humanas, por exemplo. Isso vai impactar também nessa relação que os estudantes vão ter com a vida política”, pontua a professora.

O afastamento pode estar relacionado à crise de representação,, apontam especialistas | Marri Nogueira / Agência Senado

O distanciamento da política, porém, não é uma questão exclusiva de quem está chegando agora ao eleitorado. A reportagem especial publicada na semana passada mostra uma pesquisa Datafolha apontando que apenas 23% dos eleitores se lembram dos candidatos em que votaram para o Legislativo na eleição passada. O dado expõe uma relação fragilizada entre eleitor e Parlamento e levanta um debate mais amplo sobre despolitização.

A professora ressalta que educação política não significa simplesmente ensinar o funcionamento das instituições. O jovem precisa conseguir relacionar aquilo que aprende com a própria realidade e perceber que as decisões políticas interferem diretamente em sua vida.

“Você precisa fazer com que os estudantes, os jovens e adolescentes, entendam a correlação que existe dos conteúdos com a sua vida. No momento que a gente trabalha os conteúdos da história, da formação social brasileira, e esse jovem, adolescente, consegue ver como aquilo ali vem para a história dele também, já ajuda o processo de mobilização na vida política”, diz.

Priscila defende ainda que os jovens sejam chamados para o debate público, não necessariamente por meio de partidos, mas a partir de questões concretas que façam sentido para suas vidas.

“Envolver o jovem no debate não é envolver no debate partidário, é envolver num debate de cidadania, no sentido de que ele entenda sua participação e como ela reflete no cotidiano e impacta em sua vida.”

Priscila Keiko, professora da Escola de Serviço Social da UFF

Niemeyer segue uma linha semelhante ao defender que a responsabilidade pela aproximação não pode ser atribuída apenas aos adolescentes. Partidos, instituições eleitorais, escolas e outros espaços de convivência também precisam criar mecanismos para estimular a participação.

“É muito importante que, para isso, novas lideranças surjam no horizonte. Os jovens podem ser candidatos a partir de uma certa idade, participarem de um determinado partido ou agremiação política, ou fazendo política mesmo. De maneira informal, que eles sejam levados a participar novamente”, diz.

A política dentro da tela

As redes sociais também são um dos fatores que chamam a atenção dos especialistas em diferentes pontos. Para Priscila, elas ampliaram as possibilidades de comunicação, mas também criaram ambientes em que o jovem pode passar grande parte do tempo convivendo com opiniões semelhantes às suas.

“As redes sociais, elas vão, ao mesmo tempo, aproximar o sujeito de localidades distantes, mas construir também bolhas. Essas bolhas, na verdade, acabam fazendo com que as pessoas não convivam com a diversidade. Então, isso também afasta os elementos do que diz respeito às participações, inclusive no campo da vida pública”, descreve.

Niemeyer reconhece a importância crescente das redes nas disputas eleitorais, mas faz a ressalva de que a participação política não pode ser reduzida à interação diante de uma tela.

“Não podemos depositar todo o interesse da sociedade brasileira e das estruturas que formam o sistema político brasileiro em meios da internet. Nós temos que ter algo sempre real, de conduta real, que é a participação política real”, ressalta.

Priscila chama atenção ainda para a dificuldade crescente de distinguir informação, propaganda e discurso político em meio ao fluxo de conteúdo.

“A vida nas redes sociais deixa de ser uma via de informação porque, na verdade, começa a ficar mais difícil você saber o que é conteúdo de informação, o que é uma propaganda, o que é um discurso de interesses de propaganda…”.

Priscila Keiko, professora da Escola de Serviço Social da UFF | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

O risco para a democracia

A preocupação dos especialistas não se restringe apenas ao tamanho do eleitorado jovem em 2026. Para Chaloub, a ausência dessa geração pode produzir um efeito acumulado sobre a legitimidade das próprias instituições democráticas.

“Se uma parte do povo jovem não se sente envolvido e influente no processo político, isso ajuda a erodir lentamente a legitimidade dessa forma democrática”, explica o professor.

Niemeyer também considera o cenário grave, mas diz que é preciso entender se o jovem está rejeitando a eleição ou se está se afastando das instituições como um todo.

“É importante nós percebermos isso, se é uma falta pelo desinteresse, por participar da eleição em si, ou se é mais estruturante essa problemática sobre o que o jovem está sentindo, o desinteresse pelas instituições”.

Priscila coloca a questão em outro nível. Para ela, a participação depende da construção de vínculos coletivos e da possibilidade de o jovem encontrar espaços onde possa se reconhecer e ser ouvido.

“O que a gente vê hoje é muito mais o privilégio nos debates centrados principalmente na classe média e com recorte de pessoas brancas e héteros. Se a gente pega as pautas políticas da maioria dos candidatos hoje, eles estão muito mais concentrados nessa faixa etária e nessa classe de renda. Esses jovens acabam também sendo sub representados no sentido do próprio debate, porque eles não são chamados”, diz.

No centro da discussão está uma questão que Chaloub resume como um desafio para o próprio funcionamento da democracia: convencer o jovem de que participar faz diferença.

“Todo sistema político tem que estar muito preocupado e envolver a juventude porque é isso, ele está garantindo a sua legitimidade não apenas no presente mas sobretudo preocupado com isso continuar no futuro”, finaliza.

O que os candidatos propõem

Diante desse cenário, Agenda do Poder procurou Eduardo Paes (PSD), Douglas Ruas (PL), Anthony Garotinho (Republicanos) e William Siri (Psol), os quatro candidatos ao governo do Rio que aparecem entre os primeiros colocados nas pesquisas, para saber o que pretendem fazer para aproximar os jovens da política.

No entanto, somente Siri retornou sobre os questionamentos. Para o candidato, o afastamento dos jovens está relacionado à crise das instituições e à falta de perspectivas econômicas. 

“Eu acho que a crise das instituições e também a crise política da falta de oportunidades e bons empregos, isso dá esse descrédito dessa nossa juventude em relação à política”.

William Siri (Psol), candidato ao governo do Rio | Divulgação

Siri afirma que pretende aproximar o governo dos jovens por meio das redes sociais, ampliando a participação deles nas decisões sobre orçamento e políticas públicas. A proposta também inclui investimentos em educação e a criação de uma estratégia econômica voltada à geração de empregos.

“Um governo que esteja cada vez mais nas redes sociais, conversando com a nossa juventude, para falar para onde vai o orçamento, quais são os projetos que nós temos que investir. Eu acho que sobre a crise econômica, nós precisamos fazer um grande projeto, primeiro, com uma educação de qualidade e, segundo, uma revolução econômica que nós estamos defendendo com complexos produtivos.”

“Porque dar a perspectiva de bons empregos para a nossa juventude é fundamental, isso também fortalece a nossa democracia e dá perspectiva de vida e de futuro”

William Siri (Psol), candidato ao Governo do Rio

Na área da educação, o candidato diz que pretende fortalecer os grêmios estudantis para ampliar a participação dos alunos nas decisões e aproximá-los da formulação de políticas públicas.

“Para a gente ter a nossa juventude, participação social, participação política, pensando o nosso orçamento, construindo políticas públicas, não só de educação, mas econômicas também, vai ser compromisso  do nosso governo com a nossa juventude”, finaliza.

A reportagem tentou contato com os demais candidatos até às 15h de sexta-feira (28), mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.

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