Houve uma época em que a política do Rio de Janeiro produzia personagens que pareciam ter nascidos já embalados para uma biografia, e dentre eles, Roberto Teixeira da Silveira foi um dos mais impressionantes. Nascido em Bom Jesus do Itabapoana, no Noroeste Fluminense, em 1923, ele chegou à vida pública ainda jovem e, em pouco mais de uma década, passou pelo jornalismo, pela Assembleia Legislativa, pelo secretariado estadual, pela vice-governadoria e, finalmente, pelo Palácio do Ingá. Aos 35 anos, já era governador eleito do Estado do Rio. Aos 37, estava morto.
Trabalhista, ligado ao PTB de Getúlio Vargas e João Goulart, Roberto Silveira também conseguiu conversar com a UDN, adversária histórica dos trabalhistas. Foi justamente dessa combinação improvável que saiu sua vitória para o governo estadual, em 1958. Tomou posse em janeiro de 1959 com a fama de político jovem, popular e ambicioso, apontado por muitos como uma das estrelas em ascensão da política nacional.
Seu governo duraria pouco mais de dois anos, mas seria suficiente para produzir uma coleção de episódios que ajudariam a transformar seu nome em uma espécie de patrimônio afetivo da política de Niterói e do antigo Estado do Rio. Roberto Silveira ainda estava começando a construir sua obra quando a própria história tratou de interrompê-la de maneira brutal. O governador que havia entrado no Palácio do Ingá com a promessa de fazer do Estado do Rio uma potência econômica morreria queimado depois da queda de um helicóptero em Petrópolis. E a morte acabaria congelando sua imagem no tempo, preservando o político jovem e promissor que nunca envelheceu diante das urnas.

Quem foi esse Roberto Silveira que dá nome a meia Niterói?
Roberto Teixeira da Silveira nasceu em 11 de junho de 1923, em Bom Jesus do Itabapoana, fez os primeiros estudos em escolas públicas da cidade natal antes de se mudar para Niterói, onde cursou o secundário e, no início da década de 1940, ingressou na Faculdade de Direito e começou a se envolver com o movimento estudantil.
Ainda estudante, atuou como redator no Departamento Estadual de Propaganda e como secretário no jornal Diário da Manhã. Essa passagem pelo jornalismo ajudou a construir sua imagem de homem próximo da imprensa e da opinião pública, algo que seria útil numa carreira política que dependia de discursos, comícios e da capacidade de dialogar com diferentes setores da sociedade.
Já a carreira pública seguiu um roteiro clássico de ascensão trabalhista: filiação ao PTB em 1945, cargo de confiança no gabinete do interventor federal Lúcio Meira em 1946, eleição para a Assembleia Constituinte em 1947, reeleição como deputado estadual em 1950 e, em 1954, o salto para vice-governador na chapa de Miguel Couto Filho, com apoio da coligação PTB-PSP, tornando-se ainda naquele ano presidente do PTB do Rio.
Quando Couto deixou o cargo em 1958 para disputar o Senado, Silveira preferiu não assumir a cadeira que lhe caberia por sucessão, escolhendo, em vez disso, arriscar tudo numa candidatura própria ao governo do estado (decisão que mudaria o mapa político do Rio de Janeiro).

Por que as eleições para governador do Rio de Janeiro em 1958 deixaram tanta gente coçando a cabeça até hoje?
Porque foi um daqueles momentos em que todo mundo tretou com quase todo mundo. Roberto Silveira era do PTB, partido ligado ao getulismo e ao trabalhismo de João Goulart. Seu principal adversário era Getúlio de Moura, do PSD, justamente o partido que durante anos havia governado o Estado sob a influência de Ernâni do Amaral Peixoto. E, para derrotar o PSD, Roberto conseguiu algo que, à primeira vista, parecia politicamente absurdo: a UDN decidiu apoiá-lo. O arranjo é digno de nota porque colocava lado a lado trabalhistas e udenistas, dois grupos que em quase todo o resto do Brasil se tratavam como inimigos históricos.
A aliança recebeu o nome de Coligação Popular-Nacionalista e juntou PTB, UDN, PDC e PSB. Roberto seria o candidato a governador e o udenista Paulo Araújo, secretário-geral da UDN, concorreria a vice. Para completar o arranjo, Miguel Couto Filho, antigo companheiro de chapa de Roberto e ex-governador, disputaria o Senado pelo PSP.
Só havia um pequeno problema. Nem todo mundo na UDN concordou com a ideia.
A convenção que aprovou o apoio a Roberto Silveira foi tumultuada. Entre os presentes estavam dois dos personagens mais conhecidos da política fluminense daquele tempo, Carlos Lacerda e Tenório Cavalcanti. Lacerda, fundador da UDN e um dos maiores adversários nacionais do trabalhismo, era contrário ao acordo. Tenório Cavalcanti, por sua vez, resolveu levar a discordância até o fim. A aliança era questionada dentro da própria estrutura partidária.

Mas o que de fato aconteceu naquelas eleições?
Um bolo doido. O homem da capa preta não apoiou Roberto Silveira. Apoiou justamente Getúlio de Moura, o candidato do PSD. Assim, Tenório acabou fazendo campanha ao lado de Amaral Peixoto, seu adversário político de tantos anos. Era uma daquelas situações que fazem a fotografia de um palanque valer quase tanto quanto o resultado eleitoral.
Mas calma que fica ainda mais confuso. A UDN oficialmente estava com o candidato do PTB para derrotar o PSD. Um dos principais líderes da própria UDN estava com o candidato do PSD para derrotar o petebista. A política do Rio de Janeiro conseguia assim, em uma única eleição, colocar antigos inimigos no mesmo palanque e antigos aliados em palanques opostos.
O próprio Roberto Silveira também não era exatamente um recém-chegado. Em 1954, havia sido eleito vice-governador na chapa de Miguel Couto Filho, numa aliança entre PSD e PTB. Antes disso, entre 1951 e 1954, fora secretário de Interior e Justiça de Amaral Peixoto. Portanto, o homem que agora aparecia como instrumento para derrotar o amaralismo havia passado alguns anos dentro da própria engrenagem de poder criada por Amaral Peixoto que ele agora pretendia derrotar.
E se você acha que falta algum tempero a essa mistura, pesquisas da UFF sobre a política agrária do Rio de Janeiro descrevem a base de apoio construída em torno de Roberto como uma aliança que chegava dos comunistas clandestinos aos conservadores da UDN. Essa tese precisa ser entendida dentro do contexto eleitoral de 1958, quando o Partido Comunista permanecia na ilegalidade e setores nacionalistas e populares formavam alianças bastante diferentes das fronteiras partidárias oficiais.

Como foi o resultado?
O resultado foi uma derrota histórica do PSD. Roberto Silveira recebeu 376.949 votos, 56,6% dos votos válidos, e derrotou Getúlio de Moura. O PSD, que durante anos havia sido a principal força política do Estado do Rio, perdeu o governo. Para completar, o candidato da própria UDN a vice-governador, Paulo Araújo, perdeu para o pessedista Celso Peçanha. Roberto, portanto, venceu a eleição para governador com um companheiro de chapa que não conseguiu se eleger. Era uma vitória pessoal extraordinária.
E foi justamente aí que Roberto Silveira deixou de ser apenas mais um jovem político promissor do PTB para se transformar no chefe de uma nova corrente de poder no Estado do Rio. O robertismo havia nascido de uma contradição. Para derrotar a velha máquina política fluminense, Roberto precisou juntar gente que normalmente não estaria junta.
Mas funcionou.
E funcionou tão bem que, por alguns anos, pareceu possível que aquele rapaz de 35 anos não fosse apenas o próximo governador do Estado do Rio. Poderia ser algo muito maior.

O Que Foi, Afinal, a Revolta das Barcas?
Em 22 de maio de 1959, a população de Niterói protagonizou um dos levantes populares mais violentos da história recente do estado. O estopim foi a exploração sistemática do transporte hidroviário entre Niterói e o Rio, então indispensável, já que a Ponte Rio-Niterói nem existia no papel: cerca de cem mil passageiros dependiam diariamente das barcas controladas pelo Grupo Carreteiro, que pedia constantes aumentos de subsídio ao governo alegando prejuízo, enquanto comprava fazendas e propriedades com dinheiro que, segundo a suspeita popular, jamais correspondia às contas apresentadas , já que a empresa gastava, ao que tudo indica, menos da metade do que exigia dos cofres públicos.
A revolta explodiu depois de uma greve dos trabalhadores do setor: manifestantes incendiaram primeiro a estação de barcas, depois o escritório da companhia e, por fim, a residência da família Carreteiro, no bairro do Fonseca, deixando nas paredes a inscrição “aqui jaz as fortunas do Grupo Carreteiro, acumuladas com o sacrifício do povo”. O confronto com as tropas do Exército chamadas para conter a população resultou em seis mortos e 118 feridos. Você pode ler nossa reportagem completa sobre este episódio clicando aqui.

Como foi, quais as realizações e o legado do governo Roberto Silveira?
Em seus dois anos de governo (1959-1961), Roberto Silveira deixou marcas profundas. Na educação, foram construídos 47 colégios estaduais espalhados por quase todos os municípios, num esforço para combater o analfabetismo entre crianças e jovens. Além disso, articulou com o presidente Juscelino Kubitschek a criação da Universidade Federal Fluminense (UFF), inaugurada em 1960, um marco para o ensino superior no estado.
No campo da infraestrutura, seu governo construiu a Rodovia Niterói-Manilha e a Avenida do Contorno, melhorando a mobilidade na região metropolitana. Também promoveu a primeira reforma agrária estadual do Brasil, distribuindo terras e incentivando a produção agrícola familiar. Seu estilo de governar era marcado por diálogo, presença em obras e uma imagem de gestor próximo do povo que alimentaram durante décadas a lenda do “governador que fez mais em dois anos do que outros em oito”.

A última viagem
Em 20 de fevereiro de 1961, Roberto Silveira embarcou num helicóptero da Marinha no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, para sobrevoar áreas inundadas pelo Rio Pomba, na região de Santo Antônio de Pádua. Durante a decolagem, a aeronave desgovernou-se, atingiu uma palmeira e caiu de cerca de 8 metros de altura, explodindo em seguida.
Silveira sofreu queimaduras graves e hemorragias internas. Foi socorrido e internado, mas seu estado piorou nos dias seguintes. Veio a falecer oito dias depois, em 28 de fevereiro de 1961, aos 37 anos, vítima das complicações do acidente. Até hoje há quem especule sobre assassinato, mas a versão oficial permanece a de acidente.

Seu irmão e seu filho continuaram sua luta política?
A família Silveira se tornou uma das mais influentes da política fluminense por décadas. Seu irmão, Badger da Silveira, também foi governador do Estado do Rio (1963-1964), mas foi cassado pela ditadura militar após o golpe de 1964. Antes disso, atuou como secretário de Educação no governo de Roberto e depois como ministro do Tribunal de Contas.
Seu filho, Jorge Roberto Silveira, seguiu os passos do pai e do tio. Foi deputado estadual e quatro vezes prefeito de Niterói (1989-1992, 1997-2000, 2001-2002 e 2009-2012), deixando marcas como o Museu de Arte Contemporânea (MAC), o Caminho Niemeyer e o programa Médico de Família.

Da série “What if?” E se ele não tivesse morrido no acidente?
À época de sua morte, Roberto Silveira era visto como um dos prováveis sucessores de João Goulart na liderança do PTB e cogitado para compor chapas nacionais, inclusive como vice-presidente. Sua morte, aos 37 anos, interrompeu uma trajetória que muitos acreditavam poder levá-lo à presidência da República
Antes do acidente, o nome de Roberto Silveira circulava como uma forte opção para a vice-presidência da República. Cientistas políticos e historiadores especulam: e se ele tivesse sobrevivido? Como secretário-geral do PTB e aliado de primeira linha de João Goulart, sua presença na cena nacional poderia ter mudado os rumos do país. Talvez ele pudesse ter atuado como um contrapeso mais forte à UDN e a Carlos Lacerda, seu antigo aliado-rival, ajudando a costurar uma resistência mais coesa ao golpe militar de 1964.
Porém, a história é feita de mortes e acasos. Sua morte prematura não só o tirou de cena, como também encerrou a era de ouro do trabalhismo no antigo estado do Rio, abrindo caminho para a instabilidade que culminou no golpe.
O governo de Roberto Silveira foi uma chama que ardeu intensamente, iluminando o caminho do desenvolvimento do Rio de Janeiro, mas que se apagou antes do tempo. Sua história, entre o populismo e a tragédia, revela as contradições da política brasileira dos anos 1950 e 1960. Mais do que um governante, ele se tornou um símbolo que a memória trabalhista se encarregou de perpetuar.
Seu legado físico, nas estradas e na universidade, e seu legado político, na dinastia familiar e na admiração dos que ainda creem no trabalhismo, garantem que seu nome não caia no esquecimento. Afinal, no Brasil, a política muitas vezes se parece com um grande enredo de novela, e Roberto Silveira foi, sem dúvida, um de seus personagens mais trágicos e fascinantes.






Deixe um comentário