* Paulo Baía
Uma campanha muda de semblante quando começa a olhar para a posse antes de terminar a travessia das urnas. Os passos mudam, as vozes se acomodam, os sorrisos ganham a tranquilidade de quem acredita ter chegado. Mas ainda existe estrada. E a publicidade eleitoral costuma pagar caro quando confunde o entusiasmo da caminhada com a certeza da chegada.
Ao acompanhar os discursos das campanhas no rádio, na televisão e nas redes sociais, percebo na propaganda de Flávio Bolsonaro a presença insistente do “já ganhou”. A eleição de 25 de outubro vai sendo apresentada como confirmação de um destino consumado. Ainda se pedem votos, mas o tom parece anunciar que o eleitor encontrará nas urnas uma decisão tomada em seu lugar.
Escrevo a partir dessa percepção, com imaginação sociológica, procurando reconhecer nos gestos, nas palavras e nas imagens a atmosfera que uma campanha produz. Meu artigo é uma constatação, não um alerta. Observo a maneira como a expectativa de poder começa a organizar comportamentos antes que o poder tenha sido conquistado.
Uma campanha alegre, confiante, com disposição de vitória, tem pulsação. Abre espaço para o eleitor entrar, sentir que participa, imaginar que seu voto fará diferença. O “já ganhou” pode fechar essa porta. A confiança mobiliza quando comunica que a vitória está ao alcance. A presunção acomoda quando sugere que ela já está garantida. Entre uma coisa e outra, existe uma distância que a publicidade às vezes atravessa sem perceber.
O erro está nessa passagem. A festa antecipada pode esfriar a vontade dos aliados, incomodar quem ainda hesita e devolver energia ao adversário. Alguns eleitores gostam de acompanhar a força. Outros se ressentem quando essa força parece dispensá-los. Ninguém conhece inteiramente o que se passa na intimidade de uma escolha eleitoral.
Fora da propaganda, a mesma atmosfera se espalha. Disputam-se cargos, desenham-se equipes, negociam-se os comandos da Câmara e do Senado. A discussão sobre ampliar mandatos acrescenta à cena a impressão de um futuro já ocupado. Brasília parece experimentar as roupas de 2027 enquanto o país ainda precisa atravessar outubro. O governo imaginado começa a falar mais alto que a eleição em curso.
Flávio tem motivos para transmitir confiança. O primeiro turno e a força parlamentar de seu campo oferecem chão para essa expectativa. Mas o chão de uma campanha se move. Uma vantagem não transforma o segundo turno em solenidade. O eleitor chega à urna trazendo a vida consigo: as contas, o trabalho, a fé, os ressentimentos, os sonhos e aquilo que nem sempre consegue dizer numa entrevista.
Enquanto isso, percebo outra música na campanha de Lula. O tom ficou mais alegre, ganhou disposição de vitória. A comunicação deixou de ser ranzinza, chorona e fantasmagórica. As ameaças cederam espaço a uma presença mais viva. As imagens do dia 12 de outubro, na minha leitura, dão corpo a essa mudança. Uma campanha parece voltar a gostar de estar entre as pessoas, recuperando o prazer do encontro.
Isso fez bem. O lamento prolongado pesa sobre quem escuta. A ameaça repetida pode transformar o futuro numa sala sem janelas. O eleitor conhece dificuldades demais para desejar uma campanha que apenas as devolva, ampliadas, à sua porta. Quer ouvir propostas, mas também procura um sinal de vida, uma possibilidade de respirar melhor.
A alegria não resolve uma eleição. Precisa encontrar palavras, compromissos, organização e votos. Ainda assim, altera a temperatura do encontro. Um sorriso pode abrir a escuta que a reprimenda fechou. Uma campanha com vontade de vencer oferece ao eleitor a oportunidade de desejar junto. E o desejo participa da política, mesmo quando os discursos tentam reduzi-la a cálculo.
É nesse cenário que nasce minha pergunta: o que fez a campanha de Flávio Bolsonaro tomar o rumo do “já ganhou” justamente agora? O resultado do primeiro turno? A chegada dos aliados tardios? A movimentação de uma Brasília impaciente para repartir o próximo governo? Ou a crença publicitária de que encenar a vitória ajuda a produzi-la?
Essas forças podem se alimentar umas das outras. Quem chega para negociar um cargo confirma ao candidato a impressão de que ele venceu. A campanha devolve essa impressão ao público. Forma-se um circuito de certezas no qual todos se escutam e poucos percebem o que continua acontecendo do lado de fora.
Ainda não temos um bom retrato deste segundo turno em andamento. A Quaest divulgará sua pesquisa nacional em 14 de outubro e o Datafolha, no dia 15. Os dois institutos estão nas ruas. São as pesquisas em que mais confio, junto com as do Meio/Ideia. Teremos uma métrica para observar o impacto da campanha, embora uma pesquisa não explique, sozinha, todas as razões de um movimento eleitoral.
Por enquanto, acompanho os discursos, as imagens, a respiração de cada candidatura. Flávio continuará no ritmo do “já ganhou”? Lula sustentará essa alegria e conseguirá transformá-la em mobilização?
A urna ainda espera. Entre a festa preparada e o voto depositado, existe o eleitor. E existe o vento, que atravessa a rua sem pedir licença a quem já reservou a varanda.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ







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