* Paulo Baía
Amigos e amigas,
A campanha de Lula escolhe o desespero quando faz do medo seu principal argumento para o segundo turno. E comete um erro de leitura da sociedade brasileira quando imagina que a ameaça de perder benefícios, aposentadorias, cuidados públicos e garantias democráticas será suficiente para conter o desejo de mudança.
Esta é a hipótese que sustento: o marketing do medo oferece preservação a uma sociedade que exige transformação. Procura converter insegurança em fidelidade, necessidade em consentimento e memória em obrigação eleitoral. Interpela o cidadão pelo que ele teme perder e deixa em segundo plano aquilo que ele deseja conquistar.
O equívoco está nessa redução da experiência social. A vida popular contém medo, mas também ambição, julgamento, orgulho, ressentimento, esperança e vontade de ultrapassar a própria condição. Quem depende de proteção pública não está condenado a desejar apenas sua continuidade. Também quer renda melhor, reconhecimento, autonomia, segurança e futuro.
A estratégia da campanha está documentada. Em 6 de outubro, Catia Seabra, Caio Spechoto e Mariana Brasil, na Folha de S.Paulo, descrevem a orientação de advertir beneficiários sobre a redução de programas sociais e aposentados sobre a possibilidade de desvincular aposentadorias dos reajustes do salário mínimo. Segundo a reportagem, Lula considera que a população trata a continuidade dos benefícios como garantida. A campanha pretende desfazer essa segurança pela apresentação de uma ameaça.
Bruna Lessa, no Globo, registra no mesmo dia a peça que associa o “tesouraço” de Flávio Bolsonaro a cortes atribuídos ao governo de seu pai. Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida, Mais Médicos, combate ao câncer, cisternas, merenda e prevenção de desastres entram numa narrativa que apresenta o passado como prenúncio de perdas futuras.
Minha crítica incide sobre essa escolha política. A defesa de uma política pública exige informação, comparação e exame de consequências. O marketing do medo transforma essa discussão numa convocação à obediência pela possibilidade do desamparo.
Uma família pode precisar do Bolsa Família e querer outro governo. Um aposentado pode defender sua renda e rejeitar a administração que a paga. Uma pessoa com deficiência pode valorizar a assistência e estar exausta dos obstáculos para acessá-la. Um trabalhador pode desejar proteção na velhice e considerar esgotada a liderança que governa o presente.
Essas escolhas pertencem à autonomia do cidadão. O benefício não compra sua consciência. A aposentadoria não estabelece uma dívida de lealdade. O serviço público não torna seu usuário patrimônio eleitoral de uma candidatura.
A pobreza é uma condição social, não uma identidade política pronta.
A campanha erra quando fala aos pobres como se a condição de beneficiário encerrasse sua visão de mundo. Erra quando trata idosos e aposentados apenas como pessoas vulneráveis à perda. Erra quando reduz pessoas com deficiência e seus familiares à necessidade de assistência. Em cada uma dessas experiências há direitos, relações, conflitos, expectativas e projetos de vida.
A proteção social é decisiva justamente porque permite viver além da sobrevivência. A renda de um idoso alcança o domicílio. O acesso a medicamentos preserva autonomia. Um serviço de cuidado reorganiza o tempo de uma família e pode aliviar a sobrecarga das mulheres. A previdência oferece uma perspectiva para quem passou a vida trabalhando. Essas políticas devem ampliar a liberdade de seus destinatários.
Quando aparecem como razão para temer a alternância de governo, sua defesa adquire uma feição tutelar. O cidadão é chamado a conservar por necessidade, em vez de ser reconhecido em sua capacidade de julgar.
Também é indispensável preservar as diferenças conceituais. Transferência de renda, assistência social, previdência contributiva e serviços de saúde e cuidado têm funções e mecanismos próprios. Uma alteração de reajuste não equivale à extinção de um benefício. Uma mudança de critério não equivale ao encerramento de toda proteção. A propaganda que reúne essas decisões sob a imagem de uma perda total produz temor e obscurece o debate.
O ponto central permanece: a importância material de uma política não determina a fidelidade eleitoral de quem dela precisa.
Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco oferecem uma contribuição decisiva para compreender essa autonomia. Em “Da esperança ao ódio: juventude, política e pobreza do lulismo ao bolsonarismo”, a pesquisa com jovens do Morro da Cruz, em Porto Alegre, acompanha mudanças nas condições materiais, na capacidade de aspirar e nas formas de interpretar a política. As autoras mostram como esperança e hostilidade se entrelaçam na formação das subjetividades.
Leio esse trabalho a partir de minha hipótese: melhorar condições de vida também modifica desejos e expectativas. Quem experimenta novas possibilidades não permanece imóvel na posição social e política que lhe foi atribuída. A experiência de ascensão abre outras exigências. Quando essas exigências encontram bloqueios, a frustração procura explicações e alternativas.
Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, Rosana descreve interlocutores com trajetórias variadas e identifica pessoas procurando saídas para vidas difíceis. A diversidade encontrada impede tratar o eleitor popular como personagem de uma única narrativa. Essa contribuição desmonta a imagem de uma população cuja escolha decorreria mecanicamente de sua renda ou da política pública que recebe.
A discussão das aspirações populares reaparece na coluna de Marcos Augusto Gonçalves, publicada na Folha em 6 de outubro, a partir das reflexões de Rosana. O autor chama atenção para a dissociação entre condição econômica e identidade política e para expectativas de autonomia e prosperidade. Sua análise converge com o eixo deste ensaio: a linguagem da proteção não esgota os desejos de quem trabalha e vive sob insegurança.
O trabalhador pode permanecer pobre e se imaginar em movimento. Pode trabalhar por aplicativo, vender pelas redes, abrir um pequeno negócio ou acumular ocupações e construir sua identidade em torno do esforço pessoal. Essa identidade não elimina sua precariedade. Altera a maneira como ele a compreende.
A campanha que lhe oferece apenas preservação fala com uma imagem antiga de sua existência. A campanha que reivindica sua gratidão pode ser recebida como apropriação do esforço que ele considera seu.
É aqui que o estudo de Marcos Nobre sobre o Partido Digital Bolsonarista amplia a análise.
Na obra coletiva vinculada ao Centro para Imaginação Crítica do Cebrap, com participação de Nobre e Ana Cláudia Chaves Teixeira, o bolsonarismo digital é examinado como organização política. Em entrevista ao Jornal da Unicamp, Nobre descreve um partido de massas capaz de processar posições contraditórias, construir uma agenda e produzir participação e hegemonia. O conceito ultrapassa a imagem de perfis dispersos fazendo propaganda.
A consequência que extraio para minha hipótese é direta: a campanha de Lula enfrenta uma organização que participa da formação de interpretações da vida cotidiana. Uma mensagem de ameaça chega a pessoas que já discutem política dentro de vínculos de pertencimento e confiança. Não encontra uma consciência vazia à espera de esclarecimento.
Nobre distingue bolsonarismo, ecossistema digital e partido digital. Essa distinção permite enxergar a disputa para além da figura de Jair Bolsonaro. A organização não se resume à vontade de um líder. Minha leitura é que reduzir seu alcance à repetição de uma advertência sobre a família Bolsonaro deixa de enfrentar a densidade social do fenômeno.
Jornal da Unicamp
O marketing do medo tenta resolver por uma mensagem o que também é um problema de organização, identidade e experiência.
A própria disputa sobre o Bolsa Família revela a dificuldade. A Reuters registrou em 6 de outubro a promessa de Flávio de manter o programa e permitir sua continuidade na transição para o trabalho formal ou para um negócio. A promessa exige exame e cobrança. Sua presença, entretanto, permite ao eleitor imaginar continuidade da proteção com mudança de governo.
O G1 publicou reportagens sobre propostas de salário mínimo, aposentadorias e previdência e sobre o Datafolha entre beneficiários do Bolsa Família. Os trechos indexados desta última registravam, em setembro, 53% de intenção de voto em Lula e 28% em Flávio. As páginas não ficaram integralmente acessíveis. O dado disponível mostra vantagem de Lula naquele momento e apoio ao adversário entre beneficiários. O recebimento de uma política não determina uma única escolha.
A sociedade de 2026 tampouco é a sociedade de 2014. O estudo “Discurso do medo nas eleições presidenciais de 2014”, disponível na Biblioteca Digital do TSE, identifica o uso do recurso por diferentes candidaturas. A vitória de Dilma não autoriza transformar aquela campanha numa fórmula universal.
Joyce Miranda Leão Martins, Vera Chaia e Mércia Alves, em “Campanha negativa e estratégias do medo: a mudança na eleição presidencial de 2014”, publicado na revista Lumina, da Universidade Federal de Juiz de Fora, analisam a disputa pelo sentido da mudança depois de junho de 2013. PT e PSDB procuravam apresentar suas alternativas como seguras e a terceira via como incerta. O desejo de transformação já atravessava a sociedade.
Minha hipótese é que a campanha atual subestima a ampliação e a reorganização desse desejo. Recorre a uma linguagem de conservação diante de experiências que acumularam frustrações e novas expectativas.
A literatura sobre propaganda negativa ajuda a definir o objeto da crítica. Felipe Borba, em Opinião Pública, mostra que ataques podem informar sobre políticas e propostas. Em trabalho com Fábio Vasconcellos, são examinados riscos de efeitos adversos, inclusive prejuízos para quem ataca. A crítica ao adversário integra o debate. O erro que identifico é fazer do medo o princípio que organiza esse debate e o horizonte oferecido à sociedade.
A advertência sobre a democracia reproduz o problema em outro registro. O Painel, da Folha, informou em 5 de outubro que Lula seria apresentado como a única opção democrática, também para mobilizar quem não votou. Mas o Datafolha divulgado em 2 de outubro registra preferência pela democracia entre 76% dos eleitores de Lula e 74% dos eleitores de Flávio.
O diagnóstico da campanha não é uma interpretação compartilhada por todos os que valorizam a democracia. A discordância precisa ser compreendida. Repetir a ameaça não dissolve as diferentes concepções sobre instituições, direitos e legitimidade.
Minha percepção é que a linguagem da ameaça institucional encontra especial acolhida em círculos intelectuais, culturais e universitários das classes médias urbanas. Essa delimitação é minha hipótese sociológica, não um cruzamento estatístico por curso ou profissão. O argumento central é que a campanha confunde a força de sua linguagem nesses ambientes com capacidade de persuasão sobre o conjunto da sociedade.
O Datafolha de agosto registra maior interesse intenso por política entre pessoas de maior renda e escolaridade, mas interesse semelhante nos dois eleitorados. Escolaridade não determina concordância com o diagnóstico da campanha. Tampouco a menor escolaridade significa ausência de julgamento político.
Esther Solano, em “Por uma democracia concreta”, publicado na CartaCapital, coloca em discussão a distância entre defesa institucional e experiência de desigualdade. A democracia é recebida através da vida que se vive. Sua promessa também é julgada pelos direitos que não chegam e pela proteção que falha.
A contribuição de Solano reforça minha crítica à abstração da mensagem. Pedir que alguém tema a perda de uma ordem não resolve sua insatisfação com a maneira como essa ordem organiza sua existência.
O estudo qualitativo do instituto Democracia em Xeque, apresentado pela Folha em agosto, identifica desejo de mudança, pragmatismo e sensibilidade ao noticiário entre eleitores pendulares. Deniza Gurgel, em análise publicada pelo UOL em 6 de outubro, aponta o desgaste de uma comunicação apoiada na biografia de Lula e destaca a construção de comunidades digitais pelo campo adversário. São contribuições distintas que ajudam a compreender a insuficiência de falar apenas pela autoridade do passado.
Também a abstenção não pode ser tratada como uma reserva eleitoral que aguarda uma ameaça mais forte. Ausências têm razões variadas. Não há uma vontade coletiva escondida no fato de não comparecer. Interpretá-las exige investigação, não uma narrativa conveniente à campanha.
Sustento, da abertura ao fechamento, a mesma hipótese: o marketing do medo é uma escolha de desespero porque procura obter pela ameaça o consentimento que a defesa do governo não assegurou. E é um erro de leitura porque toma a vulnerabilidade como disposição para conservar, quando ela também produz inconformismo e desejo de mudança.
Marcos Nobre ajuda a compreender a organização que disputa esse desejo. Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco ajudam a compreender as aspirações que se transformam dentro da vida popular. Essas contribuições não são endossos automáticos à minha conclusão. São instrumentos para formulá-la com precisão: a sociedade mudou, suas identidades se reorganizaram e suas expectativas ultrapassam a linguagem da preservação.
A campanha olha para o benefício e perde de vista o projeto de vida. Olha para o receio e subestima a vontade de sair do lugar. Olha para a memória de suas realizações e espera que ela governe o futuro do eleitor.
Esse é o erro que denuncio.
A preferência por Lula em 25 de outubro não exige silêncio diante dele. Exige capacidade de reconhecer que proteção pública e autonomia caminham juntas. Quem precisa de direitos também tem o direito de julgar, discordar e desejar outra vida.
A sociedade brasileira não deve ser interpretada apenas pelo que teme perder. Minha hipótese começa e termina no que ela quer transformar.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ







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