O governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), poderá enfrentar uma crise financeira logo no início de seu mandato, em janeiro de 2027. Projeções discutidas na Secretaria de Estado da Fazenda e divulgada pelo jornal O Estado de Minas apontam risco de insuficiência de recursos disponíveis em caixa para garantir o pagamento pontual dos salários dos servidores públicos já no primeiro mês da nova administração.
O cenário preocupa a equipe do atual governador, Mateus Simões (PSD), que prepara a transferência de comando do Executivo estadual. Entre os principais pontos de atenção estão o volume de despesas obrigatórias, as limitações sobre o uso de receitas vinculadas e a promessa de Cleitinho de reduzir o Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).
A situação é agravada pelo fato de que parte dos recursos existentes nos cofres estaduais possui destinação legal específica e não pode ser utilizada livremente para cobrir despesas com pessoal.
Diante das incertezas, Simões anunciou uma “transição transparente”, com transmissão de reuniões pela televisão estatal, e passou a fazer alertas públicos sobre as dificuldades que o sucessor poderá encontrar.
Governo alerta para risco de atraso nos salários
Em uma das manifestações, Mateus Simões demonstrou preocupação com o futuro de aproximadamente 700 mil servidores e familiares, declaração considerada “desrespeitosa” por integrantes do grupo político de Cleitinho.
Embora não tenha detalhado os motivos da apreensão, o atual governador sugeriu que compromissos assumidos durante a campanha, especialmente a redução do IPVA, poderiam comprometer a capacidade financeira do estado.
Em Minas Gerais, o recolhimento do imposto sobre veículos começa em fevereiro, após alteração aprovada pela Assembleia Legislativa. A mudança foi defendida por representantes do comércio para reduzir a inadimplência provocada pela concentração de despesas das famílias no início do ano.
Com isso, a arrecadação do tributo não estará disponível em janeiro, justamente quando a nova administração assumirá as responsabilidades financeiras do estado.
Outro fator que chama a atenção é a possível utilização de R$ 2,1 bilhões provenientes da negociação da folha de pagamento com o banco Itaú para garantir o pagamento do 13º salário ainda em 2026.
A equipe de Simões pretende apresentar os detalhes da situação financeira na etapa final da transição, incluindo as receitas previstas, os compromissos já assumidos e o impacto de eventuais mudanças tributárias.
Nos bastidores da administração estadual, a avaliação é de que as despesas podem superar os recursos disponíveis no início do próximo ano.
Redução do IPVA pode pressionar ainda mais as contas
Uma das principais promessas eleitorais de Cleitinho Azevedo é a diminuição do IPVA, medida que poderá reduzir a arrecadação estadual em um momento de restrições orçamentárias.
A equipe de transição já iniciou conversas com auditores fiscais para estudar alternativas que permitam encaminhar um projeto de redução do imposto.
O governador eleito sustenta que a perda de receita poderia ser compensada por uma revisão dos benefícios fiscais concedidos atualmente a empresas instaladas em Minas Gerais.
Essas renúncias tributárias são estimadas em aproximadamente R$ 25 bilhões, valor que passou a integrar as discussões sobre o financiamento das propostas da futura gestão.
A estratégia, entretanto, apresenta desafios. Uma redução dos incentivos pode provocar resistência de setores empresariais e estimular disputas com outros estados interessados em atrair investimentos.
Além disso, a revisão dos benefícios não representa necessariamente a recuperação imediata de todo o valor renunciado, o que exigirá planejamento para evitar desequilíbrios adicionais.
Cleitinho busca apoio para renegociar dívida de Minas
A situação financeira do estado também levou Cleitinho a Brasília, na quinta-feira (8), para conversar com o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) sobre a dívida mineira.
O encontro teve caráter político, já que o senador ainda disputa o segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e não possui autoridade para assumir compromissos em nome do governo federal.
Apesar da recepção favorável, não houve anúncio de medidas concretas para aliviar o endividamento de Minas Gerais.
Segundo relatos de bastidores, Flávio demonstra reservas quanto à possibilidade de conceder tratamento diferenciado ao estado, especialmente diante das demandas semelhantes de outras unidades da Federação.
Outro ponto de divergência seria a intenção de Cleitinho de reduzir receitas próprias por meio do IPVA enquanto busca condições mais favoráveis para o pagamento da dívida estadual.
Servidores cobram reajustes e valorização profissional
Além dos desafios financeiros, Cleitinho enfrentará pressão de entidades representativas do funcionalismo público, que esperam medidas de valorização profissional e recomposição salarial.
As cobranças envolvem diferentes categorias, incluindo servidores da Fazenda, educação, segurança pública e Ministério Público.
A diretora-presidente da Associação dos Funcionários Fiscais do Estado de Minas Gerais (Affemg), Sara Costa Felix, destacou a necessidade de assegurar recursos para o funcionamento dos serviços públicos.
“É preciso assegurar as condições adequadas e os recursos necessários para garantir as condições de trabalho e remuneração atualizada aos servidores públicos”, disse a diretora-presidente da Affemg, Sara Costa Felix.
O coordenador-geral do Sindicato dos Servidores da Justiça de Minas Gerais (SinjusMG), Felipe Rodrigues, cobrou o cumprimento das promessas feitas durante a campanha eleitoral.
“Ele se elegeu prometendo respeitar e valorizar o servidor, como a recomposição inflacionária dos salários dos servidores. Esperamos que suas palavras não tenham sido da boca pra fora”, cobrou o coordenador-geral do SinjusMG, Felipe Rodrigues.
Na educação, a coordenadora do SindUte, Denise Romano, defendeu mudanças na condução das políticas públicas estaduais.
“Se o que vimos até agora foi o desprezo pelos trabalhadores em educação, estudantes e comunidades, com a falta de investimentos e ‘desvios’ dos recursos da educação; o que esperamos é o contrário daquilo vivido no último período de governo, cujas políticas não deram certo”, pontuou Denise Romano, do SindUte.
Representando profissionais da segurança pública, o coronel Ailton Cirilo, da Associação dos Oficiais da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (AOPMBM/MG), também apresentou reivindicações.
“A segurança pública espera que o futuro governador inaugure ciclo de valorização dos profissionais e das instituições militares, com diálogo, recomposição das perdas remuneratórias e assegure a paridade e integralidade”, manifestou o cel. Ailton Cirilo, da AOPMBM/MG.
A representante do Sindicato dos Servidores do Ministério Público de Minas Gerais, Fanny Melo, defendeu uma administração comprometida com a população.
“Esperamos que ele realmente possa governar e cuidar da esmagadora maioria da população que anseia por uma Minas justa e igual para todos”, acentuou Fanny Melo, do Sindicato dos Servidores do Ministério Público de Minas.
Já a presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de Minas Gerais (Sindifisco-MG), Deliane de Oliveira, ressaltou a importância do fortalecimento da estrutura de arrecadação.
“Os auditores fiscais de Minas esperam que o novo governo inaugure ciclo de diálogo, valorização profissional e fortalecimento da administração tributária”, apontou a presidente do Sindifisco-MG, Deliane de Oliveira.
Transição terá de conciliar promessas e restrições financeiras
A combinação entre a possibilidade de insuficiência de caixa, o endividamento estadual e as reivindicações do funcionalismo coloca a situação fiscal entre os maiores desafios da futura administração.
Para cumprir suas promessas, Cleitinho precisará encontrar alternativas que permitam reduzir impostos sem comprometer despesas obrigatórias e a manutenção dos serviços públicos.
O risco de atraso salarial, embora ainda não confirmado, deverá ser um dos principais assuntos da etapa final da transição entre Mateus Simões e o governador eleito.
A apresentação detalhada das contas estaduais será fundamental para esclarecer a dimensão do problema e indicar quais medidas poderão ser adotadas antes da posse, em 1º de janeiro de 2027.






Deixe um comentário