Nísia Trindade foi convocada pela vida. Pela vida de quem trabalha, cuida, enfrenta filas, atravessa a cidade e procura alguma segurança para o dia seguinte. Foi convocada pela cidadania que herdamos das lutas pelas eleições diretas e pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Essa herança lhe apresenta uma responsabilidade que ultrapassa a ocupação de uma cadeira na Câmara dos Deputados: participar da construção de uma nova esquerda democrática, capaz de reconhecer o Brasil que existe e de abrir caminhos para o Brasil que desejamos.
Sua eleição, em 4 de outubro de 2026, oferece uma oportunidade que precisamos compreender sem submetê-la imediatamente às conveniências das máquinas partidárias. Vejo em Nísia uma possibilidade de renovação que será desperdiçada se a confinarmos à tarefa de reunir os pedaços de uma esquerda espatifada em sua relação com a sociedade.
Há momentos em que a história exige outra construção. Insistir na restauração pode consumir justamente a energia necessária para começar. Na minha leitura, a noite de 4 de outubro representa uma ruptura profunda com as fórmulas políticas da Nova República.
Considero ferida de morte a pretensão de que o petismo e o lulismo, tal como se organizaram e governaram, possam continuar oferecendo por si mesmos o horizonte da esquerda brasileira. Essa é uma interpretação do sentido político das urnas, e não a afirmação de que partidos, eleitores e instituições desapareceram. O que considero esgotado é sua capacidade de reivindicar o futuro como prolongamento automático de sua própria história.
Os votos recebidos por Nísia podem ser lidos como uma abertura dentro desse esgotamento. Não pretendo atribuir a todos os seus eleitores uma intenção única. O voto reúne razões diversas. Mas vejo nessa escolha um indício de que ainda existe disposição para reconhecer uma liderança cujo compromisso público se formou na ciência, na saúde e na responsabilidade com a vida.
Cabe transformar essa confiança em uma experiência política que alcance muito além dos limites habituais de uma organização partidária.
Há quem queira fazer de Nísia a porta-voz de uma luta interna estéril, encarregada de socorrer estruturas que perderam a capacidade de escutar. Recuso esse destino. Não se salvam cadáveres políticos com a vitalidade de quem ainda pode construir. Respeitam-se as histórias, compreendem-se os fracassos e sepultam-se as fórmulas que se tornaram incapazes de responder ao presente. A memória merece consideração; a nostalgia não pode comandar o mandato.
Nísia tem diante de si uma missão difícil e fascinante. Uma jornada que exigirá discernimento para reconhecer o que deve ser preservado e coragem para abandonar o que já se converteu em obstáculo. Sua travessia será particularmente exigente porque as estruturas antigas sabem absorver a novidade. Oferecem espaços, distribuem funções e concedem reconhecimento, desde que a liderança recém-chegada aprenda a falar a língua da acomodação.
É dessa captura que precisamos protegê-la. Sua experiência na presidência da Fiocruz e no Ministério da Saúde pertence à sua formação pública. Apagar essa trajetória seria empobrecer a possibilidade que agora se abre. A novidade que enxergo nela depende do uso que fará dessa experiência: colocar o conhecimento acumulado a serviço de vínculos democráticos mais amplos e de respostas concretas para a população.
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Uma esquerda que tenha os fundos partidários e eleitorais como oráculo termina por organizar seu pensamento em torno da própria reprodução. A pergunta sobre o país cede lugar ao cálculo dos recursos, das candidaturas viáveis e dos espaços disponíveis. O cidadão passa a aparecer como eleitor potencial; o território, como área de influência; a instituição, como posição a ocupar. Quando essa lógica comanda tudo, a política se torna administração de sobrevivência.
O financiamento público deve servir à competição democrática, com transparência e critérios verificáveis. O problema começa quando a distribuição do dinheiro concentra poder nas direções e estabelece relações de dependência que silenciam a divergência. Uma nova esquerda terá de discutir quem decide, segundo quais critérios, com que prestação de contas e com que possibilidade de contestação. A autonomia não sobreviverá se depender da benevolência de quem controla os recursos.
Essa mudança precisa alcançar as relações institucionais. A esquerda corporativa se acomoda quando trata universidades, conselhos, entidades profissionais e órgãos públicos como espaços de domínio de seus grupos. Confunde a defesa de uma instituição com a proteção de quem a controla. A discordância passa a ser interpretada como deslealdade, e o interesse público acaba reduzido ao interesse da corporação.
Instituições democráticas precisam de pluralidade, competência e regras que resistam à troca de seus dirigentes. Defender a universidade, a ciência e o SUS exige aceitar o exame de suas práticas. Prestação de contas, avaliação de resultados e abertura à crítica devem integrar essa defesa. Um serviço público pertence também ao cidadão que não conhece os códigos de quem o administra e que jamais participou das redes de seus dirigentes.
O clientelismo também precisa ser enfrentado em suas formas antigas e em suas apresentações mais sofisticadas. Sua estrutura permanece reconhecível: relações assimétricas de poder nas quais alguém controla um recurso necessário e o oferece em troca de apoio, fidelidade ou voto. A dependência de quem precisa pesa mais do que a liberdade de quem decide conceder. As alianças podem mudar conforme a conveniência, enquanto a desigualdade que sustenta a troca continua intacta.
Chamo de patrimonialismo de grife a apropriação do público que se apresenta com vocabulário moderno, credenciais respeitáveis e justificativas progressistas. Pode ostentar a linguagem da participação e conservar, por baixo dela, o velho poder de selecionar quem entra, quem recebe e quem deve agradecer. O refinamento da aparência não altera o mecanismo. Um direito condicionado à proximidade com o intermediário continua sendo um direito diminuído.
Nísia terá de construir um mandato que amplie a capacidade de reivindicação dos cidadãos. Recursos e emendas devem obedecer a critérios públicos, relacionados às necessidades dos territórios, com acompanhamento acessível. O acesso a uma política pública precisa dispensar a fidelidade eleitoral. Quem discorda da deputada deve encontrar a mesma disposição de atendimento e o mesmo respeito concedidos a quem votou nela. Essa será uma prova concreta da renovação que defendemos.
Vejo Nísia como uma figura capaz de abrir uma etapa nova da vida política. Essa capacidade não decorre de uma suposta ausência de vínculos anteriores, nem deve convertê-la em personagem idealizada. Depende de escolhas que ainda terá de fazer. Uma liderança se renova quando admite aprender, aceita contrariar os seus e reconhece que a sociedade não cabe nas categorias utilizadas para administrá-la.
Nesse ponto, a crítica ao identitarismo precisa ser precisa. As lutas contra o racismo, o machismo e outras formas de discriminação pertencem à construção da cidadania. Abandoná-las significaria aceitar desigualdades que atravessam a vida brasileira. O problema surge quando identidades são transformadas em roteiros fechados, nos quais a posição de cada pessoa já determina o que ela pode pensar, sentir ou dizer.
As máscaras do teatro grego ajudam a imaginar esse risco: a personagem se apresenta com sinais reconhecíveis, e o público espera dela determinado papel. Na política, porém, pessoas não podem ser condenadas a representar um destino escrito de antemão. Quando uma linguagem exige a repetição de signos e afetos previamente autorizados, ela perde a capacidade de reconhecer experiências que não correspondem ao seu enredo.
Uma esquerda democrática deve escutar o sujeito inteiro. A trabalhadora pode combinar fé religiosa, reivindicação de igualdade e posições conservadoras em questões específicas. O jovem pode defender liberdade individual e desejar uma presença maior do Estado na segurança de seu bairro. Essas combinações exigem diálogo. Classificar a pessoa antes de ouvi-la transforma a diferença em distância e desperdiça possibilidades de confiança.
É por isso que insisto na necessidade de compreender o bolsonarismo como fenômeno social, político e cultural. Considero impressionante sua capacidade de oferecer a muitas pessoas uma linguagem de pertencimento. Compreender essa força exige investigar os vínculos que ela mobiliza e o sentido que seus participantes atribuem à própria experiência. A crítica democrática se enfraquece quando substitui esse trabalho por desprezo.
A esquerda precisa perguntar por que suas palavras deixaram de alcançar tantas pessoas. Por que a promessa de proteção parece distante? Por que experiências de insegurança, abandono e frustração encontram acolhimento em outros discursos? Essas perguntas não obrigam a aceitar soluções autoritárias. Obrigam a reconhecer que uma necessidade real pode ser mobilizada por uma resposta que ameaça a democracia.
Segurança, por exemplo, deve ser discutida a partir da liberdade de viver sem medo e com proteção pública. Quem sai cedo para trabalhar tem direito de voltar para casa. A violência estatal e a violência criminal precisam ser enfrentadas com responsabilidade, sem fazer da população refém de uma disputa de palavras de ordem. Uma esquerda que não consiga conversar sobre isso perderá contato com parte decisiva da experiência cotidiana.
O mesmo vale para o trabalho. A vida de quem depende de renda incerta, presta serviços ou trabalha por plataformas precisa ocupar o centro da reflexão política. Proteção social, formação e condições dignas devem ser discutidas com essas pessoas, levando a sério suas expectativas de autonomia. A experiência concreta do trabalhador deve orientar a proposta, inclusive quando desafia hábitos de pensamento da própria esquerda.
A trajetória de Nísia oferece condições para aproximar esse debate de uma política do cuidado. Cuidar significa reconhecer o tempo de quem acompanha um familiar doente, a sobrecarga de quem cria filhos e a insegurança de quem espera um diagnóstico. Na Câmara, saúde e ciência podem se traduzir em fiscalização, legislação e debate orçamentário voltados a essas necessidades. O valor de uma iniciativa deverá ser medido também por aquilo que muda na vida de quem precisa dela.
Essa atuação exige atenção à capacidade do Estado de cumprir o que promete. Uma lei sem condições de implementação pode aumentar a frustração. Uma política que ignora os profissionais responsáveis por executá-la pode fracassar mesmo quando sua intenção é correta. Nísia terá de reunir conhecimento técnico e escuta pública para formular medidas sustentáveis, acompanhar sua execução e explicar seus limites com honestidade.
A nova sociedade brasileira vive na relação entre o digital e a concretude dos encontros face a face. A conversa circula pelas telas e se prolonga no trabalho, na família, na igreja e na vizinhança. Um mandato que pretenda acompanhar essa vida precisará de presença nos territórios e de canais digitais que permitam resposta e participação. Publicar conteúdo, sozinho, não produz vínculo.
A comunicação de Nísia deverá ajudar as pessoas a compreender escolhas e a participar delas. Um gabinete aberto pode tornar visíveis suas prioridades, receber críticas e mostrar o destino de demandas encaminhadas. A linguagem acessível não diminui a complexidade do trabalho parlamentar. Ela permite que o cidadão acompanhe esse trabalho sem depender de um tradutor da máquina política.
Também considero indispensável aproximar a esquerda democrática de um centro político comprometido com a democracia. Essa aproximação terá de se apoiar em compromissos claros: respeito ao voto, pluralismo, direitos fundamentais e instituições abertas à fiscalização. Divergências sobre economia e políticas públicas devem ser discutidas dentro desse campo. A cooperação democrática ganha força quando seus participantes preservam a capacidade de discordar.
O centro que precisamos ajudar a construir não pode ser apenas uma posição de conveniência entre forças em disputa. Deve assumir responsabilidades, inclusive diante do autoritarismo e da captura do Estado por interesses particulares. Da mesma forma, a esquerda terá de abandonar a pretensão de conceder certificados de legitimidade democrática apenas a quem aceita todas as suas formulações. O país exige acordos que possam ser explicados publicamente.
Não deposito em Nísia a obrigação de salvar sozinha a esquerda brasileira. Esse seria outro modo de repetir o personalismo que criticamos. Sua liderança pode reunir pessoas, abrir espaços e estimular uma construção coletiva. Para isso, precisará admitir protagonismos que não controla e cultivar uma organização capaz de continuar trabalhando quando ela não estiver presente.
O apoio de amigos e amigas ajudou a abrir essa possibilidade. Agora, nossa responsabilidade é sustentar uma relação que inclua cobrança e divergência. Apoiar Nísia significa defender sua autonomia e exigir coerência com o compromisso público que reconhecemos nela. A confiança deve permitir a crítica. Sem isso, o entusiasmo corre o risco de produzir mais um círculo de proteção em torno de uma liderança.
Quando me refiro ao esgotamento da Nova República, incluo nessa crítica o que chamo de emedebismo visceral: a acomodação permanente que transforma a negociação política em fim de si mesma. Negociar é necessário à democracia. O esgotamento ocorre quando o acordo serve principalmente para conservar posições e repartir influência, sem que o cidadão possa reconhecer o benefício público que o justifica.
Esse hábito atravessou diferentes partidos e alcançou a esquerda que prometia transformá-lo. Uma nova construção terá de estabelecer limites, expor razões e aceitar perder vantagens quando elas exigirem a renúncia ao seu propósito.
O mandato de Nísia será testado nesse terreno. Sua diferença dependerá menos da proclamação de princípios do que das escolhas feitas quando os princípios tiverem custo.
O passado pode receber o respeito devido aos que lutaram pela democracia, aos que ampliaram direitos e aos que dedicaram a vida à organização popular.
Também precisa ser examinado em seus erros. Não proponho apagar essa história. Proponho retirar dela a autoridade de impedir novos caminhos. O réquiem cabe às fórmulas esgotadas; a cidadania conquistada continua exigindo defesa.
Há, na imagem do samba sobre uma liderança que nasce no morro, uma força que me ajuda a pensar Nísia: a vida coletiva reconhece alguém capaz de abrir uma passagem. A liderança surge desse reconhecimento e terá de corresponder a ele. Sua eleição a leva a um novo patamar de responsabilidade, no qual a disposição para ouvir será tão necessária quanto a coragem para decidir.
Nísia, vamos ao Congresso Nacional construir uma esquerda democrática que devolva sentido público à política e ajude a fortalecer um centro democrático. O bloco dos mortos que se pretendem vivos saberá oferecer abrigo e cobrar submissão. Sua missão pede liberdade para semear outras relações, organizar outras esperanças e aceitar o trabalho paciente de lhes dar consequência.
Você foi convocada pela vida e pela cidadania herdada das lutas democráticas. A travessia começa com essa obrigação. Leve consigo o conhecimento e a experiência que a formaram, escute a sociedade que a escolheu e abandone as fórmulas que impedem a construção. Precisamos de uma liderança que nos ajude a trabalhar pelo novo, com raízes na vida brasileira e coragem para responder por suas escolhas.
*Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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