A pesquisa Meio/Ideia retrata uma eleição em que cada avanço precisa ser conquistado. No primeiro turno, Lula tem vantagem numérica, com 39,4%, diante dos 38,4% de Flávio Bolsonaro. Esse ponto de diferença não oferece abrigo seguro.
Há dois candidatos próximos, amparados por forças sociais distintas, disputando a confiança de um país que chega às urnas dividido em suas expectativas e memórias.
Lula conserva recursos políticos importantes. Sua trajetória e a preferência entre os mais pobres sustentam uma liderança duradoura. Mas o desempenho de Flávio Bolsonaro revela movimentos consistentes e elevada competitividade.
Na série de segundo turno, ele passou de 43% em agosto para 46% no início de setembro e 48% nesta rodada. Lula foi de 48,5% para 46% e retornou a 48,5%. A aproximação existe, embora seu percurso tenha curvas, sem uma linha reta.
Flávio encontra uma possibilidade adicional na concentração tardia de votos. Entre eleitores de outras candidaturas de direita, 36,6% consideram migrar para ele no primeiro turno. É uma porta entreaberta, não uma passagem consumada.
Outros 63,4% não consideram essa mudança. O antipetismo reúne vontades, mas não apaga diferenças. A direita tem suas fronteiras e suas recusas. Nem todos caminham juntos apenas porque desejam afastar o mesmo adversário.
A vantagem numérica de Lula convive com uma oposição capaz de disputar a liderança. Nenhum dos dois, contudo, aparece próximo da maioria absoluta dos votos válidos. Vencer em 4 de outubro exigiria uma concentração expressiva de preferências, superior à demonstrada no levantamento.
O segundo turno permanece como o desfecho mais compatível com os dados. Domingo, entretanto, não será apenas uma passagem: seu resultado poderá alterar o ânimo e o sentido da disputa.
Na simulação de segundo turno, Lula registra 48,5% e Flávio, 48%. Cinco décimos separam os dois. Não há igualdade aritmética exata, mas uma proximidade numérica extrema.
O empate é rigorosamente estrutural: nasce da compensação entre bases sociais, territoriais e políticas de força semelhante. Cada candidatura encontra na outra o limite de sua expansão. São duas possibilidades de maioria diante da mesma porta, sem que nenhuma tenha assegurado a chave.
Lula aparece à frente entre mulheres, católicos, pessoas com renda de até um salário mínimo e eleitores acima de 45 anos. Flávio se destaca entre homens, evangélicos, pessoas com mais de cinco salários mínimos e determinadas faixas etárias.
Lula lidera numericamente no Nordeste e no Sudeste; Flávio tem vantagens amplas no Sul e no Centro-Oeste. Esse mapa abriga experiências diferentes de vida e de país. Suas cores, porém, não tornam os habitantes de cada região iguais entre si.
As transferências de votos revelam outras passagens. Na simulação final, 55,6% dos eleitores de Augusto Cury escolhem Lula, enquanto 82,2% dos eleitores de Renan Santos preferem Flávio. Entre os de Caiado e Zema, há divisões e indefinição.
O eleitor pode atravessar fronteiras ideológicas, guardar fidelidades e estabelecer novas prioridades. Na hora da escolha, identidade, avaliação do governo e rejeição ao adversário podem falar juntas.
O governo também participa desse equilíbrio. Lula tem 49% de aprovação e 49% de desaprovação. A continuidade presidencial divide opiniões, enquanto a segurança pública recebe avaliação especialmente negativa.
A rejeição elevada aos dois candidatos estreita os caminhos de expansão. O segundo turno poderá ser decidido pela adesão, pela escolha comparativa e pelo comparecimento. Entre declarar uma preferência e depositar um voto existe o movimento da vida.
Tudo pode acontecer nessa disputa. Os cenários estão em disputa, com forças identificáveis e vantagens reversíveis. Lula ainda conserva uma dianteira mínima; Flávio demonstra elevada competitividade.
A pesquisa retrata um país dividido, no qual poucos décimos separam os candidatos e nenhuma maioria está assegurada.
* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.







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