Esta não é uma convocação nem um pedido de votos. Não quero conduzir a mão de ninguém diante da urna. Cada pessoa tem sua consciência e seus afetos. Depois de tantos anos analisando as escolhas dos outros, considero honesto declarar as minhas.
Falo como analista político, mas também como professor, pai, avô e cidadão. Tenho lembranças, amizades, discordâncias e gratidões.
Penso nos meus filhos, em minha neta, nas crianças, nos jovens e nos idosos. Penso no Rio de Janeiro, que me alegra e me machuca, e no Brasil que trabalha, ama, sofre e ainda acorda no dia seguinte.
Para deputada federal, votarei em Nísia Trindade, do PT, número 1310. Meu voto começa na Escola Politécnica da UFRJ, quando a jovem estudante de Sociologia foi minha monitora em Humanidades e Ciências Sociais. Lembro sua inteligência e delicadeza. Nísia tornou-se professora, pesquisadora, gestora e a primeira mulher a presidir a Fiocruz.
Durante a pandemia, quando respirar virou preocupação diária, a Fiocruz foi ciência, vacina e esperança. Para mim, Nísia foi uma Heroína brasileira. Ao digitar 1310, reencontrarei a jovem socióloga e a mulher que ajudou o Brasil a respirar.
Para deputado estadual, votarei em André Ceciliano, do PT, número 13567. Ex-prefeito de Paracambi, deputado e presidente da ALERJ, André conhece a Baixada Fluminense e as zonas ásperas da política. Ficamos amigos no campo de batalha, nessas trincheiras que Ernest Hemingway soube compreender. Não concordamos em tudo, pois amizade não é servidão. Meu voto reconhece seu espírito público e sua defesa do diálogo.
Um dos meus votos para o Senado será em Pedro Paulo, do PSD, número 555. Ele representa um centro democrático, liberal e moderado. A democracia precisa de convicções e pontes. Seu primeiro suplente é Miro Teixeira, que conheceu o Parlamento durante a ditadura, participou da oposição democrática, exerceu sucessivos mandatos e foi ministro das Comunicações. Sua inteligência independente pertence à melhor tradição política do Rio. Sua experiência não é peça de museu, mas reserva de lucidez. Votar em Pedro Paulo também abre uma fresta para Miro retornar ao Senado.
Meu outro voto será em Mônica Benício, do PSOL, número 500. Seria injusto reduzi-la à dor ou somente à condição de viúva de Marielle Franco. Mônica tem voz própria e transformou o luto em ação sem fazer da perda sua única identidade. Como vereadora, defendeu direitos humanos, mulheres, população LGBTQIA+, educação, cultura e territórios populares. Sabe partir do particular e alcançar o universal.
Mônica me lembra Manuela d’Ávila, gaúcha, ex-vereadora, ex-deputada e candidata à Vice-Presidência, hoje concorrendo ao Senado pelo Rio Grande do Sul com minha torcida. Ambas conhecem a violência contra as mulheres na política e respondem sem abandonar a delicadeza. Não voto em Mônica por compaixão. Voto na mulher que atravessou a noite e decidiu não morar nela, numa carioca pronta para unir identidade e cidadania, liberdade e igualdade, memória e futuro.
Para governador, votarei em Cyro Garcia, do PSTU, número 16. Somos ideologicamente diferentes, mas amigos cordiais. Seu compromisso como professor, bancário e militante merece respeito. Meu voto afirma o direito das minorias de disputar o futuro e homenageia Marcelo Cerqueira, defensor dos perseguidos pelo autoritarismo. Se Eduardo Paes estiver no segundo turno, votarei no candidato do PSD, número 55. Será um voto político diante da realidade do estado.
Para presidente, votarei em Lula, do PT, número 13, no primeiro turno e, se ele estiver na disputa, no segundo. Sem julgar os demais candidatos, meu voto é político e conjuntural. Nasce dos riscos do presente, da defesa da democracia e do enfrentamento das desigualdades. Não há devoção nesse voto. Há memória e responsabilidade.
Esses são os meus votos. Não os apresento como receita ou prova de virtude, porque cada voto carrega uma biografia. O meu carrega salas de aula, livros, amizades, divergências, perdas e esperanças. Diante da urna, comigo estarão meus filhos, minha neta, meus alunos, meus amigos vivos e meus mortos queridos. Estarão o analista, o cidadão, o pai, o avô e o professor que ainda acredita numa vida pública menos cruel, mais inteligente, terna e humana. Esta declaração é uma confidência pública e o meu voto dito em voz alta.
Paulo Baía é cientista político, sociólogo, ensaísta e professor da UFRJ







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