Opinião

Universidade pública: o conteúdo não basta, a ética é indispensável

Na carta aberta, apresento meu entendimento acerca da diferença existente entre radicalismo e defesa de princípios, sendo esta última a motivação dos questionamentos trazidos pela comunidade acadêmica nos textos dos grupos a que tive acesso

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* Clarissa Oliveira da Silva

A matéria publicada há algumas horas na Agenda do Poder e intitulada “Universidade Rural cancela palestra de Eike Batista após reação de professores e alunos” nos traz uma situação singular, a julgar pela repercussão do assunto nas redes sociais. Além da matéria mencionada e de muito engajamento, o assunto gerou duas outras matérias anteriores no jornal “O Globo”: a primeira, na qual se publiciza o cancelamento da palestra do empresário, na data de 29/10/2026, e uma segunda, na data de 30/10/2026, em que ele e sua equipe manifestam desagrado pelo ocorrido, atribuindo à pressão de um suposto grupo de radicais da universidade tal cancelamento.

Como professora da UFRRJ, já me manifestei em carta aberta publicada em meu perfil (@clarissarural) a respeito da inexistência de qualquer radicalismo, pelo menos no grupo em que externei minha posição contrária ao evento. Naquele grupo, houve, sim, apresentação, por parte de alguns, de posicionamentos que questionavam o convite feito, mas sem exageros, e sempre no aguardo das explicações para as questões ali trazidas. Acredito ter havido em outros grupos manifestações semelhantes, por conta de cópias de diálogos que recebi. E não me foi possível identificar, em nenhum deles, qualquer pedido explícito de cancelamento da palestra. Esta decisão partiu da organização do evento ou da administração central da UFRRJ (não sei bem precisar seu nascedouro, até porque se fundem algumas vezes estes papéis), da mesma forma que parece ter acontecido com o convite inicial.

Na carta aberta, apresento meu entendimento acerca da diferença existente entre radicalismo e defesa de princípios, sendo esta última a motivação dos questionamentos trazidos pela comunidade acadêmica nos textos dos grupos a que tive acesso. Não pretendo repetir aqui esses questionamentos. Afinal, pode ser mais útil, a partir de todo este rebuliço, tentar aprofundar o entendimento do que de fato ocorre, tanto dentro da universidade quanto fora dela, e que suscitou tantos movimentos.

Eventos acontecem o tempo inteiro dentro de uma universidade. Convites são feitos e palestras são ministradas em todas as áreas do conhecimento, seja de modo avulso, em semanas acadêmicas ou workshops. Nos cursos de pós-graduação, há disciplinas intituladas “Seminários”, em que estudantes de pós-graduação assistem a palestras e aprendem a ministrá-las. Geralmente buscamos palestrantes com experiência e uma carreira com algum nível de distinção, para serem referência para nossos estudantes no assunto apresentado. Sabem… Referência é algo fundamental na vida. Principalmente na vida profissional e na formação numa universidade. A partir do referencial adotado, problemas podem ser resolvidos ou ficar sem solução, pois o que é visto depende dele. Sustentar que somente o conteúdo importe é negligenciar uma escolha anterior, que pode passar despercebida, embora fundamental: o ponto a partir do qual se olha para o conteúdo investigado. E quando escolhemos um palestrante, pelo menos numa universidade, o referencial já foi considerado e analisado, quase que automaticamente, pelo(a) integrante da academia que fez o convite. Dissociar conteúdo de referencial é negligenciar aquilo que distingue a universidade de outros locais onde palestras são apresentadas: a ética. Defender que somente o conteúdo e seu domínio bastem para qualificar alguém para palestrar pode ser admissível em outras instituições, a depender de seus propósitos, mas não numa universidade pública. Pois essa guarda compromisso com uma formação humanista, que ensina que o benefício individual não deve ser obtido à custa de sacrifícios coletivos ou da subtração de oportunidades coletivas, dada a igualdade absoluta existente entre todos os seres humanos. Não digo que isso aconteça sempre em toda universidade pública, mas é um formato a ser perseguido, pois de seu grau de sucesso depende a construção de uma sociedade mais sustentável e justa. Domínio de conteúdo, portanto, é condição necessária para se palestrar numa universidade, mas não suficiente. É preciso que o referencial também seja considerado.

Normalizar a ideia de que somente o conteúdo importe é negligenciar a ética social e coletiva. E por que ela é importante, pergunto aqui? Aliás, como poderíamos defini-la? No meu entendimento, ética é a conduta que deixa transparente, sem margem para dúvida, a intenção de uma ação. Talvez por isso seja útil, para aqueles que atacam a universidade pública, normalizar a ideia da importância exclusiva do conteúdo. Eliminar a ética, ou mesmo reduzir sua importância, é suficiente para tornar a universidade um local indistinto daqueles tantos onde existe informação de senso comum, não necessariamente qualificada, e sem intenção ou propósitos claros. É destruí-la por dentro.

E por mais que se tente diminuir o papel da universidade pública, ser preterido por ela ainda dói, pois ela, apesar de combalida, tem institucionalidade sólida e profunda, tem credibilidade genuína, consolidada ao longo do tempo pelo trabalho dedicado daqueles que por ela passaram. Agora, a continuidade desse trabalho depende do nosso empenho para que ela continue a servir à formação das gerações futuras.

* Clarissa Oliveira da Silva, professora titular da UFRRJ – Departamento de Química Fundamental

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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