Opinião

O domingo em que a alegria perdeu a voz

Quem estabelece o ritmo obriga o outro a correr atrás. Quem consegue provocar e conservar a expressão de segurança transforma a irritação alheia em confirmação do próprio personagem

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Durante o dia, a esperança teve corpo. Ocupou ruas, atravessou avenidas, cantou debaixo de sol e chuva. Nas manifestações de apoio a Lula, milhares de pessoas fizeram da presença uma declaração: estamos aqui, ainda somos muitos, ainda podemos. De Brasília a Copacabana, os encontros devolveram à campanha aquilo que nenhuma publicidade fabrica sozinha: o calor de uma multidão que reconhece, nos outros, a própria vontade de vencer. O domingo parecia ter encontrado sua música.

Há uma força particular nessa alegria. A sociologia reconhece nas reuniões coletivas a capacidade de produzir uma energia que ultrapassa cada participante. Quem chega sozinho encontra um nós. A dúvida não desaparece, mas perde o monopólio do pensamento. A bandeira erguida pelo desconhecido confirma a nossa; o canto que começa adiante encontra continuidade na nossa voz. Uma manifestação também organiza sentimentos. Transforma inquietação em movimento, solidão em pertencimento, receio em coragem para pedir mais um voto.

À noite, diante da televisão, essa energia encontrou uma parede.

O debate da Band interrompeu o domingo por dentro. Na minha leitura, a alegria acumulada nas ruas começou a escorrer entre as falas de Lula, suas hesitações, suas respostas sem direção suficiente para conduzir o confronto. A expectativa era ver o candidato recolher aquela força e devolvê-la ampliada. O que apareceu foi um homem progressivamente aprisionado pela cena. O canto da tarde deu lugar à mandíbula contraída, ao silêncio entre uma mensagem e outra, à pergunta que ninguém gostaria de formular: ele não está percebendo o que está acontecendo?

Lula teve um péssimo desempenho. A contundência dessa avaliação nasce da necessidade de compreender o estrago. A agência internacional de notícias Reuters registrou, em sua cobertura do debate, a avaliação de que Flávio Bolsonaro obteve uma ligeira vantagem, sobretudo pela postura, enquanto Lula se mostrou desconfortável e nervoso. Trata-se de uma análise recolhida pela reportagem, não de uma medição do comportamento dos eleitores. Ainda assim, ela ajuda a reconhecer o centro do acontecimento: a diferença entre sustentar argumentos e conseguir sustentar uma presença diante das câmeras.

A observação publicada pela Reuters toca precisamente na ferida daquela noite. A superioridade percebida estava na maneira de ocupar o encontro. A substância das respostas não desaparece, mas perde espaço quando um participante parece dirigir o espetáculo e o outro mal consegue encontrar sua posição. Uma campanha pode preparar informações, números e acusações e, ainda assim, deixar seu candidato desarmado diante da situação em que precisará utilizá-los.

Foi um debate de performances, muito mais do que de argumentos. As palavras chegavam acompanhadas de rostos, pausas, deslocamentos, gestos calculados. Cada resposta também procurava distribuir papéis: quem acusa, quem se explica, quem avança, quem recua. A disputa eleitoral assumia a forma de uma representação teatral, na qual a audiência julgava simultaneamente o enunciado e o ator. A verdade de uma afirmação exige verificação. A aparência de domínio pode instalar-se em poucos segundos.

A imagem do teatro grego clássico ajuda a iluminar o acontecimento. A máscara tornava o personagem reconhecível, dava forma à sua presença diante da comunidade. No palco televisivo, Flávio Bolsonaro pareceu escolher as máscaras adequadas a cada passagem: a segurança, a indignação, a familiaridade, a provocação. Uma sucedia à outra sem desfazer o personagem central. Sua atuação sugeria um texto bem gravado na memória e incorporado ao corpo. A fala continuava nos gestos. O gesto encontrava prolongamento no movimento.

Lula entrou com outro figurino. Parecia preparado para uma partida em Roland Garros: tênis, raquete, a confiança de quem conhece a quadra e sabe devolver uma bola difícil. Mas o confronto acontecia num tatame de taekwondo. Vieram chutes e socos, enquanto ele procurava a trajetória de uma bola inexistente. Abanava a raquete diante de um adversário que já havia imposto outra modalidade de combate. A experiência estava ali. Faltava reconhecer o jogo que efetivamente se jogava.

Nesse desencontro, Lula acabou reduzido, em minha avaliação, ao lugar de um bufão involuntário diante de um ator bem treinado. É uma imagem dura para descrever uma posição cênica: o personagem deslocado, cujos recursos, fora de lugar, passam a servir ao espetáculo do oponente. Quanto mais tentava responder sem recuperar o comando, mais alimentava a representação adversária. A biografia não conseguia socorrer o instante. A autoridade acumulada precisava tornar-se presença, e essa passagem falhava diante das câmeras.

Flávio tomou conta do palco. Todo o palco. A impressão que sua atuação produziu foi a de domínio contínuo, mesmo quando a palavra estava com Lula. Esse é um mecanismo conhecido das relações de poder: definir a situação pode ser mais eficaz do que vencer cada discussão dentro dela. Quem estabelece o ritmo obriga o outro a correr atrás. Quem consegue provocar e conservar a expressão de segurança transforma a irritação alheia em confirmação do próprio personagem.

Sua performance operou em duas frequências. Aos seus apoiadores, ofereceu uma imagem de controle. Aos apoiadores de Lula, devolveu irritação, ansiedade, impotência diante da tela. Dizer que os candidatos falaram somente para suas bases seria pouco. Uma base pode sair fortalecida; outra, ferida no ânimo. O eleitor permanece com seu candidato, mas perde a disposição de defendê-lo. Continua disposto a votar, já sem a mesma vontade de conversar, insistir, convencer. A preferência resiste enquanto a energia política se retrai.

Não há pesquisa apresentada que autorize atribuir esse sentimento a todos os eleitores de Lula, nem anunciar uma transferência de votos. O diagnóstico é de uma dinâmica possível de desmobilização. A alegria das manifestações e o abatimento diante do debate pertencem ao mesmo processo: uma campanha vive de adesões e da capacidade de mantê-las em movimento. A depressão, aqui, designa essa queda do ânimo coletivo. O balde de água gelada atingiu justamente quem passara o dia aquecendo a campanha.

O alcance tornou o problema maior. Dados prévios divulgados pelo UOL indicaram que a Band chegou a 14,50 pontos na Grande São Paulo e ultrapassou a Globo durante o confronto. Esse pico corresponde a cerca de 1,14 milhão de domicílios apenas na região medida. Considerada a transmissão nacional, alguns milhões de lares estavam com suas televisões ligadas, assistindo ao debate. A cena tinha escala de acontecimento nacional. Depois, seus fragmentos continuariam circulando nas redes, onde uma hesitação pode sobreviver mais do que uma resposta inteira.

Por isso, mantenho a recomendação: Lula não deve ir ao debate da Globo. Deve intensificar encontros, agendas de rua e entrevistas, recuperar a comunicação com quem ainda lhe oferece presença e esperança. A campanha precisa reencontrar a música daquele domingo antes da noite. A multidão entregou uma força que o candidato não conseguiu traduzir. Agora é necessário devolver-lhe voz, horizonte, vontade de continuar. A rua ofereceu um coro. No palco, Lula perdeu a entrada. Uma eleição tão disputada não permite que esse silêncio se repita.

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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