Opinião

A derrota começa quando deixamos de ouvir

A reconstrução começa quando paramos de explicar ao povo o que ele deveria sentir e aceitamos escutar o que está sentindo

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Amigos e amigas, há noites em que não adianta procurar uma palavra mais confortável. Perdemos. E a derrota não cabe apenas no resultado das urnas. Ela vinha se anunciando nas conversas interrompidas, nos olhares de impaciência, na distância entre o que dizíamos e aquilo que as pessoas precisavam ouvir. A eleição apenas deu um nome público a um afastamento que já acontecia na vida comum.

Reconhecer isso dói. Para quem dedicou tantos anos à política, às lutas sociais e à esperança de um país menos desigual, não é simples admitir que o nosso campo perdeu o rumo. Mas seria ainda pior transformar a tristeza em desculpa e passar os próximos dias procurando culpados do lado de fora. Há uma responsabilidade nossa que nenhuma explicação conveniente pode apagar.

Enquanto discutíamos, a vida seguia cobrando. A conta de luz chegava, o aluguel vencia, o dinheiro terminava antes do mês. Havia gente esperando uma consulta, procurando trabalho, contando moedas no mercado. E havia o medo, esse companheiro que entra no ônibus, acompanha a caminhada e só sossega quando a porta de casa se fecha. Era dessa vida que precisávamos falar.

Não digo que as pessoas sejam todas contrárias ao identitarismo. Seria outra simplificação, mais uma maneira de evitar o trabalho de compreender. Digo que muita gente não encontrou nesse discurso uma resposta para o que lhe tirava o sono. Escutava palavras, mas não enxergava caminhos. E, quando a política deixa de oferecer caminhos, a confiança começa a procurar outra porta.

A esquerda brasileira se deixou desfigurar pelo identitarismo de estilo norte-americano. Importou modos de falar, critérios de pertencimento e disputas que nem sempre ajudam a entender o Brasil. Ao mesmo tempo, continuou agarrada a dogmas herdados dos séculos XIX e XX, como se o respeito à própria história exigisse repetir suas fórmulas. Entre a novidade importada e a certeza envelhecida, perdeu o presente.

Não se trata de abandonar a luta contra o racismo, o machismo ou qualquer forma de discriminação. Essas injustiças atravessam a vida concreta e precisam ser enfrentadas. O problema aparece quando a defesa de direitos se fecha numa linguagem que afasta, quando ouvir uma dúvida vira concessão e quando uma discordância basta para encerrar a conversa. Assim, a política vai ficando sem interlocutores.

Nós nos acostumamos a conversar entre os nossos. Nas reuniões, nas redes, nos ambientes em que quase todos já concordavam, cada frase encontrava aprovação. Confundimos esse reconhecimento com presença na sociedade. Lá fora, porém, havia perguntas sem resposta. E, em vez de prestar atenção nelas, muitas vezes preferimos corrigir a maneira como eram feitas.

Também carregamos velhas certezas como quem guarda móveis numa casa em que já não consegue circular. Há ideias que merecem continuar conosco; outras precisam ser revistas. Nenhuma nasceu com direito à eternidade. Mas fomos adiando essa arrumação, receosos de que pensar de novo fosse uma traição. Acabamos mais atentos à fidelidade às cartilhas do que às mudanças da vida.

Agora, diante da derrota política e eleitoral, a tentação é dizer que o povo não entendeu. Essa frase nos poupa por um instante, mas cobra caro depois. Quem se propõe a representar as pessoas precisa compreender suas escolhas, inclusive aquelas que contrariam seus desejos. O voto que nos recusaram não pode ser tratado como uma falha de quem votou. Ele exige perguntas sobre nós.

Não tenho uma receita para amanhã. Tenho a convicção de que o primeiro passo é baixar a voz e abrir os ouvidos. Voltar aos bairros, às filas, às conversas sem plateia. Perguntar e suportar a resposta. Reaprender a falar de trabalho, renda, segurança, saúde e dignidade com palavras que encontrem a experiência de quem está à nossa frente.

Hoje, cabe reconhecer: fomos derrotados. A reconstrução começa quando paramos de explicar ao povo o que ele deveria sentir e aceitamos escutar o que está sentindo. A conta continua na mão, a comida continua contada. É ali que a nossa política precisa voltar a fazer sentido.

Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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