Tenho escrito nas últimas semanas sobre um Brasil que muda de mãos enquanto contempla os mesmos rostos. A Presidência permanece no centro da imaginação nacional, recebendo esperanças, ressentimentos e pedidos de salvação. Entretanto, o poder percorre outros caminhos, encontra novos operadores e se instala nas relações miúdas da existência.
Minha preocupação está no país que começará a governar a si mesmo em 2027. Reconheceremos seus edifícios, seus cargos e suas cerimônias. Talvez já não reconheçamos, com a mesma facilidade, o espaço que restará para respirar dentro deles.
Em “A República deslocada: o Congresso de 2027 e a forma futura do poder brasileiro”, publicado na Agenda do Poder, examinei a capilaridade adquirida pela autoridade parlamentar. As emendas alcançam municípios, serviços públicos, universidades, circuitos culturais e organizações sociais.
O mandato ganha corpo onde financia uma atividade, entrega um equipamento ou sustenta uma instituição. O poder aprende a ser presença. Entra no cotidiano por uma obra, um atendimento, um patrocínio, estabelecendo vínculos que sobrevivem à campanha e nem sempre revelam sua origem política.
É desse lugar de observação que formulo minha tese: o dia 4 de outubro de 2026 poderá selar o encerramento irreversível da centralidade histórica dos personagens forjados na Nova República e de seus herdeiros gestacionais. Refiro-me aos que nasceram politicamente de seus métodos, ambientes e maneiras de compreender a sociedade.
Alguns continuarão ocupando cargos. Outros poderão vencer eleições. Seus nomes permanecerão nas fachadas da vida pública, mas o tempo que lhes conferiu sentido estará se afastando. Uma biografia pode sobreviver ao mundo que a tornou possível.
A Nova República começou em 1985, no governo José Sarney, após a eleição indireta de Tancredo Neves e o impedimento de sua posse. Nasceu de uma transição negociada, carregando as marcas do regime que se encerrava, e encontrou expressão constitucional em 1988.
Reuniu democratas, antigos servidores da ditadura, dirigentes populares, liberais, sindicalistas e operadores regionais. Dessa convivência desigual surgiu uma ordem na qual ampliar direitos e reconhecer adversários passaram a constituir referências legítimas da vida pública.
Não houve inocência nessa construção. A violência continuou nas periferias, o racismo organizou oportunidades e a cidadania conservou portas estreitas, guardadas pela renda, pela cor e pelo endereço. Ainda assim, milhões passaram a reivindicar proteção como direito.
A escola, o atendimento de saúde, a aposentadoria e a liberdade de organização adquiriram outra inscrição política. A Constituição ofereceu palavras para contestar aquilo que o país havia aprendido a aceitar em silêncio. A promessa era incompleta, mas permitia exigir que fosse cumprida.
Maria Hermínia Tavares ajuda a compreender o alcance dessa experiência. Em “Os anos de ouro: ensaios sobre a democracia no Brasil”, associa a consolidação democrática aos avanços nos direitos de cidadania. Em “Assim se fez a democracia”, destaca a negociação, a moderação e o reconhecimento dos resultados eleitorais.
Essa leitura impede que a crítica transforme o passado em terreno arrasado. Permite também medir a perda quando o adversário deixa de ser reconhecido como alguém autorizado a participar da construção nacional.
Em “A última eleição da Nova República”, Maria Hermínia aproxima o fim da geração constituinte do desgaste dos pactos que sustentaram aquela ordem. Situa em 2018 uma ruptura decisiva, com a ascensão da extrema direita.
Minha interpretação acrescenta uma possibilidade: o primeiro turno de 2026 poderá dar àquela ruptura uma estrutura parlamentar mais duradoura. Desenvolvo meu próprio prognóstico a partir de um diagnóstico com o qual dialogo. O que em 2018 irrompeu como deslocamento poderá adquirir, agora, os meios de se instalar e permanecer.
Considero o cenário de um Congresso Nacional com maioria confortável de extrema direita e direita convicta, articuladas em agendas comuns e fortalecidas por adesões pragmáticas. Ainda não conhecemos o resultado das urnas. Mas já podemos perguntar que qualidade de poder surgiria dessa composição.
Contar cadeiras será indispensável. Compreender o que seus ocupantes pretendem fazer com os direitos, com as instituições e com as pessoas será decisivo. Há maiorias que administram divergências e maiorias que procuram tornar a divergência insuportável.
Definir essa configuração apenas como conservadora seria uma insuficiência sociológica. Existem conservadores que reconhecem liberdades, respeitam adversários e aceitam perder eleições. O vetor autoritário aparece quando a diferença passa a ser tratada como presença indevida.
Deve ser procurado nas condutas: o direito que se quer retirar, a manifestação que se pretende impedir, a população que se procura deslegitimar. A intolerância pode vestir um discurso respeitável e chegar às instituições sem elevar a voz.
Em “Os caminhos da extrema direita”, Maria Hermínia observa que a direita adaptada à competição democrática perde primazia para lideranças populistas. No Brasil, a direita tradicional depende da força eleitoral de sua expressão mais extremada. Essa dependência cobra um preço.
Quem entrega a direção política em troca de votos entrega também parte de sua capacidade de estabelecer limites. A radicalização acolhida como conveniência eleitoral pode terminar definindo o caminho da aliança e o tamanho dos silêncios de seus integrantes.
Extrema direita e direita convicta podem disputar recursos e posições enquanto convergem na identificação de inimigos. A intimidade, a educação, a cultura e os costumes oferecem terrenos férteis para essa aproximação.
A promessa de proteger a família, a fé ou a segurança ganha potência quando associa determinados grupos à ideia de perigo. O medo reúne interesses dispersos. A hostilidade oferece uma língua comum. Pessoas diferentes passam a caminhar juntas porque aprenderam a desejar o afastamento das mesmas pessoas.
É nesse ponto que começa a política do desaparecimento do outro. Uma pessoa conserva a liberdade formal de falar, mas descobre que falar pode custar seu emprego. Uma organização permanece legalmente constituída, mas perde os meios de funcionar.
Uma expressão cultural continua permitida, mas é retirada das escolas e dos equipamentos públicos. A exclusão avança por decisões dispersas, apresentadas como episódios menores. Quando percebemos seu desenho, alguém já perdeu quase todos os lugares onde podia existir publicamente.
O alcance dessa política ultrapassa os grupos diretamente atingidos. Quando uma parte da sociedade aprende a esconder o que é, todos recebem uma lição sobre os limites da liberdade. O professor calcula suas palavras. A pesquisadora evita um tema. O artista procura adivinhar o pensamento de quem financia seu trabalho.
O constrangimento torna-se hábito, depois prudência, finalmente costume. A autoridade conquista uma vitória silenciosa quando as pessoas antecipam a punição e começam a diminuir a própria voz.
O controle da vida privada acompanha esse movimento. Relações afetivas, decisões reprodutivas, formas de organização familiar e modos de viver são submetidos a pretensões de tutela. Uma maioria procura transformar suas convicções particulares em regra para todos.
A liberdade passa a depender de conformidade. Quem se ajusta encontra proteção; quem diverge precisa justificar continuamente sua existência. A intimidade perde abrigo quando o poder se atribui o direito de decidir quais vidas merecem tranquilidade.
A pressão atravessa as redes múltiplas de sociabilidade. Circula no trabalho, na escola, na comunidade religiosa, no condomínio, nas famílias e nos grupos digitais. Pode ser exercida por pessoas convencidas de que vigiar o comportamento alheio constitui uma obrigação moral.
A democracia perde densidade quando o encontro cotidiano exige disfarce e silêncio. O autoritarismo adquire permanência nessa escala humana, onde o medo dispensa solenidades e encontra uma cadeira à mesa.
Também considero esgotada a capacidade do centro democrático de organizar um campo autônomo. Não desapareceram todos os indivíduos moderados nem todos os parlamentares comprometidos com as regras democráticas.
Pergunto onde está a força coletiva capaz de sustentar esse compromisso quando defendê-lo custa votos, recursos e posições. Desde 2018, esse espaço perdeu direção e consistência. A moderação ainda aparece nas declarações, mas chega enfraquecida ao momento em que seria necessário escolher.
O centro desaparece politicamente quando deixa de estabelecer limites às alianças que faz. Conserva nomes, siglas e maneiras educadas enquanto aceita a direção de forças intolerantes. A serenidade do discurso não resolve essa contradição.
Uma voz baixa também pode votar pela retirada de direitos. A qualidade democrática de uma posição será medida pela disposição de proteger a liberdade de quem está fora de seu círculo. Quando essa disposição falta, a moderação torna-se uma cortina que acompanha o movimento do vento.
O Centrão participa dessa paisagem com sua flexibilidade conhecida. Seus operadores procuram recursos, influência e acesso ao governo da hora. Essa orientação não os torna neutros diante das consequências de suas escolhas.
Ao se integrar a uma maioria conduzida pela extrema direita e pela direita convicta, oferece votos, domínio dos procedimentos e capilaridade territorial. A negociação pode conservar a aparência de rotina enquanto fornece as ferramentas de uma transformação autoritária.
Uma eventual vitória de Lula não dissolveria essa configuração. Maria Hermínia lembra, em “A crise é séria, mas não institucional”, que as esquerdas sempre foram minoritárias nas duas casas legislativas e que os mesmos eleitores podem escolher um presidente de esquerda e parlamentares de direita.
O Congresso também expressa escolhas sociais. Minha preocupação para 2027 está na possibilidade de essa antiga assimetria adquirir outro conteúdo, sob uma direção mais radicalizada e menos comprometida com o pluralismo.
Lula conservaria poderes constitucionais, legitimidade eleitoral e capacidade de negociação. Encontraria, porém, uma maioria com meios próprios de distribuir recursos e produzir presença nos territórios. Poderia conquistar a Presidência e dispor de condições mais estreitas para conduzir seu projeto.
Sua vitória impediria a concentração simultânea de forças no Executivo e no Legislativo. Teria importância real. Mas o Brasil de sua formação política não retornaria pela força de sua memória, de seu carisma ou de sua biografia.
O novo livro de Jairo Nicolau, “O país dividido: duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002–2022)”, ajuda a compreender essa distância. Examina mudanças no eleitorado, nas bases sociais do PT e da direita, na participação eleitoral e no papel da religião e dos valores morais.
A sociedade mudou enquanto parte de suas organizações continuou falando a partir de experiências anteriores. A distância entre a vida que se transforma e a linguagem que permanece abriu espaço para outras formas de reconhecimento político.
Nas entrevistas de lançamento e no episódio do “Ilustríssima Conversa” dedicado ao livro, Nicolau também questiona a imagem de uma sociedade inteiramente absorvida pela disputa ideológica. Há brasileiros pouco interessados na política, cujas escolhas escapam às classificações dos especialistas.
Uma maioria eleitoral de direita não equivale à adesão uniforme ao autoritarismo. Essa distinção revela um terreno que as esquerdas não podem abandonar: a vida de quem trabalha, cuida, atravessa a cidade e procura sobreviver sem encontrar lugar nas grandes narrativas partidárias.
Os materiais do LAPPCOM sobre as eleições de 2026 reforçam a necessidade de observar territórios, rearranjos partidários e condições concretas da competição. O segundo volume do guia se dedica à pré-campanha e às clivagens territoriais do Rio de Janeiro.
Essa escala ajuda a enfrentar uma tentação persistente: imaginar o país a partir dos ambientes que frequentamos. O voto se forma em experiências e vínculos locais, onde uma liderança precisa ser reconhecida antes de ser classificada.
A esquerda tradicional enfrenta esse desafio carregando suas conquistas democráticas e o desgaste de seus métodos. A proximidade com governos e mandatos pode enfraquecer a autonomia das bases. O clientelismo aparece quando um direito é convertido em favor e obrigação de lealdade.
O cidadão passa a depender de quem intermedeia sua necessidade. Uma esquerda organizada para administrar dependências terá dificuldades para convocar pessoas à liberdade e formar lideranças capazes de caminhar sem pedir autorização aos antigos dirigentes.
A esquerda identitária e punitivista encontra outro limite. As lutas contra o racismo, o sexismo e a discriminação ampliaram direitos e revelaram violências naturalizadas. O fechamento ocorre quando a identidade estreita alianças e a divergência é recebida sobretudo como culpa.
Cada encontro assume a forma de um julgamento. A visibilidade entre semelhantes cresce enquanto diminui a capacidade de aproximação. A política perde alcance quando oferece ao desconhecido, antes de uma conversa, um lugar no banco dos réus.
Maria Hermínia acrescenta uma advertência em “Esquerda está presa na armadilha da judicialização”. Ao examinar as dificuldades de mobilização e a centralidade do recurso aos tribunais, aponta vantagens e limites dessa estratégia defensiva.
A proteção judicial importa, mas não produz sozinha vínculos de confiança, organização e presença cotidiana. Para os anos posteriores a 2027, a resistência precisará voltar a encontrar pessoas onde elas vivem. Nenhum processo judicial pode substituir esse trabalho.
A extrema esquerda poderá conservar presença em parcelas das universidades, organizações não governamentais, sindicatos e associações profissionais ou comunitárias. São espaços diversos, que não lhe pertencem integralmente.
O risco está em transformar concentração em isolamento, acompanhado por discursos cada vez mais radicalizados. Uma resistência que fala apenas aos convencidos pode preservar sua coerência e perder capacidade de intervir. Fora de seus ambientes, há pessoas que desconhecem seu vocabulário, mas conhecem a humilhação, a insegurança e a falta de direitos.
Em Utopias Pós Capitalistas, ao escrever sobre a Constituição, a saúde e a educação, procurei mostrar que as garantias de financiamento alcançam a existência de milhões de brasileiros. A democracia também vive na continuidade de um atendimento e na possibilidade de estudar.
O orçamento decide quem terá proteção, quem continuará esperando e quais instituições poderão funcionar. Nos anos seguintes a 2027, a disputa pelos direitos será inseparável da disputa pelos meios materiais de exercê-los. A privação também pode ensinar obediência.
Se houver segundo turno, a campanha iniciada depois de 4 de outubro encontrará outra correlação de forças. Uma vitória parlamentar expressiva das direitas poderá fortalecer Flávio Bolsonaro, reunir aliados e oferecer uma narrativa de capacidade de governo.
Uma derrota acentuada das esquerdas poderá alimentar desmobilização e conflitos internos. Esses efeitos são possíveis, sem serem automáticos. A disputa presidencial continuará dependendo de movimentos ainda não realizados. Distinguir risco de destino não reduz a gravidade do que está em formação.
O diagnóstico alcança uma passagem histórica que sobreviverá à apuração. Os anos posteriores a 2027 poderão ser atravessados por uma disputa persistente sobre quem tem direito à presença, à palavra e à proteção.
As instituições continuarão sendo arenas decisivas, mas o conflito chegará ao interior da experiência comum. Estará em jogo a possibilidade de discordar sem ser expulso, de viver sem pedir licença e de reconhecer no desconhecido alguém que também pertence ao país.
Escrevo sem a tranquilidade de quem acredita que o tempo, por si mesmo, corrigirá o que os homens estão construindo. Os direitos não dispõem de uma força secreta que os faça renascer depois de cada derrota.
Dependem de pessoas, organizações, recursos e coragem. Quando esses sustentáculos enfraquecem ao mesmo tempo, a liberdade pode continuar inscrita no papel enquanto se torna cada vez mais difícil de encontrar nas ruas.
Minha impressão é que estamos entrando numa noite espessa, de visibilidade mínima, na qual até os caminhos conhecidos começarão a perder seus contornos. A Nova República poderá deixar seus personagens iluminados por algum tempo, enquanto a escuridão alcança o chão sobre o qual caminham.
Será possível reconhecer um rosto e já não saber onde estão as saídas. Será possível celebrar uma vitória e descobrir, depois, quanto do poder ela deixou do lado de fora.
Essa noite durará muito mais que oito horas. Não obedecerá ao relógio que nos acostumou a esperar a madrugada. Poderá atravessar mandatos, instituições e gerações, ensinando o silêncio antes que alguém encontre palavras para rompê-lo.
Mesmo que cantemos “amanhã será outro dia”, a manhã não estará assegurada. Poderemos amanhecer no calendário e continuar no escuro da história.
E talvez a primeira luz, quando enfim apontar, encontre um país que precisou aprender a viver com o medo, tantos ausentes à mesa e tantas vozes recolhidas que já não saberá dizer, sem hesitar, quanto de si conseguiu atravessar a noite.
* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.







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