Opinião

A eleição mais enigmática desde 1970: apatia revoltada, ressentimento e voto movediço

Apatia, ressentimento e voto de rejeição marcam uma disputa polarizada, enquanto a incerteza sobre o comportamento do eleitor amplia o enigma das urnas em 2026

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Acompanho as eleições brasileiras desde 1970. Atravessei o lento desgaste da ditadura, a reorganização das oposições, a anistia, as eleições de 1982, as Diretas Já, o Colégio Eleitoral, a Constituinte, a volta da eleição presidencial em 1989, o impeachment de Fernando Collor, os ciclos do PSDB e do PT, a ruptura social de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão e a volta de Lula, o aparecimento do bolsonarismo, a tentativa de golpe e a eleição dramática de 2022.

Depois de acompanhar esse longo percurso, afirmo: as eleições gerais de outubro de 2026 são as mais enigmáticas que já vivi desde 1970.

Não digo isso porque faltem pesquisas, informações ou instrumentos de análise. Nunca tivemos tantos levantamentos, séries históricas, cruzamentos estatísticos, mapas eleitorais e bancos de dados. O enigma está em outro lugar: na distância entre a declaração do voto e o estado emocional do eleitor.

Milhões de brasileiros dizem que já têm candidato à Presidência da República. Muitos afirmam que a decisão está tomada. Mas a existência de uma preferência eleitoral não está produzindo mobilização política equivalente.

O eleitor declara um voto, mas não necessariamente deseja participar da eleição. Tem candidato, mas não tem entusiasmo. Responde à pesquisa, mas não se envolve com o processo eleitoral. Reconhece os nomes, mas não deposita neles uma esperança mobilizadora. Em muitos casos, escolhe um candidato apenas porque considera necessário impedir a vitória do outro.

Essa não é uma apatia simples, passiva ou silenciosa. É uma apatia revoltada. É um afastamento carregado de indignação. É um cansaço que não produz serenidade, mas irritação. É uma aparente imobilidade sob a qual circulam raiva, frustração, desprezo pelas instituições, desconfiança das lideranças e desejo de punição.

Ao lado da apatia revoltada existe um ressentimento vingativo. Uma parcela expressiva da sociedade não pretende votar para construir um futuro coletivo. Pretende votar para castigar alguém: o governo, a oposição, o sistema político, o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, os partidos, as elites, os pobres, os ricos, os servidores públicos, os empresários, a imprensa, as universidades, as igrejas ou os movimentos sociais.

Cada grupo constrói seu culpado preferencial.

O voto de 2026 corre o risco de ser menos uma escolha afirmativa e mais um instrumento de retaliação. Não se vota apenas a favor de alguém. Vota-se contra uma pessoa, uma memória, uma instituição, uma classe social, um modo de vida ou uma representação imaginada do Brasil.

O país responde, mas não se mobiliza

A pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro, realizada presencialmente com 2.004 eleitores entre os dias 24 e 27, é reveladora desse estado emocional.

Na pergunta espontânea, Lula aparece com 31% e Flávio Bolsonaro com 27%. Outros nomes somam 8%, enquanto 31% ainda não conseguem mencionar um candidato.

Isso não significa que quase um terço do eleitorado esteja completamente sem preferência. Significa que 31% não possuem, naquele momento, uma escolha suficientemente presente, intensa ou cristalizada para ser enunciada sem a apresentação de uma lista.

Quando os nomes são apresentados, os indecisos caem para 5%. A passagem de 31% na espontânea para 5% na estimulada revela que grande parte do eleitorado reconhece uma preferência quando recebe as alternativas. Mas também mostra que essa preferência não estava espontaneamente mobilizada.

O eleitor possui uma escolha possível, mas ela não ocupa necessariamente o centro de sua vida emocional.

O dado mais significativo está na movimentação da última semana. Os indecisos da pesquisa estimulada caíram de 8% para 5%, mas branco, nulo e não comparecimento subiram de 7% para 10%. O conjunto dos eleitores sem candidato permaneceu em 15%.

A redução da indecisão não se transformou integralmente em adesão. Parte dos eleitores não decidiu em quem votar. Decidiu, por enquanto, que não quer votar em ninguém.

É uma definição negativa.

No cenário de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, cada um aparece com 42%. Outros 13% declaram voto branco, nulo ou intenção de não comparecer, enquanto 3% permanecem indecisos.

O principal contingente disponível não é, portanto, o indeciso clássico. É o eleitor da recusa. Para cada entrevistado que não sabe em quem votar, há mais de quatro que rejeitam as duas opções ou consideram não comparecer.

Esse eleitorado não está simplesmente procurando um candidato. Está procurando uma razão para votar.

A cristalização não elimina a volatilidade

A pesquisa BTG/Nexus, também divulgada em 28 de setembro, foi realizada por telefone com 2.000 eleitores entre os dias 25 e 27. Deve ser analisada em seu próprio universo metodológico, sem somar, misturar ou transferir seus percentuais para a Quaest.

A Nexus mostra uma eleição presidencial fortemente cristalizada. Na pesquisa estimulada, apenas 2% não sabem ou não respondem, enquanto 3% indicam branco, nulo ou nenhum candidato.

Mas essa cristalização precisa ser observada com cuidado. Entre os eleitores que escolheram algum candidato, 87% afirmam que o voto está decidido, enquanto 12% admitem que ainda podem mudar.

A estabilidade concentra-se principalmente nos dois grandes polos. Entre os eleitores de Lula, 92% dizem que a decisão está tomada. Entre os de Flávio Bolsonaro, 91%. A volatilidade é muito maior nas candidaturas menores: 24% dos eleitores de Renan Santos admitem mudar; entre os de Augusto Cury, são 34%; entre os de Ronaldo Caiado, 39%; e entre os de Romeu Zema, 53%.

A disputa não está prioritariamente na conversão direta de lulistas em bolsonaristas ou de bolsonaristas em lulistas. Está na redistribuição dos eleitores das candidaturas menores e na passagem entre voto válido, branco, nulo e abstenção.

No segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, a Nexus registra uma disputa apertada. Mas o dado sociologicamente mais importante aparece entre aqueles que admitem poder mudar: 51% indicam branco ou nulo como segunda opção. Apenas 18% apontam Lula e 16%, Flávio Bolsonaro.

O eleitor móvel não se desloca necessariamente de um candidato para o outro. Seu movimento principal pode ser a retirada do voto válido.

A fronteira mais permeável da eleição não está somente entre Lula e Flávio Bolsonaro. Está entre votar em um deles e abandonar a escolha.

Pesquisas não são urnas antecipadas

A Quaest e a BTG/Nexus devem ser interpretadas separadamente, de acordo com suas metodologias, amostras, questionários, períodos de campo e formas de abordagem.

É matematicamente e estatisticamente incorreto somar seus percentuais, tirar médias simples, transferir indecisos de um levantamento para outro ou utilizar uma pesquisa para completar as lacunas da outra.

Cada pesquisa é uma fotografia autônoma, produzida com uma lente específica.

Também não é rigoroso afirmar, com base nesses levantamentos, que a eleição será decidida no primeiro turno em favor de Lula ou de Flávio Bolsonaro. Nenhuma das duas pesquisas estabelece, em seus resultados centrais, maioria absoluta de votos válidos para qualquer candidato.

Isso não transforma o segundo turno em certeza. Entre a intenção declarada e a urna existem a campanha final, os debates, os acontecimentos inesperados, o voto útil, a mudança de opinião, o comparecimento e a abstenção.

Pesquisa indica tendências, estruturas, disposições e possibilidades. Não oferece profecias.

Uma eleição organizada pelo medo

Lula e Flávio Bolsonaro estruturam os dois grandes polos da eleição presidencial. Possuem bases sociais reconhecíveis, territórios eleitorais, identidades políticas e rejeições intensas.

Mas nem mesmo esses polos devem ser confundidos com blocos igualmente mobilizados.

Há lulistas convictos e bolsonaristas convictos. Há militâncias organizadas e emocionalmente comprometidas. Ao redor desses núcleos, porém, existem círculos mais amplos de eleitores que fazem escolhas defensivas.

Uma parcela vota em Lula porque teme a volta da família Bolsonaro ao poder. Outra vota em Flávio Bolsonaro porque deseja impedir a continuidade de Lula e do PT. Nos dois lados, o medo do adversário pode ser mais poderoso do que a esperança depositada no próprio candidato.

O país parece votar para evitar o que considera pior, não para conquistar o que considera melhor.

Vários analistas importantes vêm apontando aspectos desse fenômeno: a volatilidade escondida atrás das intenções declaradas, o voto tardio dos menos envolvidos com a política, a persistência da polarização, a força das redes digitais, a fragmentação dos interesses estaduais e o peso crescente da rejeição.

Essas leituras ajudam, mas quero avançar um passo: não estamos apenas diante de volatilidade eleitoral. Estamos diante de um estado emocional coletivo. Uma sociedade pode estar eleitoralmente polarizada e, ao mesmo tempo, politicamente desmobilizada.

Pequenos núcleos altamente ativos são capazes de produzir a aparência de participação intensa em uma sociedade majoritariamente cansada, distante e ressentida.

A multidão movediça

Fora dos núcleos consolidados de Lula e Flávio Bolsonaro existe uma multidão movediça. Não se trata necessariamente de um centro político moderado, coerente e organizado. Tampouco de uma terceira via à espera de um candidato.

É uma multidão socialmente heterogênea, emocionalmente instável e politicamente desconfiada.

Nela estão eleitores que indicam um candidato, mas podem abandoná-lo; pessoas que oscilam entre uma candidatura e o voto branco ou nulo; cidadãos que ainda não sabem se comparecerão; jovens com baixa identificação partidária; trabalhadores endividados; famílias pressionadas pelo custo de vida; eleitores religiosos divididos entre as orientações de suas comunidades e suas experiências concretas; trabalhadores informais que não se reconhecem nos discursos tradicionais; e pessoas que acompanham a campanha por fragmentos de vídeos, mensagens e conflitos nas redes digitais.

O eleitor tardio não é uma página em branco. Ele chega à reta final carregando experiências, frustrações, necessidades e ressentimentos.

Pode não acompanhar diariamente a política, mas sabe quanto custa o supermercado, quanto paga de juros, quanto tempo espera por atendimento médico, quanto teme a violência e quanto acredita, ou deixou de acreditar, que a política possa melhorar sua vida.

É aí que reside o enigma de 2026: a escolha declarada não corresponde necessariamente a uma adesão emocional, a uma decisão definitiva ou ao compromisso de comparecer.

A presidência eclipsa as demais eleições

Essa atmosfera torna-se ainda mais dramática quando saímos da disputa presidencial.

Em outubro, cada estado elegerá dois senadores. Também serão escolhidos governadores, deputados federais e deputados estaduais. Entretanto, a campanha entre Lula e Flávio Bolsonaro ocupa quase todo o campo visual e emocional da sociedade.

A eleição presidencial funciona como um imenso eclipse. Projeta sua sombra sobre as eleições estaduais e legislativas, mas não determina automaticamente seus resultados.

A escolha de dois senadores por estado é especialmente enigmática. O eleitor precisará votar duas vezes para o Senado em uma eleição marcada pelo baixo conhecimento dos candidatos, por alianças estaduais complexas, chapas contraditórias e enorme dificuldade de compreensão sobre a função institucional da Casa.

Nunca o Senado foi tão estratégico para os projetos nacionais de poder e, ao mesmo tempo, tão invisível para grande parte do eleitorado.

Nas eleições para governador, a lógica nacional será filtrada pela força das máquinas estaduais, pelas alianças municipais, pelas avaliações dos governos e pelos conflitos regionais. Em alguns estados, o voto presidencial poderá puxar a eleição estadual. Em outros, governadores, prefeitos e lideranças locais sustentarão ou limitarão os candidatos presidenciais.

Não existe uma única eleição nacional. Existem 27 sistemas estaduais interligados, centenas de disputas regionais e milhares de redes municipais operando simultaneamente.

O apagão dos deputados

A situação mais obscura está nas eleições para deputado federal e deputado estadual.

Não possuímos métricas capazes de antecipar com segurança a composição dessas casas. As pesquisas proporcionais são difíceis, caras e instáveis. O voto depende da geografia, das federações partidárias, dos puxadores de voto, das candidaturas locais e dos quocientes eleitoral e partidário.

Deputados federais e estaduais possuem bases geográficas, políticas, corporativas, religiosas, profissionais e comunitárias. Alguns se apoiam em municípios específicos; outros, em categorias profissionais, igrejas, sindicatos, forças policiais, movimentos sociais, associações comerciais, universidades, redes digitais ou estruturas familiares.

Essas microrredes continuam funcionando. Distribuem material, organizam reuniões, mantêm contatos, acionam lideranças e transportam fidelidades construídas ao longo dos anos. Mas trabalham sob o eclipse da campanha presidencial e dentro de um ambiente de enorme desmotivação eleitoral.

O eleitor pode saber em quem votará para presidente e chegar à seção eleitoral sem ter decidido seus dois votos para senador, seu voto para deputado federal e seu voto para deputado estadual.

Nesse ambiente, as máquinas políticas organizadas ganham peso. Quando o eleitorado está mobilizado, ondas nacionais podem reorganizar a representação. Quando está desmotivado e desinformado, estruturas locais disciplinadas, bases corporativas, redes religiosas e máquinas familiares tornam-se proporcionalmente mais fortes.

A apatia não esvazia a política.

A apatia transfere poder para quem permanece organizado.

O enigma brasileiro

A eleição mais enigmática desde 1974 não é aquela em que ninguém conhece os favoritos. Sabemos quem são os protagonistas presidenciais.

O enigma está em saber qual sociedade entrará na cabine eleitoral no dia 4 de outubro.

Entrará uma sociedade movida pelo medo ou pelo cálculo? Pela memória ou pelo desejo de mudança? Pela defesa de direitos ou pela vontade de punição? Pela esperança ou pela vingança? Pelo compromisso democrático ou pela indiferença ressentida?

Minha hipótese é que o Brasil chega às urnas carregando uma combinação rara e perigosa: preferência eleitoral sem entusiasmo, polarização sem participação ampla, informação sem confiança, revolta sem projeto e ressentimento sem direção previsível.

A apatia revoltada pode permanecer silenciosa até o dia da eleição. Mas também pode produzir movimentos bruscos, comparecimento seletivo, voto útil de última hora, crescimento dos votos inválidos e resultados legislativos surpreendentes.

As bases organizadas continuam existindo. As máquinas políticas permanecem ativas. As identidades do lulismo e do bolsonarismo conservam força. Porém, ao redor delas circula uma multidão movediça, cansada, desconfiada e capaz de deslocamentos repentinos.

É essa multidão que torna outubro de 2026 tão enigmático.

Não porque ela não tenha opinião, mas porque sua opinião não se transformou integralmente em compromisso. Não porque esteja em paz, mas porque sua apatia está cheia de raiva. Não porque tenha abandonado a política, mas porque deseja utilizá-la como instrumento de punição.

Depois de acompanhar todas as eleições brasileiras desde 1970, nunca vi uma combinação tão intensa de definição aparente e incerteza profunda.

O Brasil sabe os nomes que estarão na urna.

O que ainda não sabemos é qual Brasil comparecerá para votar.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.

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