Opinião

A república da desconfiança: o STF diante do Brasil que vai às urnas

Às vésperas das eleições de 2026, a desconfiança nas instituições avança sobre o STF e coloca em debate os limites do poder, a transparência e a credibilidade da Corte

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O sentimento político mais importante do Brasil neste setembro de 2026 talvez não seja a esperança, o medo, a raiva ou mesmo a polarização. É a desconfiança.

Ela se espalhou pela vida pública brasileira e deixou de pertencer exclusivamente aos políticos, aos partidos e aos governos. Chegou às instituições que durante muito tempo imaginaram estar protegidas pela distância, pela liturgia dos cargos e pela solenidade de seus edifícios. Chegou ao Supremo Tribunal Federal.

É desse lugar que observo a atual conjuntura. O Brasil se aproxima de uma eleição geral, escolherá presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, enquanto uma parte considerável da sociedade tenta compreender quem ainda merece confiança.

Essa pergunta atravessa a eleição de maneira subterrânea. Está presente nas pesquisas, nas conversas cotidianas, nas redes sociais e na maneira como milhões de brasileiros recebem qualquer informação produzida em Brasília.

A crise do Supremo tornou-se particularmente grave porque atingiu justamente uma instituição cuja autoridade depende de algo que nenhuma decisão judicial consegue fabricar: credibilidade pública.

Um tribunal constitucional possui competências definidas pela Constituição, mas sua legitimidade social não está escrita em artigo algum. Ela precisa ser reconhecida. Quando uma sociedade começa a desconfiar daqueles que julgam, a crise ultrapassa imediatamente os limites do processo judicial.

Os números ajudam a compreender esse paradoxo brasileiro. A população continua considerando o STF necessário à democracia, ao mesmo tempo que manifesta crescente desconforto com o poder concentrado em seus ministros e demonstra perda de confiança na Corte.

Não interpreto isso como incoerência. É possível considerar indispensável uma instituição e reprovar a maneira como seu poder é exercido. Talvez seja exatamente isso que uma parcela expressiva dos brasileiros esteja dizendo.

A desconfiança possui uma sociologia própria. Ela nasce quando cresce a distância entre aquilo que as instituições dizem representar e aquilo que a sociedade acredita enxergar em seu funcionamento.

Alimenta-se da opacidade, das relações pouco explicadas, dos privilégios percebidos, das decisões incompreendidas, das contradições públicas e principalmente da impressão de que determinados espaços de poder possuem regras que não alcançam igualmente aqueles que os ocupam.

O brasileiro conhece essa sensação.

Não precisa dominar Direito Constitucional para reconhecer poder. Não precisa conhecer os detalhes de um inquérito para compreender privilégios. Não precisa acompanhar cada página de um processo para perceber quando autoridades parecem viver num universo distante daquele em que as pessoas comuns enfrentam repartições, tribunais, impostos, filas, prazos, obrigações e punições.

Por isso considero insuficiente reduzir a crise a Alexandre de Moraes. Ele ocupa posição central nos acontecimentos, mas a crise já atravessou seu gabinete. André Mendonça passou a integrar diretamente o conflito. Edson Fachin enfrenta o peso de conduzir uma Corte cujas divergências ultrapassaram a discrição institucional.

Dias Toffoli, Flávio Dino, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin e Luiz Fux pertencem ao mesmo colegiado e, independentemente da responsabilidade individual de cada um, participam de uma instituição cuja imagem pública está sendo reconstruída diariamente diante da sociedade.

Esse é o ponto decisivo. A crise deixou de ser biográfica. Tornou-se institucional.

Quando isso acontece, trocar personagens já não resolve o problema. A questão passa a envolver governança, procedimentos, limites, decisões monocráticas, conflitos de interesse, relações privadas, responsabilidades públicas, transparência e capacidade de uma instituição poderosa estabelecer controles sobre si própria.

A sociedade começa então a fazer uma pergunta simples, quase rudimentar, mas devastadora para qualquer estrutura de poder: quem controla aqueles que controlam?

Essa pergunta entrou na eleição de 2026.

Entrou porque o STF já fazia parte da história recente da polarização brasileira e porque seus ministros foram transformados, ao longo dos últimos anos, em personagens conhecidos por milhões de pessoas. Isso produziu uma personalização incomum da Justiça constitucional.

Ministros ganharam rostos, admiradores, inimigos, defensores, detratores e presença cotidiana no debate político. A toga passou a circular pelas redes sociais.

Esse processo cobra agora seu preço.

Quanto mais uma instituição se personaliza, mais fica vulnerável às biografias de seus integrantes. Uma Corte constitucional precisa produzir decisões que sobrevivam aos nomes de quem as assinou.

Quando o personagem começa a ocupar espaço maior do que o procedimento, a autoridade institucional passa a depender excessivamente da reputação individual. E reputações são frágeis diante de crises.

A eleição presidencial ocorre dentro dessa atmosfera.

Os dois grandes campos políticos permanecem fortemente consolidados, carregando identidades construídas durante anos de confronto. Por isso as pesquisas ainda encontram relativamente pouca transferência de votos provocada pela crise do Supremo.

O eleitor identificado recebe cada revelação através das convicções que já possui. Interpreta antes de examinar. Incorpora o acontecimento à narrativa na qual já vive.

A polarização brasileira tornou-se também uma disputa pela realidade.

Mas existe outro Brasil, menos barulhento e eleitoralmente decisivo. É formado por cidadãos que não vivem dentro das trincheiras políticas, não transformam candidatos em extensões de sua personalidade e não possuem compromisso afetivo permanente com nenhum campo.

Esse eleitor observa. Desconfia. Muda. Pode votar num candidato sem admirá-lo e rejeitar outro sem odiá-lo. É nesse território social que a crise do Supremo pode adquirir maior consequência eleitoral.

Esse cidadão talvez esteja menos interessado em saber quem venceu a discussão jurídica da semana do que em compreender se existe uma República funcionando sob regras reconhecíveis.

É uma diferença enorme.

A crise também se tornou perigosa para qualquer estratégia eleitoral que tente apropriá-la. Nenhum campo político possui controle sobre seus desdobramentos.

Investigações avançam, documentos aparecem, relações entre agentes públicos e interesses privados são examinadas, versões são confrontadas. Aquilo que hoje constrange um lado pode amanhã alcançar outro.

A tentativa de transformar uma crise institucional em propriedade eleitoral ignora a natureza instável de acontecimentos que ainda estão em desenvolvimento.

Por isso não considero intelectualmente seguro afirmar quem será o maior beneficiário ou o maior prejudicado eleitoral. O efeito imediato parece menor do que o tamanho do escândalo público. O efeito acumulado é mais difícil de medir.

E é justamente o efeito acumulado que me preocupa.

A democracia suporta conflito. Suporta governos impopulares, parlamentos contestados, imprensa criticada, decisões judiciais rejeitadas e eleições ferozes.

O que ela suporta com dificuldade é a transformação da desconfiança em princípio geral de interpretação da sociedade.

Quando tudo passa a parecer combinado, escondido ou manipulado, desaparece lentamente a possibilidade de reconhecer qualquer autoridade legítima.

A suspeita deixa de ser instrumento crítico e transforma-se numa maneira permanente de enxergar o mundo público. Nesse estágio, uma democracia pode conservar suas eleições e seus tribunais enquanto perde parte do tecido invisível que permite às instituições serem reconhecidas.

É por isso que a defesa do Supremo não pode significar silêncio sobre o Supremo.

Alexandre de Moraes deve responder pelo que disser respeito a Alexandre de Moraes. André Mendonça deve responder pelo que disser respeito a André Mendonça. O mesmo princípio precisa valer para cada integrante da Corte.

Responsabilidade individual não destrói instituições. A ausência de mecanismos capazes de estabelecê-la é que pode corroê-las.

O STF precisa ser maior do que seus ministros.

Essa afirmação parece elementar, mas contém todo o problema atual. Instituições republicanas não podem depender da infalibilidade moral das pessoas que as ocupam.

Precisam depender da qualidade das regras, da impessoalidade dos procedimentos, da transparência das decisões e da capacidade de corrigir seus próprios erros.

Vejo o Brasil chegando às urnas com essa questão aberta.

Milhões de brasileiros escolherão seus representantes carregando problemas muito concretos, renda, emprego, segurança, saúde, educação, impostos, violência, expectativas sobre o futuro. Mas levarão também uma experiência acumulada de desconfiança diante das instituições. O Supremo entrou nessa experiência.

A crise, portanto, não será medida apenas pelas próximas pesquisas eleitorais. Seu verdadeiro tamanho aparecerá naquilo que permanecer depois que as manchetes forem substituídas por outras manchetes.

A pergunta essencial não é se o Supremo continuará poderoso. Continuará.

A pergunta é quanto de confiança restará em torno desse poder.

Porque autoridade pode ser escrita numa Constituição. Competências podem ser estabelecidas por leis. Decisões podem ser cumpridas pela força institucional do Estado.

Confiança, não.

Confiança precisa ser conquistada.

E quando começa a desaparecer, nenhuma toga consegue obrigá-la a voltar.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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