Há momentos em que uma pesquisa eleitoral é apenas uma coleção disciplinada de números. Há outros em que os números parecem adquirir carne, território, religião, memória, medo, esperança, ressentimento e desejo. A 14ª rodada da pesquisa BTG Pactual/Nexus pertence a essa segunda espécie.
Quando percorro suas tabelas, curvas e cruzamentos, não vejo somente percentuais alinhados em páginas. Vejo dois grandes rios políticos atravessando o Brasil e procurando, cada qual, chegar primeiro ao mar. Um leva o nome de Lula. O outro, agora, leva o nome de Flávio Bolsonaro. Entre eles permanecem pequenas ilhas eleitorais, algumas interessantes, outras ruidosas, nenhuma suficientemente extensa para alterar, até aqui, o curso principal das águas.
A pesquisa foi realizada entre 11 e 13 de setembro de 2026, com 2.003 eleitores, margem de erro geral de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. É preciso começar por essa arquitetura estatística porque literatura política sem método pode produzir apenas impressão, e sociologia sem números corre o risco de enxergar na sociedade aquilo que gostaria que estivesse nela.
A amostra alcança as 27 unidades da Federação e procura reproduzir proporcionalmente o eleitorado nacional.
É dentro dessas fronteiras metodológicas que faço minha leitura.
O primeiro turno já tem uma geografia bastante definida. Lula aparece com 42%, Flávio Bolsonaro com 37%, o professor e escritor Augusto Cury com 6%, Ronaldo Caiado com 5%, Renan Santos com 2%, Zema com 1%.
Mas há um dado que considero ainda mais expressivo. Quando o entrevistador retira a lista de candidatos e deixa o eleitor sozinho diante de sua própria memória, Lula surge espontaneamente com 40% e Flávio Bolsonaro com 34%. Augusto Cury alcança 5%. Os demais quase desaparecem na névoa estatística.
Para mim, esse é um dos retratos mais eloquentes da cristalização eleitoral. Lula e Flávio somam 74% na resposta espontânea. Seus nomes já não precisam ser oferecidos. Moram na cabeça do eleitor. A urna ainda não chegou, mas eles já entraram nela simbolicamente.
A eleição, nesse sentido, aconteceu primeiro no imaginário social. Antes de ser apertado o botão da máquina, dois nomes foram inscritos na memória política do país.
Os demais candidatos continuam importantes, mas sua importância é residual no sentido estritamente competitivo. Podem alterar margens, oferecer discursos, organizar interesses, representar parcelas da sociedade e, sobretudo, entregar ao segundo turno pequenos afluentes eleitorais capazes de decidir qual dos dois grandes rios chegará com maior volume à desembocadura.
Não apresentam, entretanto, força mensurável para retirar Lula ou Flávio Bolsonaro das duas primeiras posições. Nem mesmo Augusto Cury, cuja presença considero intelectualmente singular e eleitoralmente interessante, conseguiu transformar simpatia potencial em musculatura competitiva. Seus 6% estão a uma distância imensa dos 37% de Flávio e dos 42% de Lula.
Existe, sim, uma terceira via na sociedade. Ela é quase uma saudade de alguma coisa que ainda não nasceu. Vinte por cento dizem preferir um candidato que não fosse apoiado nem por Lula nem por Jair Bolsonaro.
Mas, quando essa vontade abstrata precisa ganhar nome, rosto e voto, ela se fragmenta. Entre esses eleitores, 19% acabam escolhendo Lula, outros 19% Flávio Bolsonaro, 48% espalham seus votos entre outros candidatos, 9% caminham para branco ou nulo.
A terceira via existe como desejo social, mas ainda não existe como força política organizada. É uma casa imaginada para a qual ninguém conseguiu construir uma porta.
É quando chego ao segundo turno que os números deixam de cochichar e começam a gritar.
Lula, 47%. Flávio Bolsonaro, 46%. Brancos e nulos, 6%. Não sabem ou não respondem, 1%.
Um ponto percentual separa os dois dentro de uma margem de erro geral de dois pontos. Isso não é liderança estatisticamente demonstrada. É um rigoroso empate técnico. Mais do que isso, vejo um empate estrutural.
Não são somente dois números quase iguais. São dois Brasis eleitoralmente organizados, duas coalizões sociais que chegaram às margens opostas de uma mesma ponte e avançam uma contra a outra.
A série histórica confirma que não se trata de acidente de uma única rodada. Lula e Flávio Bolsonaro caminham há meses dentro de uma faixa estreita, como dois corredores que já não conseguem escapar um do outro.
Quanto mais a eleição se aproxima, mais o espaço entre ambos parece perder oxigênio.
E isso acontece apesar de todas as crises políticas e institucionais que atravessaram o debate nacional, inclusive as sucessivas controvérsias envolvendo o Supremo Tribunal Federal. Seria metodologicamente irresponsável afirmar que a pesquisa demonstra uma relação causal entre essas crises e o comportamento eleitoral. Ela não demonstra.
O que os números permitem afirmar é outra coisa: a sucessão de tempestades institucionais não desfez a bipolaridade eleitoral. O terceiro candidato capaz de romper a muralha construída por Lula e pelo bolsonarismo simplesmente não apareceu.
Quando abro sociologicamente esses 47% e 46%, encontro um país cortado por linhas que parecem antigas cicatrizes sociais. Entre as mulheres, Lula vence Flávio por 53% a 40%. Entre os homens, Flávio vence Lula por 52% a 41%.
Entre os evangélicos, Flávio alcança 62%, Lula 31%. Entre aqueles que não possuem religião, Lula chega a extraordinários 66%, Flávio fica com 29%.
A renda também fala, e fala alto. Entre aqueles que vivem com até um salário mínimo, Lula tem 57% e Flávio 34%. Na faixa entre dois e cinco salários mínimos, a direção se inverte: Flávio alcança 53%, Lula 41%.
Entre trabalhadores formais, Flávio também vence por 53% a 40%. Entre os que estão fora da população economicamente ativa, Lula vence por 56% a 39%.
Não são simplesmente preferências eleitorais. São posições na estrutura social convertidas em comportamento político. O voto carrega o salário, a igreja, a idade, o gênero, o território, a experiência com o mercado de trabalho, a relação com as políticas públicas, a memória familiar e a maneira como cada pessoa interpreta aquilo que perdeu ou ganhou nos últimos anos.
A urna nunca recebe somente um voto. Recebe uma biografia condensada em dois dígitos.
E então aparece o território, essa velha força silenciosa da política brasileira. No Nordeste, Lula alcança 61%, contra 33% de Flávio Bolsonaro. No Sul, a paisagem se inverte quase brutalmente: Flávio chega a 68%, Lula fica em 29%.
No Norte/Centro-Oeste, Flávio vence por 53% a 39%. No Sudeste, Lula aparece com 48%, Flávio com 43%.
O mapa eleitoral não é apenas colorido de maneira diferente. Ele revela histórias sociais diferentes. O Nordeste e o Sul parecem falar dialetos políticos distintos dentro da mesma língua nacional.
Há ainda a extraordinária rigidez desses dois grandes exércitos eleitorais. No primeiro turno, 83% daqueles que escolheram algum candidato dizem que sua decisão está tomada e não mudará. Entre lulistas, são 89%. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, 86%.
No segundo turno, a muralha fica ainda mais alta: 89% dizem que não mudarão. Entre eleitores de Lula, 91%; entre os de Flávio, 90%.
Isso muda completamente a natureza da campanha. Lula e Flávio Bolsonaro já não pescam num oceano cheio de indecisos. Pescam num lago estreito, cercado por margens endurecidas. Quase todos os peixes já pertencem a algum aquário.
É justamente aí que identifico uma vantagem estratégica de Flávio Bolsonaro para o dia 26 de outubro, caso sejam esses os dois nomes do segundo turno. Não digo vantagem atual na pesquisa, porque ela não existe. Lula está numericamente um ponto à frente. Digo vantagem potencial na herança dos votos dos derrotados do primeiro turno.
Essa distinção é decisiva.
Quando os pequenos rios precisarem escolher para qual corrente maior correrão, vários deles apontam preferencialmente para Flávio Bolsonaro. Entre os eleitores de Augusto Cury, 42% migram para Flávio e 34% para Lula. Entre os eleitores de Ronaldo Caiado, 53% seguem para Flávio e 30% para Lula.
Entre os de Zema, o movimento torna-se quase uma avalanche: 75% para Flávio, 12% para Lula. Entre os eleitores de Renan Santos, 59% escolhem Flávio, somente 4% Lula, enquanto 36% preferem branco ou nulo. A exceção relevante é Samara Martins, cujos eleitores migram majoritariamente para Lula, 76% contra 13%.
É nessa aritmética aparentemente pequena que pode morar o destino da eleição. Os outros são eleitoralmente pequenos demais para tomar o lugar dos dois gigantes, mas podem ser grandes o suficiente para escolher qual gigante atravessará a porta do Palácio do Planalto.
A própria Nexus calcula os corredores possíveis. Lula tem piso de 43% e teto de 49%. Flávio Bolsonaro, piso de 41% e teto de 47%.
As faixas se sobrepõem.
A estatística, aqui, não entrega sentença. Entrega tensão.
Entre os 11% que admitem poder mudar o voto no segundo turno, 22% apontam Lula como segunda opção e 18% Flávio Bolsonaro. Mas o dado mais fascinante está em outro lugar: 42% preferem branco ou nulo e 18% não sabem responder.
O pequeno território ainda disponível não está simplesmente esperando ser conquistado. Parte considerável dele parece desejar fugir dos dois contendores.
Há, finalmente, um fenômeno político que considero indispensável registrar. O bolsonarismo conseguiu realizar sua sucessão eleitoral. O sobrenome atravessou a ponte. Entre aqueles que dizem ter votado em Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022, 93% escolhem Flávio Bolsonaro quando confrontado diretamente com Lula.
Do outro lado, 89% dos antigos eleitores de Lula permanecem com Lula.
Isso significa que Flávio Bolsonaro deixou de ser apenas o herdeiro nominal de Jair Bolsonaro. Tornou-se, eleitoralmente, o depositário de grande parte de seu patrimônio político. O pai não está na urna, mas sua sombra está. E sombras políticas, ao contrário das sombras físicas, às vezes sobrevivem ao corpo que as projetou.
Chego, portanto, ao fim desta leitura sem enxergar qualquer espaço para triunfalismos. Lula possui vantagens formidáveis. Tem uma base popular resistente, uma fortaleza nordestina, vantagem entre mulheres, entre os mais pobres, entre os mais velhos, entre católicos e entre pessoas sem religião.
Flávio Bolsonaro possui uma fortaleza igualmente impressionante entre evangélicos, homens, trabalhadores formais, segmentos intermediários de renda, no Sul e em partes importantes do Norte e Centro-Oeste. Além disso, carrega para um eventual dia 26 de outubro aquilo que pode se transformar em seu melhor ativo: a direção majoritária dos votos de vários candidatos eliminados.
Os demais continuam sendo os outros. Não são irrelevantes para o desfecho, mas são residuais para a definição dos protagonistas. Augusto Cury pode crescer, Caiado pode influenciar, Zema e Renan Santos podem transferir parcelas importantes de seus eleitorados.
Nenhum deles, porém, aparece nesta pesquisa com potência suficiente para deslocar Lula ou Flávio Bolsonaro do duelo final.
É por isso que leio os 47% de Lula e os 46% de Flávio Bolsonaro como muito mais do que um empate técnico convencional. Vejo neles a condensação estatística de uma sociedade dividida em dois grandes arquipélagos políticos.
Entre uma margem e outra resta uma faixa estreita de água, justamente aquela por onde navegarão os votos de Augusto Cury, Caiado, Zema, Renan Santos e dos demais derrotados.
No primeiro turno, esses votos parecem pequenos. No segundo, podem adquirir o peso de uma chave.
E talvez seja essa a ironia mais bela e cruel da matemática eleitoral de 2026: depois de meses de crises, batalhas institucionais, conflitos envolvendo o STF, discursos inflamados, campanhas, redes sociais, alianças, rupturas e milhões de palavras lançadas ao vento, Lula e Flávio Bolsonaro podem chegar à última noite separados por quase nada.
Dois gigantes apoiados em mundos sociais diferentes, diante de uma porta estreitíssima. Nesse instante, a sociologia encontra a estatística, a estatística encontra a política, e a política volta a encontrar aquilo que jamais conseguiu domesticar inteiramente: a imprevisibilidade humana escondida dentro de cada voto.
* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ







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