* Paulo Baía
Domingo de chuva no Rio de Janeiro possui uma liturgia própria. O céu amanhece cinzento, os aplicativos meteorológicos dizem uma coisa, as nuvens fazem outra e cada carioca vira especialista em previsão do tempo.
Para completar, hoje tem jogo do Flamengo. E quando o Flamengo joga, até São Pedro deveria consultar a tabela antes de abrir as torneiras celestiais.
Foi olhando a chuva que me lembrei de sexta-feira passada, quando minha neta Fernanda foi ao Rock in Rio assistir aos conjuntos coreanos que ela e as amigas adoram. Meninas de 11, 12 e 13 anos vivendo aquela idade maravilhosa em que uma música pode ocupar o tamanho inteiro do mundo.
Sabem nomes, letras, coreografias e histórias de seus ídolos com uma competência que faria inveja a qualquer serviço de inteligência.
O problema era a chuva.
Fernanda havia escutado uma conversa minha com a avó sobre o convênio da Prefeitura do Rio com a Fundação Cacique Cobra Coral. Parecia distraída, mas quem convive com meninas dessa idade sabe que elas possuem um sofisticado serviço secreto doméstico.
Podem estar olhando o celular e conversando, mas alguma informação dos adultos fica cuidadosamente arquivada.
Diante das nuvens ameaçando o Rock in Rio, Fernanda e uma amiga chegaram com a solução pronta: “Vô, você pode falar para aquele indígena para fazer a chuva parar hoje?”
Não me surpreendi com a palavra “indígena”. É assim que suas professoras estão ensinando. Elas acreditam que novas palavras são mais respeitáveis e ajudam a dar dignidade aos povos originários do Brasil. A escola também muda o mundo quando ensina novas gerações a nomeá-lo de outra maneira. Minha surpresa foi outra.
Na cabeça das duas, o avô tinha acesso direto ao homem que podia conversar com a chuva.
Minha autoridade familiar havia alcançado patamares perigosíssimos.
Mas nenhum avô, diante de duas meninas preocupadas com seus ídolos coreanos, cometeria a irresponsabilidade de confessar limitações institucionais.
Peguei o celular, entrei no site da Fundação Cacique Cobra Coral e mandei uma mensagem.
Naquele instante fui nomeado, sem decreto ou concurso público, representante extraordinário das adolescentes do K-pop para assuntos meteorológicos do município do Rio de Janeiro.
A operação estava montada. De um lado, Fernanda e a amiga. Do outro, as nuvens. No meio, o Rock in Rio, os conjuntos coreanos e um avô com o celular na mão. Acima de todos, São Pedro. E em algum lugar dessa complexa burocracia do universo, o Cacique Cobra Coral.
A noite aconteceu.
Não vou discutir pressão atmosférica, massas de ar, frentes frias ou probabilidades estatísticas. Seria estragar uma boa história com excesso de ciência.
Para duas meninas felizes, a conclusão foi muito mais simples: o avô mandou a mensagem, a chuva colaborou e o Cacique Cobra Coral virou o herói da noite.
Pronto.
Aos 11, 12 e 13 anos, a vida ainda permite essas equações deliciosas. Nós, adultos, queremos explicar tudo, comprovar tudo e colocar nota de rodapé na felicidade. Elas queriam apenas cantar, dançar e ver de perto seus ídolos coreanos.
Agora chegou domingo. Chove novamente no Rio. E tem Flamengo. O problema é que foi criado um precedente.Se funcionou para o K-pop, por que não funcionaria para o Flamengo?
Deixarei o celular carregado. Ser avô é uma atividade sem descrição formal de funções. Começamos contando histórias, comprando sorvete, dando conselhos e oferecendo colo.
Quando percebemos, estamos intermediando negociações entre meninas adolescentes, astros coreanos e as forças meteorológicas do planeta.
E se o Flamengo ganhar neste domingo, com chuva ou sem chuva, minha situação ficará ainda mais complicada. Fernanda poderá concluir que o Cacique Cobra Coral, além de ajudar no Rock in Rio, também é Flamengo.
E aí não haverá meteorologista capaz de convencê-la do contrário.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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