Opinião

O amanhã não vive de gratidão

Venho afirmando que os debates televisivos já não são ferramentas adequadas às campanhas eleitorais para presidente da República, governadores e prefeitos. Insisto nessa percepção. O formato comprime o pensamento, distribui a palavra em pequenas concessões de tempo e transforma a interrupção em método. Uma ideia começa a encontrar sua forma e o relógio a expulsa.…

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Venho afirmando que os debates televisivos já não são ferramentas adequadas às campanhas eleitorais para presidente da República, governadores e prefeitos. Insisto nessa percepção. O formato comprime o pensamento, distribui a palavra em pequenas concessões de tempo e transforma a interrupção em método. Uma ideia começa a encontrar sua forma e o relógio a expulsa. Depois, cobra-se dos candidatos a profundidade que a própria organização do espetáculo tornou improvável.

As entrevistas individuais e os podcasts são muito mais eficientes para a exposição política e programática das candidaturas. Permitem desenvolver argumentos, apresentar propostas, enfrentar perguntas sucessivas e deixar aparecer uma maneira de pensar. Quando há entrevistadores preparados, capazes de insistir diante de uma evasiva, o tempo se torna um instrumento de esclarecimento. Também oferecem matéria para cortes e memes que abastecem as redes sociais e os aplicativos de mensagens, onde a campanha se prolonga e adquire a intimidade das conversas cotidianas.

O debate televisivo, contudo, ainda concentra atenção e oferece imagens para essa circulação. Sua importância permanece, embora sua capacidade de esclarecer esteja comprometida. É preciso compreender essa contradição para examinar o encontro entre Lula e Flávio Bolsonaro: uma conversa estreita pode produzir consequências largas, sobretudo quando seus fragmentos passam a viver longe do contexto em que nasceram.

Minha avaliação é que Flávio ganhou o debate. Atribuo 7,5 ao seu desempenho e 5,3 ao de Lula, numa escala de zero a dez. São notas minhas, expressão de um julgamento político e comunicacional, e assumo a responsabilidade por elas. Considero que Flávio foi mais eficiente na apresentação de sua candidatura, inclusive para uma plateia heterogênea, que não se resume aos seus apoiadores. Essa conclusão não equivale a afirmar que tenha conquistado, na mesma proporção, confiança para governar ou votos que antes pertenciam ao adversário.

A pesquisa qualitativa da Quaest sobre a recepção do debate, conduzida sob a direção de Felipe Nunes, oferece elementos importantes para essa leitura. Cientista político, professor e pesquisador do comportamento social, com doutorado em ciência política e mestrado em estatística pela Universidade da Califórnia em Los Angeles, Nunes reúne formação acadêmica e experiência na interpretação do país. Considero-o um dos melhores produtores de pesquisas quantitativas e qualitativas da atualidade brasileira. Essa é uma avaliação minha sobre a qualidade de seu trabalho, não uma classificação que pretenda dispensar critérios ou encerrar o debate sobre métodos.

Interessa-me, sobretudo, o que uma investigação dessa natureza permite perceber sobre a recepção das mensagens. Pesquisas qualitativas ajudam a examinar sentidos, justificativas, resistências e formas de reconhecimento. Quando incorporam notas, acrescentam uma descrição numérica às avaliações, sem se transformarem, por isso, em pesquisas probabilísticas do eleitorado. O relatório fornecido esclarece que seu painel não mede intenção de voto nem constitui uma amostra probabilística. Esse limite faz parte da interpretação dos resultados.

Os números revelam uma sociedade que também assiste ao debate por meio de seus pertencimentos. Lula recebe nota 8,7 entre lulistas e 3 entre bolsonaristas. Flávio recebe 9 entre bolsonaristas e 3,4 entre lulistas. Entre os classificados como esquerda, Lula mantém vantagem, com 6,5 diante de 4,2. Entre os de direita, Flávio alcança 7,4 e Lula fica com 3,9. O vínculo político participa da avaliação antes mesmo que o espectador formule uma explicação para aquilo que sentiu.

Não assistimos apenas com os olhos. Levamos à tela nossa história, nossos grupos de referência, as conversas da família, o ambiente de trabalho, a religião, as expectativas de ascensão e os receios de perda. Isso não elimina a capacidade de julgamento individual. Significa que essa capacidade se exerce dentro de relações sociais, atravessada por afetos e experiências. Uma mesma intervenção pode ser reconhecida como firmeza por alguém e recebida como arrogância por outra pessoa; uma resposta pode soar espontânea para os próximos e calculada para os adversários.

A identificação também oferece abrigo psicológico. Admitir uma qualidade no candidato do outro campo pode produzir desconforto quando o pertencimento exige demonstrações permanentes de lealdade. Em ambientes polarizados, reconhecer um bom desempenho corre o risco de ser interpretado como deserção. O eleitor aprende, assim, a administrar o que percebe e aquilo que se sente autorizado a dizer.

Por isso considero possível que Flávio tenha vencido, na percepção de parte dos próprios eleitores de Lula, sem que essas pessoas cogitem mudar o voto. É uma interpretação minha sobre a convivência entre julgamento de desempenho e escolha eleitoral. O painel apresentado não comprova esse cruzamento, e seus resultados agregados entre lulistas e esquerda favorecem Lula. Preservar essa distinção permite sustentar uma análise ousada sem atribuir aos dados uma resposta que eles não oferecem.

Entre os classificados como independentes, Flávio recebe 6 e Lula, 5,2. A diferença merece atenção como descrição do painel. Sua magnitude eleitoral não pode ser deduzida dessas duas notas, especialmente sem informações suficientes sobre o tamanho de cada segmento, a dispersão das respostas e os pesos empregados. Tampouco se deve transformar a palavra “independente” em sinônimo automático de indeciso. Uma pessoa pode rejeitar identidades partidárias e ter uma escolha presidencial bastante firme.

Ainda assim, há uma questão política relevante: nesse segmento, a recepção média das falas de Flávio foi melhor. Para compreender o resultado, vale observar como cada candidato procurou estabelecer relação com o cotidiano.

Na passagem em que pergunta se o salário já acabou antes do fim do mês, Flávio oferece ao espectador uma experiência reconhecível. A formulação convoca uma lembrança imediata: o saldo consultado no celular, a compra adiada, a conta escolhida para ficar para depois. O candidato procura converter um problema econômico em uma conversa doméstica. A explicação causal que apresenta exige exame, mas sua estratégia discursiva é identificável: partir de uma sensação vivida para conduzir o julgamento sobre o governo.

O procedimento reaparece quando menciona a espera por atendimento no SUS e as dificuldades de mães que procuram especialistas para seus filhos. O discurso escolhe pessoas e situações, dá endereço ao sofrimento e procura estabelecer proximidade. A eficácia dessa construção não comprova a consistência das propostas nem a veracidade de todas as alegações. Mostra como uma candidatura tenta ocupar o lugar de quem reconhece uma aflição e promete agir sobre ela.

A distinção importa porque a comunicação política pode produzir confiança antes que o programa tenha sido examinado. O reconhecimento de uma dor abre a escuta. Depois disso, uma promessa encontra condições mais favoráveis para ser recebida. Ao analista cabe acompanhar esse movimento e perguntar se a solução apresentada corresponde ao problema que mobilizou a atenção.

O relatório registra vantagem de Flávio em saúde, com 5,8 diante de 4,7, e em emprego e renda, com 5,9 diante de 5,5. São avaliações de falas dentro daquele instrumento. Para Lula, entretanto, constituem um problema comunicacional expressivo: assuntos ligados à proteção social e à vida dos trabalhadores não lhe asseguraram, por força de sua trajetória, a melhor recepção.

O patrimônio político exige atualização. Uma conquista pode permanecer na memória e perder centralidade na decisão presente. Quem melhorou de vida pode desejar uma melhora maior; quem recebeu proteção pode cobrar autonomia; quem reconhece o valor de um programa social pode estar insatisfeito com a qualidade do serviço público que encontra todos os dias. Há coerência nessa combinação, embora as campanhas frequentemente a tratem como incompreensão ou ingratidão.

A gratidão não assina procuração para o futuro.

É por isso que a ideia de prosperidade possui tanta força. Ela encontra a vontade de ultrapassar a sobrevivência, ter alguma segurança, escolher uma compra sem sacrificar outra necessidade e imaginar uma vida menos exaustiva para os filhos. Esse desejo pode ser acolhido por projetos políticos distintos. Nenhum campo tem sua posse definitiva, e a defesa dos direitos sociais perde alcance quando deixa de conversar com a ambição legítima de viver melhor.

Uma política comprometida com a igualdade precisa compreender a pessoa que quer abrir um negócio, ampliar sua renda, comprar uma casa ou deixar de depender de ajuda. Precisa também mostrar como serviços públicos, direitos e proteção social podem tornar esses projetos possíveis. Quando essa ligação desaparece da linguagem, abre-se espaço para que o adversário apresente a segurança coletiva como obstáculo à realização individual.

Lula tem recursos biográficos poderosos para estabelecer essa conversa. Um dos momentos mais expressivos do debate, conforme o relatório, ocorreu quando respondeu à provocação sobre a perda de seu dedo. Naquela passagem, sua história de trabalhador adquiriu uma presença concreta. A mão ferida ofereceu uma imagem na qual corpo, memória e posição social se encontraram. A resposta recebeu nota 6,5 entre independentes, superior à avaliação geral de Lula nesse segmento.

O documento permite analisar a imagem evocada pela fala, embora uma descrição precisa de gestos, expressões faciais e entonações exigisse o exame da gravação. A distinção não reduz a força do episódio. Ao relacionar a marca corporal ao trabalho, Lula procurou restabelecer uma autoridade fundada na experiência. Sua biografia deixou de aparecer apenas como sequência de realizações e se apresentou como vida atravessada pelo esforço e pelo risco.

Flávio respondeu com um pedido de desculpas e, em seguida, deslocou a discussão para pobreza e programas sociais. A sequência contém uma operação discursiva importante: reconhecer a ofensa para tentar encerrar seu custo e recuperar a iniciativa por meio de outra pergunta. Um pedido de desculpas pode expressar reconhecimento e também cumprir uma função estratégica. O texto permite observar essa função; não permite conhecer, por dentro, a sinceridade de quem o pronunciou.

É nesse nível que a análise psicológica precisa trabalhar: examinando efeitos, formas de apresentação e possibilidades de recepção, sem inventar diagnósticos sobre os candidatos. Irritação, serenidade e segurança são também imagens públicas produzidas numa interação. Sua interpretação depende da sequência do confronto e das predisposições de quem assiste.

O mesmo cuidado vale para os ataques. Uma acusação pode energizar a base e afastar quem procura explicações. Pode expor uma contradição relevante ou consumir o tempo que seria necessário para apresentar uma alternativa. A agressividade, por si só, não define eficácia. Importa saber a quem a intervenção se dirige, que experiência convoca e que posição oferece ao espectador.

Minha leitura é que Flávio conseguiu, em diferentes passagens, dirigir-se a quem estava em casa por meio de problemas cotidianos, enquanto Lula dedicou parte de sua energia a cobrar respostas do adversário e defender a legitimidade de sua própria trajetória. Cobrança e defesa eram necessárias. O desafio estava em convertê-las numa perspectiva de vida futura para o eleitor.

A história de um governante precisa encontrar o presente de quem o escuta. Uma lista de obras não realiza sozinha essa aproximação. Indicadores podem descrever avanços reais e permanecer distantes de quem espera atendimento, teme perder renda ou se sente desprotegido na rua. Entre a realização administrativa e o reconhecimento social existe um trabalho político de tradução, escuta e vínculo.

Quando esse trabalho falha, o governo fala de um país que melhorou e parte da população responde a partir de uma vida que continua difícil. As duas experiências podem conter verdade. O erro começa quando uma delas é usada para desautorizar a existência da outra.

Foi nessa distância que, a meu ver, Flávio encontrou espaço. Apresentou-se como portador de uma mudança e procurou associá-la ao dinheiro no bolso, à segurança e à liberdade. Essa apresentação precisa ser confrontada com suas propostas, alianças e responsabilidades políticas. A aparência de novidade não elimina continuidades de poder, assim como a idade de um candidato não determina a idade de suas ideias.

Mas denunciar essas continuidades exige compreender por que a promessa encontra escuta. O desejo de mudança não desaparece porque alguém demonstrou as contradições de quem o representa. Uma candidatura pode perder credibilidade sem que a insatisfação que a alimenta seja resolvida. Para disputar esse desejo, é preciso oferecer uma direção que tenha força própria.

Daí minha insistência nas limitações do debate televisivo. O formato favorece a produção de passagens que possam circular sozinhas. A provocação, a resposta indignada, o pedido de desculpas e a pergunta curta ganham novas legendas, novas montagens e novas funções. O corte não transporta simplesmente o debate para outra tela. Ele reorganiza a cena, escolhe seu começo e seu fim e oferece ao público uma interpretação condensada.

Nos aplicativos de mensagens, essa interpretação chega acompanhada de relações de confiança. A pessoa recebe o vídeo de um irmão, de uma colega, de alguém da igreja ou do trabalho. A mensagem traz, junto com as imagens, o peso daquele vínculo. É nesse encontro entre circulação digital e sociabilidade cotidiana que boa parte da disputa comunicacional adquire continuidade.

As entrevistas individuais e os podcasts podem oferecer mais espaço para desenvolver propostas e produzir conteúdos que mantenham inteligibilidade mesmo depois de recortados. Sua qualidade depende de perguntas preparadas, liberdade de investigação e disposição para o contraditório. O tempo disponível abre uma possibilidade; o trabalho de entrevistar precisa realizá-la.

Continuo considerando que Flávio administrou melhor a apresentação de sua candidatura naquela noite. Ganhou para os seus apoiadores e, na minha leitura, ultrapassou essa fronteira na avaliação de pessoas que não necessariamente votarão nele. O relatório oferece sinais compatíveis com parte dessa interpretação, sobretudo entre independentes, mas não autoriza anunciar uma conversão eleitoral ou um desfecho das urnas.

Lula preserva força política, vínculos sociais e uma biografia de enorme densidade. Seu desafio é fazer com que essa experiência sustente uma promessa que o eleitor possa reconhecer como sua. A memória das conquistas terá mais alcance quando ajudar a responder ao desejo de avançar, em vez de esperar que o reconhecimento do passado encerre a conversa.

O eleitor chega à urna com lembranças, lealdades e receios. Chega também com a consulta que espera, a renda que falta, o filho que procura trabalho e a vontade de descansar sem culpa. É a essa vida, feita de necessidades e imaginação, que uma candidatura precisa se dirigir. O amanhã começa quando alguém consegue enxergar lugar para si dentro da promessa que escuta.

*Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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