* Paulo Baía
Aos 75 anos, descubro que a juventude sabe voltar por caminhos que a idade desconhece. Encontra as ausências, examina as cicatrizes, abre um livro e fica. Já perdeu a inocência, mas conserva a liberdade de perguntar por que o mundo precisa continuar assim. Neste 14 de outubro de 2026, escrevo com essa visita. Minha esperança aprendeu a atravessar o luto sem fazer dele moradia. Conversa com a distopia, reconhece seus passos na escada, mas continua preparando a casa para outros futuros.
A febre do planeta atravessou mais um calendário. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, 2015 a 2025 foram os onze anos mais quentes já registrados; em 2025, a temperatura ficou cerca de 1,43 °C acima da média pré-industrial. O número desce do relatório e encosta na pele. Torna-se madrugada sem sono, lavoura sem água, colchão carregado pela enchente. A crise climática entrou na intimidade: conhece o caminho da cozinha, da cama, do corpo que trabalha.
A religião do progresso prometeu que as máquinas alargariam a liberdade. Ciência, técnica e capital anunciavam a chegada de uma vida liberta da necessidade. A acumulação ilimitada deu outra direção à viagem. Montanhas viraram estoques, florestas tornaram-se obstáculos, pessoas passaram a caber em planilhas. A ciência ainda abre caminhos, mas sua captura pelo lucro entrega a bússola a quem pretende possuir a paisagem inteira.
O individualismo exacerbado chega a ser fóbico: teme a dependência, a partilha, a proximidade que desarruma certezas. Os meninos e meninas lhe dão um nome preciso, individualismo tóxico. Cada pessoa deve administrar a própria existência como uma empresa, mesmo quando lhe faltam teto e jantar. O sonho recebe juros. A cidadania perde espaço para o consumo. A solidão veste a roupa da autonomia e sai à rua oferecendo cursos de felicidade.
No Brasil, essa estreiteza encontra uma geografia de abundância. Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica e Pampa formam uma biblioteca viva de águas, espécies e saberes. A devastação arranca suas páginas. Mineração, garimpo com mercúrio e expansão agropecuária predatória corroem territórios; indígenas e quilombolas defendem a vida sob ameaça. Quando uma floresta cai, desaparecem também maneiras de compreender o tempo.
Precisamos acolher as notícias que abrem passagem. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, o INPE registrou queda de 36% na área sob alertas de desmatamento na Amazônia e de 7,8% no Cerrado. Alertas diferem da taxa anual consolidada e orientam a fiscalização. Esses avanços demonstram que conhecimento, instituições e ação pública podem conter a destruição. A esperança adquire raízes verificáveis: trabalho, pesquisa, fiscalização, árvores que continuam de pé.
Nas cidades, a sombra tem a geografia dos privilégios. Algumas ruas oferecem copas generosas; outras deixam o sol cobrar diretamente do corpo. Encostas, palafitas e bairros sem árvores recebem o clima extremo sobre desigualdades antigas. Ribeirinhos, catadores, pequenos agricultores e pessoas sem teto pagam uma conta produzida longe de suas mãos. O país das águas conhece a sede. A riqueza passa diante de mesas vazias sem diminuir a velocidade.
Das favelas cariocas às quebradas paulistas, de Belém a Fortaleza, Recife e Salvador, sobreviver exige conhecer os movimentos do perigo. O Estado frequentemente chega com armas antes dos direitos. Facções e milícias cobram sobre gás, transporte, internet, moradia e voto. O medo aprende a emitir contas. A explicação pela ausência estatal encobre as presenças, cumplicidades e negócios que participam dessa ordem.
Luiz Antônio Machado da Silva escreveu sobre a “incomunicabilidade entre seus próprios membros produzida pelo medo e pela desconfiança”. Sua análise da sociabilidade violenta permite compreender como a força invade as relações e estreita o cotidiano. O silêncio entra entre vizinhos, interrompe conversas, ocupa a cadeira da confiança. Recuperar a palavra pública dos moradores é parte da reconstrução democrática.
Michel Misse identifica, na sujeição criminal, a fabricação de alguém que “pode ser morto, que seja matável”. A acusação adere à pessoa como uma segunda pele; pobreza, cor e território alimentam a seleção dos suspeitos. O crime deixa de ser apenas uma ação e passa a contaminar uma existência inteira. Nenhuma democracia se sustenta quando a morte de certos cidadãos recebe aprovação antes que suas vidas sejam escutadas.
Joana Vargas, socióloga e professora da UFRJ, examina a persistência de “uma crença epistemológica sobre o valor da confissão e da tortura”. Sua pesquisa interroga a produção da verdade criminal e a distância entre os procedimentos anunciados e as práticas efetivas. Essa contribuição ilumina uma ferida civilizatória: a violência pode procurar legitimidade dentro das instituições encarregadas de contê-la. Defender direitos humanos exige alcançar também esses subsolos.
A autorização para consumir vidas atravessa a porta de casa. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 registrou 1.571 feminicídios em 2025, aumento de 4%; mulheres negras foram 65,1% das vítimas. Crianças crescem entre ameaças; idosos são abandonados como livros que ninguém deseja abrir. Mulheres, sobretudo negras e pobres, sustentam famílias e bairros enquanto lhes faltam proteção, renda e descanso. O cuidado precisa deixar de ser uma obrigação sem reciprocidade.
Outros conhecimentos germinam nesse chão. Quebradeiras de coco defendem a terra compartilhada; sertanejos desenvolvem a convivência com o semiárido; pescadores, marisqueiras e caiçaras enfrentam portos, indústrias e turismo predatório. O perspectivismo ameríndio estudado por Eduardo Viveiros de Castro interroga a exclusividade humana na condição de sujeito. Leio nessa abertura um convite a descer do trono: o mundo tem relações que nossa vontade de posse não consegue governar.
Eliane Brum reconhece “Brasis invisíveis com uma imensa força criadora”. Nas aldeias, quilombos e periferias, essa força organiza hortas, creches, cooperativas e redes de apoio. Mães conduzem o luto à praça; jovens fazem rap, funk, slam, grafite, teatro e cinema comunitário. A beleza devolve rosto ao que o poder preferia manter sem nome. A margem produz linguagem, conhecimento e possibilidades de vida coletiva.
Nas telas, plataformas colhem atenção, negociam desejos e podem premiar ódio e mentira. A inteligência artificial amplia possibilidades e exige controle democrático sobre dados e trabalho. Corporações e projetos religiosos de poder pressionam a democracia. A fé também abre mesas: nos terreiros, nas igrejas católicas e evangélicas e nas comunidades religiosas multiétnicas, o encontro pode alimentar solidariedade. Escolas e universidades públicas preservam pesquisa, pensamento e a coragem de perguntar.
Minha utopia, refeita aos 75, tem orçamento e poesia. Quer saneamento, moradia, ciência, proteção às mulheres e direitos territoriais. Aprende com a floresta a interdependência e com a organização comunitária a força da partilha. Deseja uma civilização plural, ecológica, afetiva, aberta à espiritualidade, capaz de transformar conhecimento em cuidado.
A catástrofe não garante aprendizado. Guerras, autoritarismos, genocídios e devastação podem estreitar ainda mais nossa humanidade. Por isso escrevo este alerta, este chamamento: reunamos os que plantam, ensinam, pesquisam, criam e organizam para mudar as prioridades do mundo. Aos 75 anos, minha juventude voltou para trabalhar. Encontro-a à mesa, abrindo espaço para quem ainda vai chegar.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ







Deixe um comentário