Opinião

Nunca subestime os idiotas

Entre Nelson Rodrigues, o Iluminismo e as conversas com Carla Rodrigues, uma reflexão sobre o poder das certezas, o avanço do negacionismo e os perigos da estupidez coletiva

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* Paulo Baía

Carla Rodrigues é minha filósofa favorita. Digo isso com a liberdade dos afetos e a certeza que só as boas conversas permitem. Carla escuta com doçura, responde com ternura e se contrapõe com delicada provocação. Não precisa levantar a voz para desarrumar nossas convicções. Conversar com ela é quase sempre sair com menos certezas do que se entrou, o que, nestes tempos, talvez seja uma forma sofisticada de generosidade. Foi depois de uma dessas conversas que voltei a pensar nos idiotas.

Nos meus quase 75 anos de vida, aprendi uma regra que o tempo confirmou sem piedade: nunca subestime os idiotas. Eles são numerosos e possuem extraordinária capacidade de encontrar companhia. Um idiota solitário pode causar apenas algum aborrecimento. O perigo começa quando encontra outros, organiza suas certezas, escolhe uma causa, identifica inimigos e descobre uma multidão pronta para aplaudi-lo.

É quando me lembro de Nelson Rodrigues, na minha opinião o maior e mais instigante dramaturgo brasileiro. Nelson conhecia nossas vaidades, ressentimentos, hipocrisias e, sobretudo, nossa paixão pelas unanimidades. Sua desconfiança da unanimidade era mais do que uma provocação genial. Havia ali quase uma sociologia brasileira da estupidez coletiva. Nelson percebia o perigo do instante em que uma multidão deixa de perguntar e passa apenas a confirmar aquilo em que já acredita. A inteligência suporta a dúvida; a estupidez prefere o conforto das certezas.

Talvez por isso, quanto mais envelheço, mais admiro os iluministas. Que extraordinária ousadia imaginar que a humanidade pudesse enfrentar o obscurantismo com razão, ciência, conhecimento, liberdade e tolerância. O Iluminismo não acabou com a ignorância, missão impossível até para os mais otimistas, mas nos ensinou alguma coisa essencial: nenhuma autoridade deveria estar acima da crítica e nenhuma verdade dispensada de prestar contas à razão.

Acontece que o negacionismo sobreviveu. É perene, ampliado e devastador. Apenas muda de roupa, vocabulário e bandeira. Em nosso tempo encontrou nas redes sociais e no WhatsApp uma formidável máquina de reprodução. A ignorância ganhou seguidores, o preconceito encontrou algoritmos, o boato entrou nos grupos de família e a certeza adquiriu a velocidade de um encaminhamento.

Seria confortável imaginar que negacionismo e autoritarismo possuem endereço político. Não possuem. O autoritarismo frequenta com a mesma intensidade as direitas e as esquerdas, da extrema direita à extrema esquerda. Mudam símbolos, heróis, inimigos e palavras de ordem, mas permanece a velha tentação de acreditar que possuir a verdade concede o direito de silenciar o outro. Há direitas que desprezam fatos quando eles incomodam suas convicções e há esquerdas que fazem exatamente o mesmo. Nenhuma ideologia está vacinada contra a estupidez, muito menos contra o autoritarismo.

Isso não torna direita e esquerda historicamente iguais, nem suas tradições equivalentes. Apenas recorda algo incômodo: o autoritarismo é anterior às nossas carteiras ideológicas. Pode falar em tradição ou revolução, ordem ou emancipação, passado glorioso ou futuro luminoso. Pode vestir verde e amarelo ou vermelho. Quando alguém acredita possuir tanta razão que o outro perde o direito de falar, ele já entrou na sala.

Nelson Rodrigues reconheceria imediatamente nosso tempo. Talvez estranhasse apenas descobrir que sua velha multidão agora cabe dentro de um telefone. Encontraria hashtags, influenciadores, militâncias digitais, cancelamentos e grupos de WhatsApp funcionando dia e noite. Imagino Nelson olhando aquilo tudo com seu sorriso ferino e concluindo que a unanimidade não deixou de ser burra; apenas ganhou Wi-Fi, câmera, microfone e grupo de família.

O negacionismo também ganhou velocidade. Não precisa demonstrar, basta afirmar; não precisa investigar, basta compartilhar. O idiota que antigamente atormentava quatro amigos numa mesa de bar pode hoje alcançar milhares de pessoas antes que o garçom traga a conta. Nelson talvez se divertisse, por alguns minutos, com tamanha democratização dos meios de produção da estupidez. Depois, provavelmente pediria outra bebida.

É aí que volto a Carla. Escutar, perguntar, discordar sem destruir o outro e admitir a possibilidade de estar errado tornaram-se gestos quase subversivos numa época apaixonada por certezas. Carla sabe que pensar não é gritar. Talvez por isso sua delicadeza seja tão provocadora. Enquanto tantos disputam quem possui a resposta definitiva, ela ainda faz perguntas.

Depois de quase 75 anos, continuo acreditando na razão, na ciência, na liberdade e no humanismo. Mas aprendi com Nelson a desconfiar das multidões satisfeitas demais consigo mesmas e com Carla a desconfiar também das minhas próprias certezas. Entre a ironia de um e a delicadeza da outra, talvez ainda exista algum lugar respirável para a razão.

Quanto ao Iluminismo, não sei onde foi parar. Dizem que ouviu Nelson Rodrigues, escutou uma pergunta de Carla, abriu as redes sociais, entrou por engano num grupo de WhatsApp e ficou alguns minutos em silêncio. Depois, ninguém mais o viu. Se foi embora, se foi derrotado ou se apenas se recolheu à espera de que a humanidade volte a sentir alguma saudade da dúvida, prefiro não saber.

*Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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