A política brasileira está produzindo uma imagem perigosa. Quanto mais seus personagens gritam que pertencem a lados opostos, mais uma parcela da sociedade começa a enxergá-los dentro da mesma paisagem. Não significa que sejam iguais. Não são. Suas histórias, ideias, responsabilidades e compromissos são diferentes.
Mas alguma coisa está acontecendo no olhar de quem assiste. As fronteiras estão ficando borradas. O que antes parecia separado começa a aparecer misturado. E talvez esteja aí uma das chaves sociológicas para compreender a eleição presidencial de outubro.
O problema brasileiro, neste momento, não é apenas a polarização. É uma crise de diferenciação.
Existe esquerda, existe direita, existe bolsonarismo, existe lulismo, existem democratas, conservadores, liberais e extremistas. As diferenças continuam objetivamente presentes.
Entretanto, a sucessão de acontecimentos envolvendo governos, Congresso, Supremo Tribunal Federal, empresários, banqueiros, advogados, operadores políticos, Polícia Federal e personagens que transitam entre esses ambientes vai produzindo no cidadão uma percepção muito mais simples, devastadora e difícil de combater: no final das contas, todo mundo conhece todo mundo.
O Banco Master tornou-se a representação quase perfeita dessa mistura. Daniel Vorcaro parece surgir em corredores demais, relações demais, conversas demais. Personagens que deveriam habitar universos políticos inconciliáveis aparecem tocados, de maneiras distintas e com responsabilidades que não podem ser confundidas, pela mesma teia de relações.
Alexandre de Moraes está no centro de revelações que provocaram uma grave crise institucional. André Mendonça, relator das investigações, confirmou ter recebido Vorcaro em 2025. Edson Fachin, presidente do STF, determinou que Moraes, Mendonça, Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal prestem informações sobre diálogos relacionados ao banqueiro.
Cada episódio possui sua história, sua dimensão jurídica e sua verdade factual. Misturá-los seria intelectualmente desonesto. Mas o eleitor não acompanha a República com autos processuais abertos sobre a mesa.
Recebe manchetes, imagens, fragmentos de conversas, vídeos, denúncias, desmentidos e uma avalanche diária de versões. Depois tenta encontrar algum sentido naquela névoa.
E o sentido pode ser terrível para todos: eles estão misturados.
As militâncias continuam oferecendo uma narrativa binária para uma realidade que passou a ser percebida como circular. Cada lado apresenta seus santos e seus demônios, seleciona fatos convenientes, amplifica o escândalo adversário e encontra delicadas explicações para aquilo que acontece no próprio quintal.
A máquina da agitação e propaganda continua funcionando. Só que uma parte da plateia parece cansada.
Há um momento em que o excesso de gritos deixa de produzir convencimento e passa a produzir apenas ruído.
A imagem que me ocorre é a do globo da morte dos antigos parques de diversão. Dentro daquela esfera metálica, motociclistas avançavam em direções contrárias, cruzavam-se por centímetros, desapareciam e reapareciam em movimentos vertiginosos.
Cada piloto conhecia sua trajetória. Da arquibancada, porém, restava uma evidência impossível de ignorar: todos estavam dentro do mesmo globo.
Lula e Flávio Bolsonaro continuam representando campos eleitorais poderosos e antagonismos reais. A eleição permanece rigorosamente disputada. As pesquisas de segundo turno mantêm os dois praticamente colados, dentro das margens de erro. A polarização não desapareceu. Continua sendo a estrutura central da disputa.
Mas alguma coisa se move sob essa aparente estabilidade.
Uma parcela da sociedade talvez esteja deixando de acreditar não nos lados, mas na distância entre eles.
Quando o eleitor começa a imaginar que os adversários públicos frequentam os mesmos corredores privados, que guerras televisionadas convivem com proximidades invisíveis e que discursos ferozes terminam onde começam relações de influência, amizade, negócios ou conveniência, instala-se algo mais corrosivo do que a indignação.
A descrença.
É nesse território que a ascensão meteórica de Augusto Cury adquire importância sociológica.
Cury não é, até agora, o acontecimento central da eleição. Lula e Flávio continuam comandando a disputa e permanecem num empate estrutural rigoroso para o segundo turno. Mas um candidato que salta de 2% para 8% no Datafolha e de 2% para 10% na Quaest em poucas semanas está dizendo alguma coisa sobre o eleitorado.
Talvez esteja recolhendo aqueles que procuram alguém que ainda pareça estar fora do globo.
Não sabemos se permanecerá assim. Quanto mais crescer, mais será examinado, confrontado e obrigado a fazer escolhas. A distância que hoje constitui parte de sua força poderá desaparecer no instante em que deixar de ser observado como alguém de fora e passar a ser reconhecido como mais um habitante da esfera.
Por isso, seria um erro olhar apenas para Cury.
O fenômeno está na sociedade que tornou Cury possível.
Seu crescimento não desfez a polarização. Apenas iluminou uma rachadura dentro dela. Um território de fadiga, desconfiança e desesperança que procura alguma coisa ainda não contaminada pela paisagem conhecida.
Talvez seja esse o sinal mais inquietante desta eleição.
O maior perigo para Lula e Flávio Bolsonaro pode não ser o eleitor acreditar no adversário.
Pode ser o eleitor deixar de acreditar na diferença.
* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.







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