Opinião

Rio de Janeiro em movimento: a vantagem de Eduardo Paes, a emergência de Douglas Ruas e a batalha aberta pelo Senado

Quaest expõe vantagem de Eduardo Paes na corrida pelo governo, avanço potencial de Douglas Ruas e cenário ainda fragmentado na disputa pelas duas vagas do Senado

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A pesquisa Quaest de 25 de agosto revela duas eleições correndo em compassos diferentes. Para o governo, Eduardo Paes abre dianteira, com 37%, seguido por Douglas Ruas, com 14%, e Anthony Garotinho, com 7%. Na disputa pelo Senado, porém, o horizonte permanece sem contornos: há duas vagas, muitos nomes e um eleitorado que ainda hesita à beira da decisão.

Paes não carrega apenas uma vantagem numérica. Sua candidatura é a mais reconhecível e estruturada da paisagem fluminense, amparada por uma coalizão larga, por quatro mandatos à frente da Prefeitura do Rio e por uma imagem capaz de atravessar, sem se desfazer, diferentes territórios políticos.

Mas a estrutura da campanha de Eduardo Paes repousa sobre dois vetores distintos, ambos dotados de força geográfica, política e eleitoral. De um lado, há uma corrente pró-Lula vigorosa, que o próprio Paes faz questão de declarar e cultivar. De outro, há uma corrente pró-Flávio Bolsonaro, visível na presença de Jane Reis como vice em sua chapa e nas articulações de Washington Reis. A campanha se move, assim, como uma ponte suspensa sobre águas revoltas: aproxima-se de Lula sem abandonar as margens onde o bolsonarismo ainda finca raízes profundas.

Essa arquitetura dupla permite a Paes ocupar um centro ampliado, uma faixa de passagem onde se encontram lulistas, moderados, conservadores não bolsonaristas, setores empresariais, classes populares e máquinas municipais. Não é um centro imóvel, fechado sobre si mesmo, mas uma zona de trânsito, na qual interesses diversos reconhecem nele a promessa possível de governo.

A ofensiva jurídica contra Garotinho acrescenta uma nova sombra à disputa. A coligação de Paes e o Ministério Público Eleitoral pediram a impugnação de sua candidatura, com base em condenação por improbidade administrativa. A palavra final cabe à Justiça Eleitoral. Politicamente, contudo, a controvérsia coincide com o esvaziamento de Garotinho, que aparece com apenas 7% e uma rejeição de 68%.

Garotinho é conhecido, mas esse conhecimento se converteu em muralha. Douglas Ruas, ao contrário, ainda é desconhecido por 59% dos eleitores e registra rejeição de 21%. Um enfrenta uma imagem petrificada; o outro, uma imagem ainda em estado líquido. Na política, muitas vezes é mais fácil dar forma a um espaço vazio do que romper a crosta de uma imagem endurecida.

Ruas começa a ocupar o campo da direita fluminense. A Quaest mostra Flávio Bolsonaro com 31% na disputa presidencial no Estado, contra 29% de Lula. Há, portanto, uma reserva eleitoral expressiva entre o voto presidencial de direita e o voto estadual de Ruas. Essa passagem não será automática, nenhum rio político corre sozinho de uma margem a outra, mas existe um território à espera de conquista.

Se Ruas conseguir transformar desconhecimento em reconhecimento e aproximar-se com nitidez de Flávio Bolsonaro, poderá crescer. Se essa exposição produzir rejeição, encontrará depressa o seu limite. A eleição começa a desenhar uma contradição de grande força: Paes se aproxima da vitória no primeiro turno, enquanto Ruas se fortalece como o possível adversário capaz de barrar essa mesma vitória.

Sem Garotinho, Paes pode ser o principal beneficiário da redistribuição dos votos e da matemática dos votos válidos. Mas a retirada do ex-governador também pode empurrar parte do eleitorado conservador para Ruas. A mesma corrente que favorece a concentração em Paes pode, em seu movimento de retorno, alimentar a emergência de seu principal desafiante.

A disputa pelo Senado vive outra temporalidade, como se obedecesse a um relógio escondido. Benedita da Silva aparece com 10%; Carlos Jordy, 7%; Marcelo Crivella, 6%; Monica Benicio e Carlos Portinho, 5%; Pedro Paulo, 3%; Waguinho, 2%. Com duas vagas em jogo, 29% dos eleitores estão indecisos e 28% indicam branco, nulo ou ausência de voto.

O Senado ainda é uma paisagem sem proprietários, um campo onde nenhuma bandeira se fincou por inteiro. Benedita pode beneficiar-se da associação com Lula; Monica Benicio disputa o campo progressista; Jordy e Portinho procuram converter o bolsonarismo em voto senatorial; Crivella mobiliza sua base religiosa e conservadora; Pedro Paulo carrega o ativo decisivo de Eduardo Paes.

A eleição exigirá não apenas a conquista do primeiro voto, mas também a construção do segundo. É nesse segundo gesto, muitas vezes quase invisível, que alianças, lideranças nacionais, igrejas, máquinas municipais e vínculos territoriais poderão decidir as duas cadeiras. O primeiro voto anuncia uma preferência; o segundo revela uma arquitetura.

O paradoxo fluminense de agosto é nítido: a eleição para governador caminha para a concentração, enquanto a eleição para o Senado permanece dispersa, como luzes espalhadas numa cidade ainda não amanhecida. Eduardo Paes tenta transformar vantagem em vitória antecipada. Douglas Ruas procura converter desconhecimento em força política. Garotinho luta contra a rejeição e contra a ameaça jurídica. No Senado, todos avançam sobre um terreno ainda úmido, onde nenhuma marca se tornou definitiva e cada passo pode redesenhar o mapa.

Em 25 de agosto, as duas vagas estão abertas. Estão em disputa. Estão em movimento. E, como rios que ainda procuram o próprio leito, continuam à procura de seus eleitores.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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