Opinião

Nenhum diploma garante a liberdade: universidade, imprensa e conhecimento contra as corporações do pensamento

O valor da formação acadêmica não está no monopólio do conhecimento, mas na capacidade de formar profissionais livres, críticos e rigorosos em uma sociedade na qual autoridade intelectual se conquista pela obra, e não apenas por credenciais

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Há um equívoco antigo rondando a vida intelectual: imaginar que o conhecimento possa ser carimbado, que a inteligência venha autenticada por certificado e que a competência nasça solenemente no instante em que alguém recebe um diploma. Não nasce.

O diploma tem valor, registra uma trajetória, reconhece estudos, disciplina e formação. Mas nenhuma folha de papel, por mais prestigiosa que seja a instituição que a assina, consegue certificar coragem, curiosidade, independência, talento, honestidade ou liberdade intelectual.

É justamente por respeitar a universidade que devemos recusar sua transformação em cartório do pensamento. A universidade é grande quando ensina a perguntar, pesquisar, duvidar, argumentar, verificar, confrontar evidências e rever certezas.

Torna-se menor quando acredita que sua grandeza depende de conceder ao diplomado uma espécie de escritura de propriedade sobre determinado território do conhecimento.

É nesse ponto que a discussão sobre a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo ultrapassa os interesses administrativos de uma profissão. A questão essencial é outra: quem pode conceder licença ao pensamento?

Quando o Estado estabelece que somente os portadores de determinada certificação podem exercer profissionalmente uma atividade fundada na linguagem, na investigação, na interpretação e na circulação de informações, deixa de apenas reconhecer uma formação e começa a administrar uma fronteira da liberdade intelectual.

O problema não é o diploma. É o diplomismo. Não é a universidade. É sua conversão em alfândega. Não é a qualificação profissional. É a transformação da qualificação em reserva corporativa de mercado.

Defender escolas de Jornalismo excelentes é indispensável. Defender apuração rigorosa, ética, formação humanística, verificação, responsabilidade, domínio técnico e respeito às fontes também. Sindicatos, pesquisadores e sociedades científicas têm contribuição relevante nesse debate.

Mas nenhuma dessas premissas demonstra que a obrigatoriedade do diploma seja capaz de produzir bom jornalismo. Nenhuma universidade certifica independência, nenhum conselho profissional mede curiosidade, nenhuma carteira profissional garante honestidade intelectual e nenhuma formatura assegura coragem diante do poder.

Nenhum diploma consegue impedir que alguém confunda notícia com propaganda, investigação com militância, evidência com preferência, interpretação com dogma.

Nem sequer o domínio da língua portuguesa pode ser presumido pela existência de um certificado. E jornalismo é, antes de muitas coisas, um ofício da palavra. Um verbo errado transforma hipótese em certeza. Uma vírgula pode alterar uma relação lógica. Uma manchete pode ser literalmente verdadeira e intelectualmente fraudulenta. Uma palavra imprecisa pode deformar um acontecimento inteiro.

Quem trabalha profissionalmente com informação precisa compreender semântica, sintaxe, contexto, ambiguidade e sentido. Precisa saber ler antes de explicar o que leu, compreender um documento antes de transformá-lo em notícia e perceber as nuances de uma declaração antes de entregá-la ao público como realidade inteligível.

O diploma pode ajudar enormemente nessa formação. Jamais poderá garanti-la sozinho.

A mesma questão atravessa as Ciências Sociais. A sociologia possui história, métodos, conceitos, técnicas de pesquisa e tradições intelectuais que exigem estudo sério. Não é sociologia qualquer opinião improvisada sobre a sociedade.

Mas reconhecer o rigor de uma disciplina não significa conceder aos diplomados propriedade sobre seu objeto. A sociedade não pertence aos sociólogos, o poder não pertence aos cientistas políticos, o passado não pertence aos historiadores, a cultura não pertence aos antropólogos e os acontecimentos não pertencem aos jornalistas.

A realidade, felizmente, desconhece departamentos universitários. Ela atravessa nossos escaninhos, ri das nossas fronteiras administrativas e mistura economia, política, cultura, memória, linguagem, afetos, instituições e conflitos.

Por isso historiadores fazem perguntas sociológicas, jornalistas produzem interpretações políticas, antropólogos dialogam com a filosofia, economistas atravessam a história, escritores iluminam estruturas sociais e intelectuais independentes podem enxergar aquilo que especialistas, aprisionados pela rotina de suas especializações, deixaram de perceber.

O conhecimento necessita de método, mas também necessita de janelas abertas.

As corporações profissionais são importantes quando defendem trabalhadores, combatem a precarização, estabelecem parâmetros éticos e estimulam formação permanente. Tornam-se perigosas quando confundem proteção profissional com proteção contra a concorrência intelectual.

Uma corporação pode controlar rigorosamente quem entra e permanecer absolutamente incapaz de controlar a mediocridade de quem já está dentro. Pode distribuir carteiras sem distribuir talento, reconhecer títulos sem reconhecer inteligência e multiplicar códigos de ética sem produzir consciência ética.

A qualidade precisa ser procurada na obra. Uma pesquisa vale por seus métodos, evidências e coerência. Uma interpretação sociológica, por sua capacidade explicativa e pelo confronto com a realidade. Uma reportagem, por sua apuração, precisão, contextualização, pluralidade de fontes, clareza e responsabilidade.

Perguntar primeiro qual diploma possui o autor é permitir que a burocracia fale antes do argumento.

Na imprensa, isso se torna especialmente sensível porque o Estado é objeto permanente da investigação jornalística. Governos administram dinheiro público, exercem poder, produzem informações, cometem erros e tomam decisões capazes de transformar milhões de vidas.

Uma democracia deve ser cautelosa quando o próprio Estado fiscalizado pretende determinar, mediante credencial compulsória, quem estará profissionalmente autorizado a fiscalizá-lo. Não é necessário imaginar conspirações. Basta compreender instituições.

Democracias não são desenhadas apenas para governantes democráticos. Precisam resistir também aos governantes que eventualmente desprezem a crítica. Instrumentos administrativos aparentemente inocentes podem ganhar significados sombrios quando chegam às mãos de poderes autoritários.

Liberdade de imprensa, por isso, não é privilégio dos jornalistas, muito menos propriedade das empresas de comunicação. É direito da sociedade.

Existe para permitir que governos, tribunais, parlamentos, universidades, igrejas, partidos, sindicatos, empresas e qualquer outro centro de poder sejam investigados sem autorização prévia daqueles que poderão ser incomodados pela investigação.

Liberdade, evidentemente, não significa irresponsabilidade. Calúnia, fraude, falsificação deliberada e violações de direitos devem encontrar responsabilização jurídica, com devido processo legal.

A diferença democrática é decisiva: uma coisa é responder por um ato concretamente praticado; outra é precisar de autorização prévia para poder praticar uma atividade intelectual.

Também não devemos confundir opinião com jornalismo. Todo cidadão pode opinar. Jornalismo profissional exige algo mais: investigar, verificar, confrontar versões, contextualizar, proteger fontes quando necessário, corrigir erros e distinguir aquilo que foi demonstrado daquilo que permanece hipótese.

Mas essas qualidades aparecem no trabalho, não magicamente no diploma. As perguntas fundamentais são simples e implacáveis: apurou corretamente, verificou os documentos, ouviu versões contraditórias, compreendeu os números, separou informação de opinião, corrigiu o erro, resistiu às pressões econômicas, políticas e ideológicas, domina a língua em que escreve, consegue tornar inteligível uma realidade complexa sem falsificá-la?

É aí que mora o jornalismo.

O século XXI tornou ainda mais evidente a insuficiência das muralhas corporativas. Redes digitais romperam antigos monopólios de circulação da informação. Jornalistas independentes, pesquisadores, fotógrafos, documentaristas, especialistas e cidadãos passaram a produzir conteúdos relevantes fora das redações tradicionais.

A inteligência artificial multiplicou vertiginosamente textos, imagens, áudios e vídeos. Nenhuma burocracia conseguirá reconstruir o mundo comunicacional do século XX.

Talvez isso seja uma extraordinária oportunidade para o próprio jornalismo, porque, quanto maior o oceano de informações, maior a necessidade de profissionais capazes de verificar, investigar, contextualizar e separar fato de fabricação.

O jornalismo continuará indispensável, talvez mais indispensável do que antes. Mas sua legitimidade terá de nascer da excelência, não do monopólio.

O mesmo desafio se apresenta à universidade. Quando bibliotecas atravessam fronteiras digitais e o conhecimento circula pelo planeta em segundos, sua função não desaparece. Torna-se mais nobre.

A universidade já não pode pretender ser guardiã exclusiva da informação. Precisa ser o lugar privilegiado onde aprendemos a transformá-la em conhecimento. Uma grande universidade ensina sobretudo a pensar.

Se alguém atravessa anos de formação e sai apenas com um diploma, algo fracassou. Se sai incapaz de escutar quem discorda, fracassou em dimensão ainda maior. Se acredita que seu título constitui prova automática de superioridade intelectual, confundiu educação com hierarquia.

E, se precisa do Estado para impedir que pessoas formadas por outros caminhos disputem profissionalmente com aquilo que aprendeu, a própria confiança na educação recebida se torna paradoxalmente pequena. Uma universidade verdadeiramente forte não teme a liberdade. Alimenta-se dela.

Há uma diferença decisiva entre autoridade e autorização. Autoridade intelectual é conquistada pela obra, pelo conhecimento, pela experiência, pelo método, pela ética e pela qualidade. Autorização burocrática é concedida por uma instituição.

Sociedades abertas precisam de muita autoridade intelectual e do mínimo necessário de autorização estatal sobre a produção e a circulação das ideias. Quando confundimos ambas, nasce a sociedade das credenciais: o título fala antes da obra, o cargo antes do argumento, a instituição antes da evidência, a carteira profissional antes do talento.

O diploma pertence à educação; o diplomismo pertence à burocratização do conhecimento.

Defender essa distinção não significa enfraquecer universidades. Significa libertá-las da tentação cartorial. Não significa diminuir jornalistas diplomados, mas recusar que o diploma seja confundido com talento.

Não significa desprezar sociólogos formados, mas reconhecer que nenhuma corporação possui escritura sobre a sociedade. Não significa enfraquecer o Estado, mas lembrá-lo de que sua grandeza democrática também reside nos limites que aceita impor ao próprio poder.

Universidade e imprensa pertencem, afinal, à mesma tradição libertária do conhecimento. Ambas precisam formular perguntas sem solicitar licença àqueles que poderão ser perturbados pelas respostas.

Uma universidade na qual todos são livres apenas para concordar não é intelectualmente livre; uma imprensa livre apenas para investigar adversários não é independente; uma sociologia destinada a confirmar previamente determinadas conclusões transforma-se em doutrina; um jornalismo que seleciona fatos conforme preferências políticas aproxima-se perigosamente da propaganda.

Conhecimento exige liberdade e liberdade exige responsabilidade. A universidade não deve temer quem aprendeu fora dela. Deve desafiá-lo com argumentos. Não deve silenciar a heterodoxia, mas submetê-la ao confronto das evidências.

Não precisa reivindicar monopólios para provar sua importância. Precisa provar sua importância todos os dias pela excelência.

A imprensa enfrenta a mesma exigência. Credibilidade não é licença administrativa. É patrimônio moral lentamente conquistado.

Nasce da precisão, da independência, da transparência, da correção dos próprios erros e, sobretudo, da coragem de publicar fatos inconvenientes mesmo quando eles contrariam as preferências ideológicas do jornalista, da empresa ou de sua audiência.

É o trabalho que deve honrar o título, nunca o título que deve absolver previamente o trabalho.

Não precisamos abolir diplomas. Precisamos devolvê-los ao seu lugar legítimo. Não precisamos enfraquecer universidades, mas torná-las cada vez mais livres, abertas, rigorosas e intelectualmente inquietas.

Não precisamos destruir corporações profissionais, mas impedir que construam muralhas em torno do conhecimento. Uma democracia deve desejar excelentes jornalistas, não apenas jornalistas credenciados; excelentes sociólogos, não apenas profissionais certificados; universidades extraordinárias, não fábricas eficientes de títulos; cidadãos intelectualmente autônomos, não plateias condicionadas a obedecer automaticamente aos portadores de credenciais.

Porque nenhum diploma garante coragem, curiosidade, inteligência, honestidade ou liberdade. Essas virtudes podem ser cultivadas pela universidade, fortalecidas pela experiência, refinadas pela cultura e disciplinadas pelo método, mas precisam ser conquistadas diariamente, no confronto inquieto entre pensamento e realidade.

O diploma pode registrar uma formação. A liberdade intelectual, porém, não cabe numa moldura.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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