A pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto de 2026 chega como uma fotografia tirada no instante em que o chão começa a tremer. Não há nela o desenho de uma eleição pacificada, nem um destino já escrito, nem uma estrada livre conduzindo um vencedor até a faixa presidencial. O que aparece é uma disputa aberta, nervosa, socialmente partida, regionalmente fraturada e politicamente perigosa para todos os que imaginam que outubro possa ser lido, desde agora, como uma página pronta.
Lula continua à frente e Flávio Bolsonaro continua atrás, mas entre estar à frente e estar seguro existe um oceano inteiro de incertezas. Entre estar atrás e estar derrotado, existe outro. É justamente nesse espaço, nessa zona cinzenta em que a liderança ainda não se converteu em domínio e a desvantagem ainda não se transformou em fracasso, que a eleição presidencial de 2026 começa a ganhar sua forma mais verdadeira.
A Quaest mostra isso com clareza. No primeiro turno, Lula conserva uma vantagem objetiva e estatisticamente mensurável. No segundo, porém, essa vantagem se estreita até entrar na névoa da margem de erro. É nesse ponto que a pesquisa deixa de ser apenas uma tabela e passa a funcionar como um aviso político. Para Lula, um sinal de alerta. Para Flávio Bolsonaro, uma janela de possibilidade.
Essa combinação deve produzir dor de cabeça nos coordenadores, dirigentes, marqueteiros e estrategistas da campanha presidencial de Lula, porque nenhum ocupante do Planalto que busca novo mandato pode olhar com tranquilidade para um adversário que chega a 40% numa simulação de segundo turno. Ao mesmo tempo, é exatamente esse quadro que alimenta entusiasmo e alguma euforia no campo de Flávio Bolsonaro, pois ele não precisa estar vencendo hoje para produzir um efeito político decisivo. Basta demonstrar que pode vencer amanhã.
A eleição ainda não escolheu seu vencedor, mas já escolheu seus dois grandes polos. Lula e Flávio Bolsonaro começam a organizar o campo eleitoral como duas margens de um mesmo rio turbulento. Entre eles, uma sociedade dividida por renda, religião, região, escolaridade, raça, idade, gênero, identidade política e percepção sobre o rumo do país.
A Quaest ouviu 2.004 eleitores presencialmente, entre 10 e 13 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A partir dessa base, o retrato é inequívoco: a eleição presidencial brasileira de 2026 está aberta, muito aberta.
O primeiro turno: Lula lidera, mas não domina
No cenário espontâneo, Lula aparece com 25% e Flávio Bolsonaro com 19%. Outros candidatos somados alcançam apenas 3%, mas o número que realmente grita é outro: 51% ainda não sabem em quem votar.
Metade do país eleitoral ainda caminha na penumbra da indecisão. Esse dado precisa ser compreendido sociologicamente, porque a política já está polarizada no debate público, nas redes sociais, nos partidos, nas militâncias, nas elites políticas e nos ambientes organizados de opinião, mas uma parcela gigantesca da sociedade ainda não transformou percepção, incômodo, esperança ou ressentimento em escolha concreta.
Há uma diferença enorme entre sentir politicamente e votar eleitoralmente. O Brasil pode estar emocionalmente dividido e, ao mesmo tempo, ainda possuir uma massa considerável de cidadãos que não cristalizaram sua decisão. Essa tensão entre identidade política e voto efetivo talvez seja um dos traços mais importantes desta eleição.
Quando os nomes são apresentados, a névoa diminui. Lula sobe para 38%. Flávio Bolsonaro chega a 31%. Renan Santos e Ronaldo Caiado aparecem com 4% cada. Augusto Cury e Romeu Zema têm 2%. Samara Martins marca 1%. Os indecisos caem para 10%, enquanto brancos, nulos e aqueles que dizem que não irão votar somam 8%.
A distância entre Lula e Flávio é de sete pontos percentuais. Portanto, no primeiro turno não existe empate técnico entre eles. Esse cuidado conceitual é indispensável. Lula lidera de verdade, mas liderar não é dominar.
Os dois juntos concentram 69% da intenção de voto estimulada. Isso significa que a eleição começa a ser sugada por uma força centrípeta, pois quase tudo passa a girar ao redor dos dois. Os demais candidatos disputam espaço, agenda, visibilidade, influência e poder de barganha. Lula e Flávio disputam a Presidência.
A geografia eleitoral: dois Brasis continuam convivendo
O mapa eleitoral brasileiro parece uma pele marcada por cicatrizes antigas, e a pesquisa mostra que essas marcas continuam vivas. No Nordeste, Lula alcança 57%, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com 23%. No Sudeste, Lula tem 32% e Flávio, 35%. No Sul, Flávio marca 40% contra 25% de Lula. No agregado Centro-Oeste/Norte, Lula aparece com 36% e Flávio, 26%.
O Nordeste continua sendo a grande fortaleza do lulismo. Ali, a memória das políticas sociais, a identificação histórica com Lula, a experiência concreta de mobilidade social e a presença simbólica do Estado ainda pesam de forma muito relevante. Lula não é apenas um candidato naquele território. Para uma parcela expressiva do eleitorado, ele é também memória biográfica de melhoria de vida, emprego, renda e reconhecimento.
O Sul funciona quase como o espelho invertido. Flávio Bolsonaro encontra ali 40%, contra 25% de Lula, e essa vantagem revela a densidade de uma cultura política conservadora que permanece fortemente conectada ao bolsonarismo.
O Sudeste é o grande campo de batalha. É o terreno em que os dois polos se enxergam de perto, e no qual cada deslocamento de poucos pontos pode alterar a equação nacional. Flávio aparece com 35%, Lula com 32%, e essa região, por sua dimensão eleitoral e centralidade econômica, pode funcionar como o grande pêndulo de 2026.
Quem conseguir construir vantagem consistente no Sudeste poderá mudar toda a matemática da eleição.
Homens e mulheres
Entre as mulheres, Lula alcança 39% e Flávio Bolsonaro fica com 28%. Entre os homens, Lula também aparece com 39%, mas Flávio sobe para 34%.
A diferença é eloquente porque a vantagem de Lula entre as mulheres é uma das colunas que sustentam sua liderança nacional. Entre os homens, a disputa se estreita consideravelmente.
Esse é um dos pontos sensíveis para Flávio Bolsonaro. O bolsonarismo historicamente encontrou mais dificuldades em determinados segmentos femininos, e a questão não é apenas ideológica. Ela envolve linguagem, valores, percepção sobre comportamento político, autoridade, violência simbólica e estilos de liderança.
Se Flávio conseguir diminuir essa distância entre as mulheres, poderá alterar de maneira importante o equilíbrio nacional. Se Lula conseguir ampliá-la, poderá transformar esse eleitorado em um verdadeiro cinturão de proteção.
A idade revela uma surpresa importante: os jovens
Entre os eleitores de 16 a 34 anos, Lula aparece com 34% e Flávio Bolsonaro registra 31%. Mas há um terceiro número que merece atenção especial: Renan Santos chega a 10%.
É uma pequena rachadura na parede da polarização.
Nos grupos mais jovens, a identidade política parece menos cristalizada. Lula e bolsonarismo ainda são fortes, mas não ocupam todo o horizonte. Renan encontra nesse segmento um espaço que não aparece com a mesma intensidade entre os mais velhos.
Entre os eleitores de 35 a 59 anos, Lula chega a 40%, contra 32% de Flávio. Entre aqueles com 60 anos ou mais, Lula marca 43%, enquanto Flávio aparece com 30%.
A tendência é clara. Quanto maior a idade, maior a vantagem de Lula. Quanto mais jovem o eleitorado, mais aberta a competição.
Isso transforma a juventude em território de experimentação política, onde novas linguagens, novas lideranças e novas identidades podem encontrar oxigênio.
Escolaridade: a velha clivagem perdeu parte de sua simplicidade
Entre os eleitores com ensino fundamental, Lula tem 48% e Flávio Bolsonaro aparece com 25%. A vantagem de Lula é muito grande. No ensino médio, porém, Flávio registra 35% e Lula 33%. No ensino superior, os dois aparecem com 32%.
O Brasil educacionalmente dividido também se expressa eleitoralmente. Lula possui enorme força entre aqueles com menor escolaridade, enquanto Flávio se torna muito competitivo à medida que a escolarização aumenta.
Isso não significa que escolaridade determine mecanicamente o voto. Nenhuma variável social age sozinha. Renda, território, religião, raça, geração e identidade política se misturam como fios de um mesmo tecido.
Ainda assim, a tendência existe. Quanto maior a escolaridade, menor a vantagem de Lula.
Esse deslocamento também abre espaço para candidatos menores. Ronaldo Caiado chega a 7% entre os eleitores com ensino superior. Renan Santos alcança 6%. São números pequenos no quadro nacional, mas politicamente relevantes porque indicam nichos de crescimento e capacidade de penetração em segmentos específicos.
Renda: talvez a clivagem mais impressionante
A renda desenha uma das divisões mais nítidas de toda a pesquisa. Entre famílias que recebem até dois salários mínimos, Lula alcança 52%. Flávio Bolsonaro fica com 23%. São 29 pontos de diferença, uma distância que se aproxima de um abismo eleitoral.
Na faixa entre mais de dois e cinco salários mínimos, Lula aparece com 34% e Flávio com 33%. A diferença praticamente desaparece.
Entre aqueles com renda superior a cinco salários mínimos, Flávio assume a dianteira, com 36%, contra 31% de Lula. A estrutura de classes entra na cabine de votação.
Lula é claramente mais forte na base da pirâmide social. Flávio cresce no meio e no topo.
Essa clivagem ajuda a explicar outras, porque conversa com escolaridade, região, cor, religião e percepção econômica. O voto é um gesto político, mas carrega no bolso a experiência cotidiana.
Quem vive com renda curta percebe o Estado de uma maneira. Quem vive com maior margem econômica o percebe de outra. A urna também registra essas diferenças.
Religião: um dos maiores abismos da eleição
Entre católicos, Lula registra 47% e Flávio Bolsonaro tem 27%.
Entre evangélicos, o mapa se vira. Flávio alcança 43% e Lula cai para 24%.
São dezenove pontos de vantagem para Flávio entre evangélicos e vinte pontos de vantagem para Lula entre católicos.
Poucos números mostram de forma tão clara a força da religião como variável de pertencimento político. O voto não é uma oração, mas fé, identidade moral, redes comunitárias, linguagem e visão de mundo se atravessam e produzem efeitos eleitorais.
Para Lula, o eleitorado evangélico é um desafio estratégico gigantesco. Para Flávio Bolsonaro, é uma reserva eleitoral indispensável.
Nenhum dos dois pode tratar esse campo como acessório. Não se trata apenas de falar com igrejas, mas de compreender códigos, medos, valores, expectativas e formas de sociabilidade que organizam parte importante da vida social brasileira.
Raça e cor: outro divisor estrutural
Entre eleitores brancos, Lula aparece com 34% e Flávio Bolsonaro com 35%. Há equilíbrio.
Entre pardos, Lula sobe para 41% e Flávio marca 29%. Entre pretos, Lula chega a 50% e Flávio fica em 24%.
O corte racial é evidente. O lulismo cresce fortemente entre pretos e pardos, enquanto Flávio é mais competitivo entre brancos.
Seria um erro, porém, tratar raça como variável isolada. Raça se encontra com renda, escolaridade, território, ocupação, religião e desigualdade. A eleição não é feita de compartimentos sociológicos separados. Ela é construída nas interseções, e é justamente nelas que os números deixam de ser números e passam a contar histórias sociais.
A decisão do voto: Lula tem vantagem qualitativa
No conjunto dos eleitores que já escolheram um candidato, 69% dizem que sua decisão é definitiva. Outros 30% afirmam que ainda podem mudar. Em março, apenas 56% diziam ter uma escolha definitiva. A campanha está endurecendo e o voto vai criando raízes.
Entre os eleitores de Lula, 77% afirmam que não pretendem mudar. Entre os de Flávio Bolsonaro, são 70%. Caiado tem 55%, Renan Santos 57% e Romeu Zema apenas 23%.
Lula possui, portanto, não apenas mais votos, mas votos um pouco mais cristalizados. Esse é um ativo importante, porém está longe de funcionar como muralha intransponível, porque 70% de voto definitivo entre os eleitores de Flávio também revela alto grau de fidelização. Os dois principais candidatos já possuem bases que começam a endurecer como concreto.
Segundo turno: aqui começa a verdadeira dor de cabeça de Lula
É no segundo turno que a pesquisa muda de temperatura. Lula aparece com 43%. Flávio Bolsonaro chega a 40%. Brancos, nulos ou eleitores que dizem que não irão votar somam 13%. Indecisos ficam em 4%.
A diferença é de apenas três pontos e está dentro da margem de erro. A Quaest classifica os dois em empate técnico.
É aqui que o Palácio do Planalto precisa ouvir o alarme, não porque Lula esteja perdendo, mas porque já não controla a distância.
Em junho, Lula aparecia com 44% e Flávio com 38%. Depois, Lula chegou a 45%, voltou a 44% e agora está em 43%. Flávio tinha 38%, caiu para 37%, subiu para 39% e agora chega a 40%. A diferença diminuiu.
Pesquisa não é profecia, tendência não é destino e oscilação não é necessariamente movimento estrutural. Ainda assim, campanha eleitoral é também interpretação de direção, velocidade e percepção de movimento.
E o movimento, neste momento, produz sensações distintas nos dois campos. Lula olha para trás e vê o adversário mais perto. Flávio olha para frente e vê o incumbente ao alcance. É dessa imagem que nasce a preocupação de um lado e a euforia do outro.
O segundo turno revela os territórios decisivos
No Nordeste, Lula chega a 61% e Flávio Bolsonaro tem 26%. No Sudeste, Flávio aparece com 44% e Lula registra 36%. No Sul, Flávio alcança 54% e Lula fica com 27%.
No agregado Centro-Oeste/Norte, surge praticamente um espelho: Lula 42%, Flávio 41%.
O Brasil eleitoral parece um tabuleiro de forças regionais. Lula precisa proteger o Nordeste como quem protege a própria casa, enquanto Flávio precisa reduzir ali sua desvantagem. Lula necessita diminuir o prejuízo no Sul, enquanto Flávio precisa ampliar sua vantagem.
O Sudeste será o grande campo de batalha, e Centro-Oeste e Norte podem funcionar como territórios de compensação. Não existe estratégia nacional que possa ignorar essa geografia. A eleição será nacional na urna, mas regional na construção do voto.
Classe social no segundo turno: dois eleitorados quase opostos
Entre os eleitores com renda de até dois salários mínimos, Lula chega a 58% e Flávio Bolsonaro tem apenas 27%. Na faixa intermediária, Flávio marca 43% e Lula 38%.
Entre os que recebem mais de cinco salários mínimos, Flávio chega a 48% e Lula fica com 34%.
O desenho é quase didático. Lula domina a base da pirâmide, enquanto Flávio cresce no topo.
Estamos diante de uma eleição que possui uma dimensão distributiva muito clara.
O voto popular de Lula encontra fundamento em décadas de identificação com políticas de proteção social, salário, renda, emprego e transferência. O voto de Flávio cresce nos segmentos que olham para o Estado sob outra lente, muitas vezes marcada por tributação, segurança, mercado, empreendedorismo, valores culturais e resistência ao petismo.
São dois universos que habitam o mesmo país, mas experimentam esse país de maneiras diferentes.
Educação no segundo turno
Entre aqueles com ensino fundamental, Lula alcança 52% e Flávio Bolsonaro tem 31%.
No ensino médio, Flávio aparece com 45% e Lula fica com 36%. No ensino superior, Flávio chega a 47% e Lula marca 36%.
Outra vez aparece um corte importante. Lula mantém enorme força nos segmentos de menor escolaridade, enquanto Flávio avança entre eleitores de formação média e superior.
Nenhuma dessas categorias é homogênea, mas elas revelam tendências sociais consistentes. A urna nunca é apenas uma caixa de votos. Ela é também uma caixa de trajetórias.
Católicos e evangélicos tornam-se quase dois sistemas eleitorais diferentes
No segundo turno, Lula registra 50% entre católicos e Flávio Bolsonaro tem 36%.
Entre evangélicos, a relação se inverte de maneira brutal. Flávio chega a 53% e Lula fica com 28%.
São 25 pontos de diferença.
Esse talvez seja um dos maiores ativos eleitorais de Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, um dos maiores problemas de Lula. A disputa religiosa não será detalhe da campanha. Será uma de suas grandes avenidas. Quem compreender melhor esse universo poderá conquistar alguns dos votos mais decisivos da eleição.
A dimensão racial permanece
Entre brancos, Flávio Bolsonaro aparece com 45% e Lula tem 38%. Entre pardos, Lula registra 44% e Flávio 37%. Entre pretos, Lula chega a 52% e Flávio fica com 30%.
O desenho social permanece coerente. Flávio é mais forte entre brancos, enquanto Lula domina entre pretos e mantém vantagem entre pardos.
Isso reforça a percepção de que os dois candidatos estão sustentados por coalizões sociais distintas. Não são apenas dois nomes. São duas arquiteturas eleitorais, duas formas de pertencimento político e dois imaginários de país.
Rejeição: o teto dos dois candidatos
Lula possui potencial de voto de 45% e rejeição de 52%. Flávio Bolsonaro tem potencial de 41% e rejeição de 54%. Esse é um dos paradoxos centrais da eleição. Os dois são fortes e os dois são rejeitados. Os dois mobilizam e os dois assustam.
O segundo turno poderá ser decidido não apenas pelo amor político, mas pelo medo político. Não apenas pelo desejo de vitória do próprio candidato, mas pela vontade de impedir a vitória do outro.
A polarização negativa pode ser tão poderosa quanto a identificação positiva. Em eleições assim, o voto muitas vezes se transforma em trincheira, porque se vota também para barrar.
A vantagem simbólica de Flávio Bolsonaro
É preciso ser rigoroso. Flávio Bolsonaro não possui vantagem estatística sobre Lula nesta pesquisa. Lula lidera o primeiro turno e aparece numericamente à frente no segundo.
Mas Flávio conquistou algo importante: uma vantagem simbólica típica do desafiante. Lula é presidente da República, já presidiu o país em outros dois mandatos, é uma das figuras mais conhecidas da história política brasileira, possui estrutura partidária nacional e é referência histórica da esquerda. Flávio nunca disputou uma eleição presidencial.
Por isso, quando chega a 31% no primeiro turno e 40% numa simulação de segundo turno contra Lula, muda de categoria política. Deixa de ser apenas herdeiro e passa a ser possibilidade.
Esse é o ponto.
Lula precisa vencer para confirmar sua posição. Flávio precisa demonstrar que pode vencer. A pesquisa lhe entrega justamente essa demonstração.
Essa é sua vantagem simbólica. Ele aparece como quem sobe a montanha, enquanto Lula aparece como quem precisa impedir a aproximação. Em política, movimento percebido também produz realidade.
Renan Santos: 4% que valem mais do que parecem
Renan Santos possui 4% nacionalmente. É pouco para disputar o segundo turno, mas é muito para ser ignorado. Entre jovens de 16 a 34 anos, chega a 10%. Além disso, 65% dos eleitores ainda dizem não conhecê-lo. Seu potencial de voto é de 14% e sua rejeição é de apenas 21%.
Esse conjunto faz de Renan uma candidatura com espaço potencial de crescimento. Seu desafio é simples de formular e difícil de executar: transformar desconhecimento em conhecimento sem transformar conhecimento em rejeição. No segundo turno contra Lula, Renan chega a 36%, enquanto Lula tem 44%.
Isso mostra que Renan, embora ainda pequeno no primeiro turno, possui capacidade de aglutinar uma parcela relevante do voto oposicionista quando colocado diretamente contra o presidente. Seu papel pode ser estratégico, especialmente entre jovens e entre eleitores menos comprometidos com a polarização tradicional.
Ronaldo Caiado: outros 4% com peso político elevado
Ronaldo Caiado também registra 4%, mas ocupa um lugar político diferente.
Ele possui maior experiência executiva, identidade conservadora conhecida e inserção mais direta entre lideranças regionais e setores tradicionais da política.
Seu potencial de voto é de 22%, sua rejeição chega a 35% e 43% dos eleitores ainda não o conhecem. Num segundo turno contra Lula, Caiado alcança 37%, enquanto Lula registra 44%.
Caiado não aparece, neste momento, como candidato próximo de romper a polarização, mas seus 4% podem valer muito no segundo turno. Numa eleição decidida por poucos pontos, pequenos rios podem mudar o curso de um rio maior.
Romeu Zema: conhecido demais para crescer pouco, desconhecido demais para ser descartado
Romeu Zema aparece com 2%, possui potencial de voto de 19% e rejeição de 34%. Quarenta e sete por cento ainda não o conhecem.
Num segundo turno contra Lula, Zema registra 34%, enquanto Lula aparece com 45%. Sua candidatura permanece comprimida.
Tem espaço social, identidade política e algum potencial de reconhecimento, mas ainda não conseguiu transformar esses ativos em intenção nacional de voto. É uma candidatura que existe, mas ainda não ganhou velocidade.
Augusto Cury e os demais
Augusto Cury aparece com 2%. Samara Martins tem 1%. Os demais candidatos não alcançam pontuação significativa. Nesse estágio, essas candidaturas funcionam sobretudo como instrumentos de representação partidária, ideológica, programática ou temática.
Mas nenhuma eleição apertada permite desprezar completamente votos pequenos. Às vezes, a história política é decidida nas margens, e um por cento parece pouco apenas até o dia em que a diferença entre os dois primeiros colocados é menor do que isso.
O paradoxo Lula: favorito percebido, mas vulnerável eleitoralmente
Quando a Quaest pergunta quem o eleitor acredita que vencerá a eleição, independentemente de sua própria escolha, Lula aparece com 56%, enquanto Flávio Bolsonaro registra 27%.
A diferença é enorme.
A sociedade ainda olha para Lula como favorito. Isso produz poder simbólico, porque a percepção de vitória ajuda a atrair aliados, lideranças, estruturas partidárias, governadores, prefeitos, parlamentares e setores econômicos que preferem estar próximos de quem parece ter mais chances de vencer.
Mas existe um paradoxo. Lula é visto como favorito por 56% e, ao mesmo tempo, numa simulação direta contra Flávio, aparece apenas três pontos à frente.
O imaginário da vitória é muito maior do que a vantagem concreta. Lula possui uma aura de favoritismo que os números do segundo turno não confirmam com a mesma intensidade. A aura é grande. A margem é pequena.
Governo Lula: o problema estrutural do incumbente
A aprovação do governo está em 46% e a desaprovação chega a 48%. A diferença está dentro da margem de erro, mas para um presidente que busca novo mandato não é uma situação confortável.
Na avaliação qualitativa, 36% consideram o governo positivo, 37% o avaliam negativamente e 25% dizem regular. Há equilíbrio, mas existe algo ainda mais preocupante.
Cinquenta e três por cento dos brasileiros acreditam que o país está caminhando na direção errada. Apenas 38% dizem direção certa.
A economia parece funcionar como uma pedra amarrada ao tornozelo da candidatura governista. Quarenta e nove por cento afirmam que a economia piorou nos últimos doze meses, enquanto apenas 19% dizem que melhorou.
No preço dos alimentos, 68% dizem que houve aumento e somente 8% perceberam queda.
Esse talvez seja o ponto mais delicado da campanha de Lula.
Eleições não acontecem apenas nos programas de televisão, nos palanques ou nas redes sociais. Acontecem no supermercado, na conta de luz, na farmácia, na feira, no aluguel, no cartão de crédito e na sensação de que o dinheiro termina antes do mês. A economia abstrata pode crescer, mas eleição é decidida pela economia sentida. E essa economia sentida aparece ferida na pesquisa.
O segundo turno tende a ocorrer, mas não se pode tratar hipótese como certeza matemática
A soma de Lula e Flávio no primeiro turno chega a 69%, enquanto os demais candidatos aparecem muito atrás. Lula está distante de alcançar sozinho a maioria dos votos válidos necessária para encerrar a disputa no primeiro turno. Tudo indica, portanto, uma eleição em dois tempos.
Mas pesquisa não permite usar a palavra certeza como se fosse teorema. O segundo turno é altamente provável, politicamente esperado e estatisticamente coerente com o quadro atual, mas a pesquisa não pode garantir matematicamente o futuro.
O que ela mostra é uma estrutura de disputa que empurra fortemente a eleição para uma decisão final entre os dois principais polos.
O verdadeiro significado dos 4% de Renan e Caiado
Quatro por cento podem parecer poeira eleitoral, mas não são.
Se Lula e Flávio chegarem ao segundo turno separados por três, dois ou um ponto, os eleitores de Renan Santos, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury e dos demais candidatos podem se transformar em fiéis da balança.
Esse é o princípio da relevância marginal. Um candidato não precisa ser grande para ser decisivo. Precisa estar no lugar certo quando a diferença é pequena. Renan e Caiado, ambos com 4%, são hoje destaques táticos justamente por isso.
Renan possui penetração maior entre jovens. Caiado tem identidade conservadora consolidada e força política institucional. Os dois poderão ser intensamente cortejados.
Seus votos não pertencem automaticamente a ninguém. Serão disputados, convencidos e mobilizados. No segundo turno, quatro pontos podem carregar o peso de uma Presidência.
A campanha Lula precisa olhar menos para os 38% e mais para os 43%
Essa talvez seja a principal mensagem estratégica da pesquisa. Os 38% do primeiro turno são bons. Os 43% do segundo turno são preocupantes. O primeiro número diz que Lula lidera. O segundo diz que Lula pode perder. Essa diferença é decisiva.
Presidentes em campanha de reeleição não precisam apenas chegar ao segundo turno. Precisam construir maioria. E a Quaest mostra Lula muito distante de uma margem confortável.
Sua equipe não deveria dormir abraçada aos 38%. Deveria acordar olhando para os 43%, porque a Presidência será decidida ali.
Flávio Bolsonaro tem motivos para comemorar, mas também possui limites claros
Flávio Bolsonaro tem razões concretas para celebrar. Chegou a 31% no primeiro turno, atingiu 40% contra Lula no segundo, é muito forte entre evangélicos, competitivo nas faixas de renda mais altas, apresenta grande desempenho no Sul, tem força no Sudeste, avança entre homens e é competitivo entre eleitores de maior escolaridade.
Mas há paredes no caminho. Sua rejeição é de 54%. Perde pesadamente no Nordeste, perde entre os mais pobres, perde entre pretos, tem dificuldade maior entre mulheres e apenas 27% acreditam que vencerá a eleição, diante dos 56% que apostam em Lula.
Flávio é competitivo, mas não é favorito. Tem caminho, mas o caminho é estreito. Tem vento, mas ainda não tem porto.
A estrutura profunda da eleição
Talvez o maior mérito sociológico da pesquisa seja revelar que a eleição de 2026 não é apenas uma disputa entre duas pessoas. É uma disputa entre duas grandes coalizões sociais.
De um lado, Lula, mais forte entre pobres, nordestinos, pretos, pardos, católicos, eleitores de menor escolaridade e parcelas mais velhas da população.
De outro, Flávio Bolsonaro, mais forte entre evangélicos, brancos, homens, eleitores de renda mais alta, escolaridade média e superior e regiões Sul e Sudeste.
Entre esses dois blocos existe um território móvel, formado por jovens, independentes, eleitores pouco interessados, segmentos de renda média e eleitores de candidatos menores. É nesse espaço que mora a incerteza. É ali que a eleição respira.
Por isso a expressão empate estrutural faz sentido. Não porque Lula e Flávio estejam empatados no primeiro turno, pois não estão, mas porque os dois comandam campos sociais suficientemente grandes e consolidados para transformar o segundo turno numa disputa quase milimétrica.
Conclusão: eleição aberta, acirrada e potencialmente dramática
A Quaest de 14 de agosto não proclama vencedor. Ela anuncia combate. Lula lidera, mas não domina. Flávio Bolsonaro está atrás, mas não está longe. No primeiro turno, Lula tem 38% e Flávio 31%. No segundo, Lula marca 43% e Flávio chega a 40%. Empate técnico.
Para a campanha de Lula, isso precisa causar preocupação, cálculo e revisão de estratégia. Exige atenção redobrada à economia, aproximação com mulheres, reconstrução de pontes com evangélicos, disputa mais intensa no Sudeste, proteção da vantagem entre os pobres, mobilização do Nordeste e ampliação entre os jovens.
Para Flávio Bolsonaro, a pesquisa autoriza entusiasmo, porque ele não está vencendo, mas está perto o suficiente para acreditar. E, em política, acreditar que se pode vencer é parte do caminho para tentar vencer. Sua maior conquista nesta pesquisa não é numérica. É simbólica. Flávio entrou no território da plausibilidade presidencial.
Renan Santos e Ronaldo Caiado, ambos com 4%, permanecem distantes do segundo turno, mas podem tornar-se personagens táticos importantes na reta final, especialmente se seus eleitores forem necessários para definir uma disputa decidida por poucos pontos.
O Brasil que emerge desta pesquisa não é um país unido em torno de um único projeto. É um país repartido em experiências sociais distintas, um país que vota de acordo com o território onde vive, o salário que recebe, a igreja que frequenta, a cor da própria pele, a idade que carrega, o diploma que possui, a memória política que guarda e o medo que escolhe.
É uma sociedade olhando para dois futuros possíveis e ainda incapaz de decidir qual deles deseja habitar.
Lula permanece na dianteira, mas Flávio Bolsonaro já aparece no retrovisor. Entre um e outro há milhões de brasileiros ainda escolhendo, ainda duvidando, ainda sentindo o preço dos alimentos, ainda julgando o governo, ainda medindo seus medos, ainda construindo seus afetos políticos e ainda procurando uma resposta.
A eleição presidencial de 2026 está aberta, acirrada, socialmente partida e estatisticamente perigosa. Se a fotografia de agosto permanecer como tendência, outubro não será uma caminhada serena, mas uma travessia estreita, turbulenta e imprevisível entre dois grandes campos políticos que já aprenderam que, nesta eleição, poucos pontos percentuais podem separar o poder da derrota.
Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ







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