Toda sociedade muda duas vezes. Primeiro na vida cotidiana das pessoas. Depois nas estatísticas. O Censo Demográfico de 2022 do IBGE não produziu um novo Brasil. Apenas tornou visível um país que já existia, mas que permanecia parcialmente invisível para muitas das categorias utilizadas para interpretá-lo.
As planilhas alcançaram aquilo que as ruas, as periferias, os pequenos municípios, as famílias, os templos e as redes digitais anunciavam silenciosamente havia décadas. O Brasil havia mudado de voz. Talvez essa seja a maior transformação social ocorrida desde a redemocratização. Não apenas porque o campo religioso sofreu alterações significativas, mas porque a própria arquitetura moral, cultural e política da sociedade brasileira passou por um processo de reorganização cujos efeitos ainda estão longe de serem plenamente compreendidos.
Durante boa parte do século XX, o Brasil foi explicado a partir de algumas centralidades relativamente estáveis. A universidade, os grandes veículos de comunicação, os partidos políticos, as instituições culturais e determinados grupos intelectuais exerciam uma autoridade quase exclusiva na produção das interpretações legítimas sobre a sociedade. Havia divergências, naturalmente, mas existia uma espécie de consenso implícito acerca de quem possuía legitimidade para dizer o que era o Brasil.
Essa estrutura começou a se desfazer lentamente e acelerou sua transformação com a expansão das tecnologias digitais. A sociedade conectada não apenas ampliou a circulação das informações. Ela democratizou a produção dos sentidos sociais. Milhões de brasileiros passaram a interpretar sua própria experiência sem depender da autorização das antigas mediações culturais.
Igrejas, coletivos comunitários, redes digitais, influenciadores, associações locais e inúmeras formas de organização da sociedade civil passaram a disputar a construção das narrativas sobre família, trabalho, cidadania, sofrimento, prosperidade, política e futuro. O Brasil deixou de falar no singular para existir no plural.
É nesse contexto que deve ser compreendido o crescimento dos evangélicos. Não como um fenômeno isolado da religião, nem como uma simples alteração demográfica, mas como um dos indicadores mais eloquentes da emergência de uma nova sociedade brasileira. O crescimento evangélico não explica sozinho essa transformação. Ele é um de seus sinais mais visíveis.
A secularização brasileira não produziu o desaparecimento da religião, como algumas interpretações chegaram a imaginar. Produziu, ao contrário, uma profunda descentralização da autoridade moral e uma democratização do próprio campo religioso. A pluralidade religiosa tornou-se parte constitutiva da pluralidade social.
Persistir na tentativa de interpretar esse novo Brasil utilizando categorias produzidas para uma sociedade que já não existe significa correr o risco de estudar uma memória em vez da realidade. Talvez esse seja um dos maiores desafios colocados hoje à sociologia brasileira. Não se trata de abandonar os grandes referenciais de interpretação da sociedade, mas de reconhecer que toda teoria social precisa dialogar permanentemente com as transformações históricas. Quando a realidade muda, também precisam mudar as perguntas dirigidas a ela.
É precisamente nesse ponto que se encontra uma das maiores contribuições intelectuais de Juliano Spyer. Seus livros Povo de Deus. Quem são os evangélicos e por que eles importam e O Brasil dos Evangélicos. O que o crescimento evangélico significa para a democracia brasileira representam muito mais do que excelentes estudos sobre religião. Constituem investigações empíricas de elevada qualidade sociológica, antropológica e política. São obras que recolocam o trabalho de campo no centro da produção do conhecimento e recordam uma lição frequentemente esquecida. Nenhuma interpretação consistente nasce do preconceito. Ela nasce da observação rigorosa da realidade.
Juliano Spyer percorre um caminho metodológico que merece ser destacado. Antes de formular explicações, procura compreender os sujeitos pesquisados. Antes de classificá-los, convive com eles. Antes de produzir conceitos, escuta histórias. Sua etnografia recupera uma tradição intelectual que compreende a pesquisa como exercício permanente de aproximação da vida concreta. Essa atitude confere aos seus livros uma qualidade rara. Eles conseguem interpretar um fenômeno nacional sem perder de vista a singularidade das experiências individuais.
Considero essas duas obras leituras obrigatórias para qualquer pesquisador, jornalista, cientista político, gestor público ou cidadão que pretenda compreender, com honestidade intelectual e precisão analítica, a sociedade brasileira das primeiras décadas do século XXI até o momento presente. Não porque ofereçam uma verdade definitiva, mas porque recusam aquilo que talvez tenha sido o maior erro cometido por parte da produção intelectual brasileira ao tratar do universo evangélico. A substituição da compreensão pela caricatura.
Durante muitos anos consolidou-se uma narrativa segundo a qual milhões de evangélicos seriam indivíduos incapazes de autonomia, manipulados por lideranças religiosas e destituídos de vontade própria. Curiosamente, essa interpretação negava exatamente aquilo que a sociologia procura reconhecer em qualquer sujeito social. Sua capacidade de produzir sentidos, construir identidades, elaborar valores, exercer escolhas e participar ativamente da vida coletiva. Transformar milhões de brasileiros em personagens sem consciência talvez tenha sido uma das formas mais sofisticadas de desumanização produzidas pelo debate público contemporâneo.
Quem explica o crescimento evangélico olhando apenas para os pastores frequentemente deixa de observar aquilo que realmente interessa à sociologia. Os fiéis. São eles que dão permanência às instituições, constroem vínculos comunitários, redefinem práticas familiares, organizam redes de solidariedade e produzem novas formas de pertencimento. A força social das igrejas não nasce apenas da palavra pronunciada no púlpito. Nasce sobretudo das relações que se constroem depois que o culto termina.
A observação da vida cotidiana revela aquilo que as estatísticas apenas confirmam posteriormente. Em milhares de bairros brasileiros, especialmente nas periferias metropolitanas, nas cidades médias e nos pequenos municípios, as igrejas evangélicas deixaram de ser apenas instituições religiosas. Tornaram-se lugares de encontro, de circulação de informações, de construção de confiança, de acolhimento, de reconhecimento recíproco e de reconstrução de vínculos sociais.
Em uma sociedade marcada por desigualdades persistentes, por relações de trabalho instáveis, pela fragmentação das antigas formas de convivência e pela solidão produzida pelas grandes cidades, essas comunidades passaram a oferecer aquilo que muitas instituições públicas e privadas já não conseguiam assegurar. Um espaço onde alguém conhece o nome do outro, acompanha sua trajetória, compartilha dificuldades e celebra conquistas.
Essa dimensão comunitária permite compreender por que o crescimento evangélico não pode ser reduzido ao êxito de estratégias de comunicação religiosa ou à influência de lideranças carismáticas. A explicação sociológica exige uma escala de observação muito mais ampla. As igrejas passaram a produzir capital social. Construíram redes de reciprocidade, estimularam relações de confiança, organizaram práticas de cooperação e fortaleceram formas cotidianas de solidariedade.
São características que aproximam muitas dessas experiências daquilo que Robert Putnam denominou comunidades cívicas ao estudar a experiência democrática italiana. Em sua análise, a qualidade da vida democrática depende não apenas das instituições formais do Estado, mas também da existência de relações sociais baseadas na confiança, na cooperação e na participação. É precisamente essa chave interpretativa que ajuda a compreender parte importante da presença evangélica na sociedade brasileira.
Naturalmente, não se trata de idealizar esse universo nem de ignorar seus conflitos, suas contradições ou seus problemas. Nenhuma instituição humana está imune às disputas de poder, aos interesses econômicos, aos personalismos ou aos desvios éticos. A sociologia não trabalha com idealizações. Trabalha com processos históricos.
E o processo histórico observado nas últimas décadas demonstra que inúmeras igrejas se transformaram em espaços relevantes de organização da sociedade civil. Muitas delas oferecem assistência social, orientação familiar, atividades culturais, apoio emocional, formação de lideranças comunitárias e redes de proteção que ultrapassam amplamente a dimensão litúrgica. Ignorar essa realidade significa abrir mão da própria observação empírica.
Esse movimento ajuda igualmente a compreender uma mudança silenciosa na distribuição da autoridade cultural brasileira. Durante muito tempo, as grandes interpretações sobre a sociedade eram produzidas quase exclusivamente por instituições tradicionais. Hoje, a produção dos sentidos tornou-se socialmente distribuída.
As igrejas são parte desse processo. Não porque substituam a universidade, a imprensa ou os partidos políticos, mas porque passaram a disputar legitimamente a construção das narrativas sobre a vida social. Elas oferecem interpretações sobre sofrimento, esperança, família, trabalho, consumo, cidadania, violência, educação dos filhos e projetos de futuro.
Concordar ou discordar dessas interpretações pertence ao terreno da política e do debate público. Negar sua existência ou sua relevância significa recusar-se a compreender uma transformação efetivamente ocorrida na sociedade brasileira.
Ao longo de décadas, o Instituto de Estudos da Religião, o ISER, desempenhou papel decisivo para que esse fenômeno pudesse ser estudado com rigor científico. Muito antes de o crescimento evangélico ocupar diariamente o debate público, o instituto já demonstrava que a religião precisava deixar de ser tratada como curiosidade sociológica para ocupar um lugar central nas interpretações sobre cidadania, desigualdade, violência, cultura, direitos e democracia.
O mérito histórico do ISER foi compreender que a experiência religiosa constitui uma dimensão da vida social e não apenas uma manifestação privada da consciência individual. Essa perspectiva contribuiu para formar pesquisadores e consolidar um campo de estudos que hoje se revela indispensável para interpretar o Brasil contemporâneo.
Nessa tradição de pesquisa insere-se também a contribuição de Carol Evangelista. Seu trabalho ajuda a desmontar um dos maiores equívocos produzidos pelo debate público recente. A crença de que os evangélicos constituem um grupo homogêneo.
Ao contrário, suas pesquisas evidenciam a extraordinária diversidade existente no interior desse universo. Existem diferenças geracionais, territoriais, culturais, econômicas, raciais e teológicas que tornam impossível qualquer interpretação uniforme. A palavra “evangélicos” designa um campo religioso plural, atravessado por distintas experiências sociais e por múltiplas formas de participação na vida pública. Essa constatação possui enorme importância metodológica porque impede que a análise sociológica substitua a realidade pela simplificação.
Talvez uma das maiores dificuldades enfrentadas por parte da intelectualidade brasileira tenha sido exatamente reconhecer essa pluralidade. Durante muito tempo, observou-se o fenômeno evangélico como quem observa um objeto externo, estranho e provisório. Poucos perceberam que se tratava da manifestação de mudanças muito mais amplas na estrutura da sociedade brasileira.
O crescimento evangélico não ocorreu porque milhões de brasileiros abandonaram subitamente a racionalidade. Ocorreu porque novas formas de pertencimento passaram a responder às transformações produzidas pela urbanização acelerada, pela mobilidade social, pela precarização de antigas redes de proteção, pela expansão das periferias urbanas e pela reorganização da vida cotidiana.
Nesse sentido, talvez seja mais correto afirmar que os evangélicos cresceram menos porque convenceram o Brasil e mais porque passaram a representar um Brasil que durante muito tempo permaneceu invisível para aqueles que acreditavam interpretar a sociedade a partir de um número limitado de experiências sociais.
O que se tornou visível não foi apenas uma mudança religiosa. Foi a emergência de novos sujeitos coletivos que passaram a disputar legitimamente reconhecimento, representação e autoridade cultural.
É precisamente por isso que os livros de Juliano Spyer possuem tamanho valor. Eles não oferecem apenas informações sobre os evangélicos. Oferecem uma chave de leitura para compreender uma sociedade que reorganizou seus pertencimentos, redistribuiu sua autoridade simbólica e passou a produzir novas linguagens para interpretar a si mesma. O verdadeiro objeto dessas obras não é apenas a religião. É o nascimento de um novo Brasil.
Se a sociedade brasileira mudou de voz, a democracia brasileira precisa aprender a escutá-la. Esse talvez seja um dos maiores desafios colocados diante das instituições, das universidades, da imprensa, da política e da própria sociologia. Nenhuma democracia se fortalece quando transforma diferenças em patologias sociais ou quando reduz milhões de cidadãos à condição de personagens incapazes de pensar por si mesmos.
O pluralismo não exige concordância. Exige reconhecimento. Exige a disposição de admitir que o outro possui legitimidade para existir na esfera pública, mesmo quando suas convicções diferem radicalmente das nossas.
Essa reflexão encontra uma elaboração particularmente fecunda em Diálogos em Tempos Difíceis, de Michel Gherman e Ronilso Pacheco. O livro oferece uma contribuição que ultrapassa o debate religioso e alcança um problema central da convivência democrática. Dialogar não significa apagar diferenças nem produzir consensos artificiais. Significa reconhecer que nenhuma sociedade plural permanecerá democrática se transformar seus conflitos em mecanismos permanentes de desumanização do outro.
O diálogo, nessa perspectiva, deixa de ser um gesto de cordialidade. Torna-se um princípio de organização da própria vida democrática.
Talvez seja justamente nesse ponto que o debate público brasileiro tenha produzido uma de suas maiores contradições. Ao mesmo tempo em que ampliou a defesa da diversidade em inúmeros campos da vida social, frequentemente manteve uma surpreendente dificuldade em reconhecer a diversidade existente no universo religioso, particularmente entre os evangélicos.
Em diversos ambientes tornou-se socialmente aceitável atribuir a milhões de brasileiros características que jamais seriam aceitas se dirigidas a qualquer outro grupo social. Generalizações, caricaturas, desqualificações intelectuais e suspeitas permanentes passaram a ocupar o lugar da investigação empírica.
Não se trata de negar que existam lideranças religiosas autoritárias, práticas incompatíveis com a ética democrática ou projetos políticos que mereçam crítica severa. Toda instituição humana produz virtudes e contradições. Toda organização social deve estar submetida ao escrutínio público.
O problema começa quando a crítica deixa de ser dirigida a comportamentos concretos e passa a recair sobre uma identidade coletiva inteira. É nesse momento que o pensamento crítico corre o risco de converter-se em preconceito.
Existe ainda uma dimensão menos visível dessa intolerância. Muitas vezes ela não é apenas religiosa. Ela também expressa preconceitos de classe, de território e de origem social.
Grande parte do crescimento evangélico ocorreu entre trabalhadores, moradores das periferias urbanas, pequenos empreendedores, mulheres responsáveis pela organização cotidiana das famílias, jovens que encontraram nas igrejas espaços de pertencimento e populações historicamente pouco representadas nas instituições tradicionais.
Em determinadas circunstâncias, a rejeição aos evangélicos revela também a dificuldade de reconhecer a legitimidade cultural desses brasileiros, de seus modos de falar, de cantar, de celebrar, de consumir cultura e de interpretar o mundo. A crítica dirigida à religião termina ocultando uma antiga resistência ao reconhecimento das classes populares como produtoras legítimas de valores, narrativas e referências culturais.
Esse talvez seja um dos aspectos mais originais da transformação brasileira. O país democratizou não apenas o acesso à informação. Democratizou também a produção dos sentidos sociais. As interpretações sobre o Brasil já não são elaboradas exclusivamente por antigas autoridades intelectuais.
Elas emergem igualmente das igrejas, das associações comunitárias, das redes digitais, dos movimentos culturais, das experiências locais e das múltiplas formas de organização da sociedade civil. O crescimento evangélico participa dessa redistribuição da autoridade cultural. Não porque detenha o monopólio da verdade, mas porque passou a disputar legitimamente a construção dos significados compartilhados da vida coletiva.
É precisamente por isso que defender a ampla liberdade religiosa significa defender um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito. A liberdade religiosa protege igualmente católicos, evangélicos, espíritas, adeptos das religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos, budistas, pessoas sem religião e todas as demais formas legítimas de consciência.
Nenhuma crença, assim como nenhuma ausência de crença, pode servir de fundamento para a exclusão simbólica ou para a diminuição da dignidade de qualquer cidadão. A democracia brasileira não será mais forte porque uma religião prevaleça sobre as outras. Será mais forte quando todas puderem existir em igualdade de direitos, respeito e proteção constitucional.
Nesse horizonte, o crescimento evangélico deixa de ser um problema a ser explicado exclusivamente pela religião. Ele passa a constituir uma das janelas mais privilegiadas para observar a metamorfose da própria sociedade brasileira.
Os livros de Juliano Spyer alcançam exatamente essa dimensão. Seu mérito não reside apenas na excelência da pesquisa empírica, na consistência da etnografia ou na qualidade de suas interpretações antropológicas e sociológicas. Seu mérito maior consiste em recordar que compreender é sempre um gesto intelectualmente mais exigente do que julgar. Ao observar o cotidiano das comunidades evangélicas, o autor ajuda a revelar um Brasil que permaneceu invisível para parte daqueles que acreditavam conhecê-lo.
O Censo Demográfico de 2022 apenas confirmou aquilo que a pesquisa de campo, os estudos do ISER, as investigações de Carol Evangelista e a reflexão produzida por Michel Gherman e Ronilso Pacheco já indicavam. A sociedade brasileira reorganizou seus pertencimentos, redistribuiu sua autoridade cultural, ampliou suas formas de participação cívica e tornou muito mais complexa sua vida coletiva. O Brasil do século XXI já não cabe nas categorias interpretativas produzidas para explicar o país do século XX.
A boa sociologia nunca teve a missão de preservar nostalgias intelectuais. Sua tarefa sempre foi compreender as sociedades enquanto elas mudam. Mesmo quando mudam de direção. Mesmo quando mudam de linguagem. Mesmo quando mudam os sujeitos que passam a ocupar o centro da vida pública. A coragem intelectual consiste exatamente em abandonar interpretações confortáveis para reconhecer a realidade tal como ela se apresenta.
Quem insiste em explicar o Brasil contemporâneo sem compreender a experiência social dos evangélicos corre o risco de interpretar um país que já não existe. O Brasil mudou antes de aparecer nas estatísticas. Mudou nas ruas, nas casas, nas periferias, nos pequenos municípios, nas redes digitais, nas comunidades religiosas e nos cotidianos onde a vida efetivamente acontece.
O Censo apenas registrou essa travessia histórica. Cabe agora à sociologia fazer aquilo que sempre constituiu sua maior vocação. Escutar antes de julgar, compreender antes de classificar e reconhecer que nenhuma sociedade permanece viva quando seus intérpretes se recusam a ouvir as novas vozes que ela própria fez nascer.
* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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