Hudson Carvalho*
As pesquisas sequestraram e contaminaram os processos eleitorais no Brasil. No jogo político-eleitoral, atualmente, nada mobiliza tanto como a coreografia dos números. Politizados, imprensa, redes sociais e oráculos empanturram-se sem comedimentos nem filtros. Mais de 2000 pesquisas já foram registradas na Justiça Eleitoral este ano. Fora as não protocoladas. Não há nação no mundo que cultive essa intemperança.
Criar institutos de pesquisa tornou-se um negócio atraente, sobretudo pelo ciclo bianual de sufrágios e pelo baixo nível de controle dos procedimentos e resultados. Para efeito de consumo público, não há distinção entre as empresas consolidadas e os bazares de duvidosos expertises e propósitos. E, dado o vezo dos brasileiros por pesquisas, os institutos sérios ou oportunistas comercializam influência, e não informação.
De modo geral, pelo seu poder de irradiação, a mídia é a principal depositária da catarse numérica e “sócia” dos trabalhos legítimos ou ardilosos dos institutos, pois, indiretamente, chancela os levantamentos. Poucos meios de comunicação se previnem em relação à idoneidade dos institutos. A maioria acolhe as aferições sem triagens nem questionamentos, por causa do feitiço que elas provocam na assistência.
Este ano surgiu uma excentricidade nociva na corrida presidencial, desde a pré-campanha. Sem antecedentes em pleitos anteriores, alguns institutos respeitados, com a conivência da imprensa, passaram a apresentar, absurdamente, os seus índices pelas supostas projeções de segundo turno, marginalizando e anulando totalmente a primeira etapa do processo eleitoral. É como se o primeiro turno não existisse. Nas análises televisivas, as especulações giram, há meses, em torno do hipotético segundo turno.
A aberração fundamenta-se na doentia polarização entranhada na sociedade brasileira, que ainda é verdadeira. No entanto, devida a capacidade de indução das pesquisas no eleitorado, priorizar essa abordagem, com a supressão dos estágios preliminares do primeiro turno, apenas reforça o antagonismo pré-estabelecido e castra as possibilidades de mobilidade, em antidemocrático prejuízo da jornada presidencial e do país. Em analogia caricata com o réveillon, é uma espécie de golpe do “já é segundo turno na Austrália”. E o substantivo golpe aqui não é um exagero retórico no contexto presente. Nem acaso, pois a viciosa prática não se replica nas disputas estaduais.
Mudanças de tendências e reviravoltas não faltam em transcursos eleitorais. Na primeira quinzena de setembro de 1989, Lula, que foi ao segundo turno à época, encontrava-se em quarto lugar, com 5,5% de intenção de votos, segundo o extinto Ibope. Em 2014, no período correspondente, Aécio Neves, que também chegou ao segundo turno, ocupava a terceira colocação, com 15%, tendo à frente Dilma Rousseff, com 39%, e Marina Silva, 31%. E teve o caso extremo da eleição do governador do Estado do Rio, Wilson Witzel, em 2018, que, um mês antes do primeiro turno, reunia parcos 3%, conforme o Datafolha.
Pode ser que não haja intuitos obscuros por trás dessa novidade anômala, e que tudo não passe de capricho de quem busca comprovar teses acadêmicas sobre a calcificação político-ideológica da gente tupiniquim. O fato, porém, é que ela contribuiu para esvaziar as dinâmicas do primeiro turno e sepultar as perspectivas de alternância. Mesmo em um país que cultiva e normaliza o teratismo, isso é grave.
Nesta eleição, o estrago já está feito. Resta acordarmos para as futuras. As pesquisas, como as bets, devem ser consumidas com muita moderação e proibidas em certas circunstâncias.
Hudson Carvalho é jornalista e consultor político







Deixe um comentário