Opinião

A coluna infame ainda está de pé

Reflexão sobre os espancamentos na UFRJ alerta para os riscos de substituir investigação, provas e debate pela punição e pela força

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 * Paulo Baía

Pablo Ortellado escreveu um texto necessário. “Os dois linchamentos de Diego Araújo”, publicado em O Globo, em 11 de setembro de 2026, rompe um silêncio que começava a se acomodar em torno dos espancamentos ocorridos na UFRJ. E o silêncio diante da violência nunca é vazio. Alguns silêncios nascem do medo. Outros, da conveniência. Há também os produzidos pela certeza inquietante de que determinada vítima, por alguma razão previamente estabelecida, não merece a mesma indignação que dedicaríamos a outras. É contra esse silêncio seletivo, espesso e moralmente confortável que Pablo Ortellado escreve.

Seu artigo é novidadeiro porque recusa o caminho fácil. Não trata apenas de uma briga universitária, de um conflito entre grupos políticos ou de mais um episódio da brutalidade cotidiana. Há ali matéria sociológica de primeira grandeza. O que está em jogo é o instante em que uma coletividade se considera autorizada a substituir investigação por convicção, prova por acusação, justiça por punição. Depois da violência, começa um segundo movimento, talvez ainda mais revelador: encontrar uma explicação moral que torne aceitável aquilo que jamais poderia ter acontecido.

Espancar é intolerável. Linchar é intolerável. Torturar é intolerável. Não existe ideologia capaz de purificar um soco. Não existe causa política que transforme pontapés em argumentos. Não existe maioria que adquira, pelo número ou pela intensidade de suas convicções, o direito de converter um ser humano em objeto de castigo. Isso é barbárie. Isso é crime grave. A primeira obrigação de qualquer democrata, antes mesmo de perguntar quem foi agredido, é condenar a agressão.

Pablo Ortellado compreende isso com admirável clareza e encontra em Alessandro Manzoni uma chave literária, histórica e moral para iluminar o presente. Vai à Milão de 1630, devastada pela peste, buscar Guglielmo Piazza e Gian Giacomo Mora, acusados de espalhar deliberadamente a doença. Foram torturados, condenados e mortos. Uma sociedade assustada precisava de culpados. As instituições lhe ofereceram culpados. Sobre a casa destruída de Mora ergueu-se uma coluna destinada a perpetuar sua infâmia.

O tempo, entretanto, guarda ironias magníficas. A coluna destinada a eternizar a vergonha dos condenados terminou eternizando a vergonha dos condenadores.

É nesse ponto que o artigo alcança sua maior beleza intelectual. Manzoni não aparece como decoração erudita. Aparece como método. Somos convidados a observar a anatomia social do linchamento. Antes dos golpes existe uma operação decisiva: alguém precisa ser retirado da comunidade dos homens comuns e transformado numa categoria moral. O indivíduo desaparece. Em seu lugar surge “o nazista”, “o fascista”, “o inimigo”. Uma vez consumada essa metamorfose, a violência começa a procurar seus álibis.

É um mecanismo antigo. Mudaram os meios, a velocidade e a escala.

Em 1630 havia rumores, peste, medo, juízes e uma multidão procurando responsáveis. Em 2026 existem redes sociais, vídeos fragmentados, mensagens instantâneas, comunidades políticas hiperidentificadas, reputações destruídas em horas e uma extraordinária velocidade para condenar. A velha praça do linchamento tornou-se também digital. A multidão já não precisa compartilhar a mesma rua. Pode distribuir sua sentença por milhares de telas, transformar suspeita em certeza coletiva e fazer da repetição uma aparência de verdade.

Mas o problema apresentado por Pablo Ortellado é ainda mais delicado porque o episódio aconteceu numa universidade pública.

Conheço a universidade pública por dentro. Conheço suas assembleias intermináveis, suas paixões generosas, suas disputas ásperas, suas vaidades, suas pequenas intolerâncias e, sobretudo, seus grandes gestos de liberdade. Passei boa parte da minha vida nesse ambiente e aprendi a amá-lo também por suas contradições. A universidade não é um mosteiro de consensos. É conflito, argumento, divergência, criação. É uma das instituições que a civilização democrática construiu para dar endereço à dúvida.

Ali, uma afirmação deve poder ser examinada, contestada, demonstrada e refutada. Ali, ninguém deveria possuir o privilégio da verdade porque pertence à maioria moral ou política de determinada circunstância. Quando a universidade substitui a dúvida pela certeza absoluta e o argumento pela força, começa a negar uma parcela de sua própria razão de existir.

Há ainda uma distinção jurídica e política indispensável. Num campus universitário brasileiro não existem autoridades políticas informais investidas do poder de prender, julgar e punir. A universidade não é território de exceção. Evidentemente permanecem as hipóteses legais de prisão em flagrante previstas para qualquer cidadão. Fora delas, ninguém pode transformar militância, representação estudantil, posição docente, liderança política ou maioria circunstancial em autoridade policial.

A autonomia universitária, consagrada pela Constituição brasileira de 5 de outubro de 1988, é uma conquista preciosa de nossa democracia. Uma Constituição que, aos trancos e barrancos, atravessando crises, ameaças, aventuras autoritárias e tentações permanentes de retrocesso, continua em vigor. Autonomia universitária não significa soberania de grupos sobre pessoas. Não cria pequenos Estados dentro do Estado. Não autoriza tribunais improvisados. Não concede a nenhuma corrente política o monopólio da verdade nem a prerrogativa da força.

A universidade pública é grande justamente porque pode abrigar o conflito sem precisar transformar o adversário em inimigo a ser eliminado.

Isso não significa tolerância com o nazismo. Muito pelo contrário. O nazismo deve ser combatido porque representa uma das experiências mais abjetas de destruição organizada da dignidade humana. Fascismo, racismo e todas as doutrinas de desumanização devem encontrar resistência democrática firme. Existe, porém, uma fronteira civilizatória que não pode ser atravessada. Combater a barbárie não autoriza ninguém a utilizar os métodos da barbárie.

É aí que encontro a generosidade intelectual do artigo de Pablo Ortellado. Ele poderia ter escrito um texto de facção. Preferiu escrever um texto de princípios.

Essa escolha importa muito.

Nossa vida pública está saturada de inteligências colocadas a serviço das respectivas torcidas. Tornou-se fácil reconhecer uma injustiça quando a vítima pertence ao nosso campo. O teste começa quando a vítima está no campo adversário, ou quando imaginamos que esteja. A democracia mora exatamente nessa dificuldade. Direitos não existem para premiar os nossos. Existem para impedir que façamos aos outros aquilo que jamais aceitaríamos que fizessem conosco.

Também o silêncio possui sociologia.

Uma comunidade se revela tanto pelas violências que condena quanto por aquelas diante das quais baixa os olhos. O silêncio distribui reconhecimento. Diz, sem pronunciar palavra, quais corpos merecem nossa indignação, quais vítimas merecem solidariedade imediata e quais ainda precisarão provar que merecem ser chamadas de vítimas. Por isso me inquieta o silêncio que começa a envolver o espancamento na UFRJ. Não quero uma universidade que escolha suas vítimas. Quero uma universidade incapaz de aceitar vítimas.

Esse talvez seja um dos aspectos mais incômodos do artigo. O linchamento não termina quando cessam os golpes. Existe o linchamento da reputação, da memória, da identidade social. Primeiro se atinge o corpo. Depois se constrói uma narrativa capaz de explicar por que aquele corpo pôde ser atingido. A violência física dura minutos. A violência simbólica pode durar anos. No mundo digital, pode adquirir uma espécie de eternidade perversa. A acusação permanece pesquisável, compartilhável, reproduzível. A correção chega depois, quase sempre mais fraca, quase sempre mais lenta, quase sempre mais silenciosa.

Quando surgem informações capazes de colocar em dúvida a narrativa original, uma sociedade democrática deveria recebê-las com interesse. Deveria querer saber. Deveria investigar. Deveria até desejar descobrir que estava errada, porque reconhecer um erro é uma das formas mais bonitas da inteligência coletiva. O sectarismo faz exatamente o contrário. Recebe a dúvida como ofensa e trata qualquer informação inconveniente como ameaça à identidade do grupo.

A questão deixa então de ser apenas Diego Araújo.

A questão passa a ser nós.

Que sociedade estamos construindo quando precisamos conhecer a identidade política de uma vítima antes de condenar seu espancamento? Em que momento começamos a distribuir humanidade segundo pertencimentos ideológicos? Quando foi que a frase “mas ele era…” começou a aparecer depois da notícia de uma agressão?

Depois do “mas” costuma começar a barbárie.

Por isso agradeço intelectualmente a Pablo Ortellado por seu artigo. Faço esse agradecimento como professor, sociólogo, cidadão e homem de universidade. A universidade pública atravessa minha vida. Justamente por isso não aceito a ideia de protegê-la pelo silêncio. Instituições que amamos não precisam de indulgência. Precisam de crítica. Precisam ser fortes o suficiente para olhar seus próprios erros, reconhecê-los e aprender com eles.

Pablo Ortellado presta um serviço à universidade quando a incomoda.

Não é necessário concordar com cada interpretação apresentada em seu artigo para reconhecer a importância de seu gesto intelectual. Um bom texto não pede obediência. Pede pensamento. E Pablo Ortellado nos devolve justamente aquilo que a paixão política frequentemente nos rouba: o direito à dúvida, a obrigação da prova e a coragem de olhar para a própria comunidade moral e perguntar se ela também é capaz de cometer injustiças.

É capaz.

Todos somos.

É para isso que existem instituições, leis, direitos, investigação, contraditório, universidade e democracia. Não para confirmar permanentemente nossa bondade, mas para estabelecer limites ao mal que podemos praticar justamente quando estamos absolutamente convencidos de nossa bondade.

Manzoni escreveu sobre uma coluna erguida para marcar a infâmia de dois homens. Séculos depois, sabemos que aquela pedra guardava outra memória. A infâmia não estava apenas nos nomes inscritos pela acusação. Estava na sociedade que torturou, matou e depois precisou construir um monumento para assegurar a si mesma que havia feito justiça.

Pablo Ortellado trouxe essa coluna para o nosso tempo.

Fez muito bem.

Eu diria mais. Fez um gesto intelectual necessário justamente quando o esquecimento começava a baixar sobre os acontecimentos como uma névoa conveniente. Há silêncios que pacificam. Há silêncios que protegem. E há silêncios que escondem debaixo do tapete da História aquilo que não tivemos coragem de enfrentar.

Espancamentos não podem ser escondidos.

Linchamentos não podem ser relativizados.

Torturas não podem receber adjetivos atenuantes.

A universidade pública brasileira é grande demais para precisar do silêncio. A Constituição de 1988 é preciosa demais para admitir atalhos violentos. A democracia é delicada demais para sobreviver à ideia de que existem violências aceitáveis quando praticadas pelos nossos. E nossa humanidade é frágil demais para permitir que escolhamos quem merece ou não a proteção da lei.

Talvez a pergunta mais urgente não seja saber de que lado estamos.

Talvez seja descobrir quem somos quando acreditamos estar do lado certo.

É nesse instante que a democracia é posta à prova.

E é justamente nesse instante que precisamos dizer, sem vírgulas morais, sem relativizações partidárias, sem desculpas ideológicas e sem medo de desagradar aos nossos: ninguém pode ser espancado, ninguém pode ser torturado, ninguém pode ser linchado.

A civilização começa nessa frase.

A barbárie começa na primeira exceção.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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