Opinião

O partido sem paredes: a política que aprendeu a morar nas telas

Há uma mudança de época acontecendo diante de nossos olhos, embora talvez ainda procuremos compreendê-la com um vocabulário construído para outro mundo. O partido político que conhecemos nasceu territorial. Precisava de endereço, diretório, reunião, militância organizada, jornal, comício, palanque, telefone, carro de som, bandeira na esquina. O Partido Digital Bolsonarista, organizado por Marcos Nobre e…

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Há uma mudança de época acontecendo diante de nossos olhos, embora talvez ainda procuremos compreendê-la com um vocabulário construído para outro mundo. O partido político que conhecemos nasceu territorial. Precisava de endereço, diretório, reunião, militância organizada, jornal, comício, palanque, telefone, carro de som, bandeira na esquina.

O Partido Digital Bolsonarista, organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira, propõe olhar para uma criatura política diferente. Um partido sem sede própria, sem ficha de filiação, sem diretório formal e sem burocracia partidária convencional, mas capaz de produzir pertencimento, disciplina, liderança, hierarquia, mobilização e poder.

Essa é, para mim, a grande força sociológica do livro. Os autores não se contentam em descrever a presença barulhenta do bolsonarismo nas redes sociais. Procuram descobrir a engenharia escondida atrás do ruído.

Onde muitos enxergaram apenas influenciadores, militantes exaltados, fake news, grupos de WhatsApp, vídeos e personagens competindo por audiência, a pesquisa identifica uma organização política. Não exatamente um partido segundo a legislação eleitoral, mas algo que realiza várias das funções históricas de um partido.

O conceito de Partido Digital Bolsonarista, PDB, nasce desse deslocamento do olhar. Bolsonaro é fundamental, mas o fenômeno já não cabe inteiramente dentro de Bolsonaro. O bolsonarismo produziu uma ecologia política capaz de organizar relações de poder que possuem alguma autonomia em relação ao próprio personagem que lhe deu nome.

Essa distinção é preciosa. Permite compreender por que o futuro dessa organização não depende necessariamente do futuro eleitoral ou pessoal de Jair Bolsonaro.

O livro mostra que esse partido possui hierarquias, mas elas não são desenhadas num organograma. São móveis. Pulsam. Mudam conforme as relações de força.

Seguidores importam, mas não bastam. Poder digital significa capacidade de pautar conversas, estabelecer enquadramentos, criar palavras de ordem, mobilizar comunidades, conquistar lealdades e fazer outros personagens repetirem uma determinada linguagem. A liderança precisa ser confirmada todos os dias.

É uma espécie de partido em estado permanente de eleição interna.

As disputas entre lideranças bolsonaristas tornam-se, nessa perspectiva, sociologicamente reveladoras. Aquilo que parece apenas briga pessoal pode representar uma disputa por posições dentro dessa hierarquia informal.

Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira e outros personagens não habitam simplesmente perfis digitais isolados. Ocupam lugares diferentes numa rede de reconhecimento, autoridade e lealdade.

Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira nos ajudam, assim, a perceber uma organização simultaneamente horizontal e vertical. Uma floresta sem jardineiro único, mas onde algumas árvores conseguem disputar o sol acima das demais.

Outro aspecto fascinante é a relação entre o Partido Digital Bolsonarista e os partidos oficiais. O PDB não precisa substituir o PL nem transformar-se formalmente numa legenda.

Pode utilizar estruturas partidárias existentes para disputar eleições, obter candidaturas, ocupar parlamentos e acessar recursos institucionais enquanto conserva sua musculatura digital. O partido convencional fornece o casco jurídico. O partido digital fornece nervos, circulação, linguagem e capacidade de mobilização.

Essa combinação talvez seja uma das grandes novidades políticas de nosso tempo.

O livro também permite compreender por que as ruas continuam importantes. Digital não significa desencarnado. As manifestações funcionam como momentos em que a hierarquia construída nas redes ganha corpo.

O palanque, o carro de som, a ordem dos discursos, os aplausos, as aproximações e os afastamentos transformam relações digitais em imagens públicas de poder. A rua confirma a rede. Depois, a rede devolve a rua às telas em vídeos, fotografias, cortes e narrativas. Forma-se um circuito contínuo.

Mas há uma transformação ainda maior em curso.

O smartphone tornou-se quase uma prótese social do indivíduo contemporâneo. Dorme ao lado da cama, desperta conosco, acompanha o café, entra no ônibus, chega ao trabalho, senta-se à mesa e volta para o travesseiro.

Nunca uma máquina de comunicação permaneceu durante tantas horas tão próxima do corpo humano.

O partido digital descobriu esse território.

Sua capilaridade não depende de abrir diretórios em cada município. Pode entrar em milhões de casas sem tocar campainhas. A política chega pela tela iluminada na palma da mão.

Os algoritmos são parte dessa nova anatomia do poder. Organizam visibilidades, recomendam conteúdos, repetem estímulos, aproximam semelhantes e disputam segundos de atenção.

A indignação, o medo, a identidade, o ressentimento, a esperança e o entusiasmo transformam-se também em combustíveis de circulação.

A inteligência artificial acrescenta potência a essa máquina. Textos, imagens, vídeos e vozes podem ser produzidos rapidamente, multiplicados e adaptados a públicos diferentes.

A velha propaganda falava para a multidão. A política algorítmica pode conversar com nichos. A massa transforma-se em milhões de endereços emocionais.

É nesse ponto que acrescento ao livro uma questão que venho pesquisando: as fazendas de celulares.

Não atribuo automaticamente seu uso a qualquer organização política. Isso exigiria evidências empíricas. Minha questão é sociológica e tecnológica.

Se já existem estruturas compostas por dezenas, centenas ou milhares de aparelhos capazes de executar operações coordenadas, administrar contas e multiplicar determinadas ações digitais, precisamos perguntar como essa tecnologia poderá se relacionar com as novas formas de organização política descritas pelo livro.

Estamos talvez diante de uma fábrica diferente daquela que fascinou os fundadores da sociologia. Não possui necessariamente chaminés. Possui telas.

Marx observou máquinas multiplicando mercadorias. Nós precisamos observar máquinas capazes de multiplicar presença, repetição, circulação, visibilidade e aparência de relevância.

No Brasil, o WhatsApp torna essa pergunta ainda mais importante. Ele mora dentro das relações de confiança. Está na família, na igreja, na escola, no condomínio, no trabalho, no futebol, nos amigos.

A mensagem política não precisa mais bater à porta. Ela pode chegar pelas mãos simbólicas de alguém conhecido.

Minha hipótese é que fazendas de celulares, automação, algoritmos e inteligência artificial poderão acrescentar uma nova camada ao partido digital. Precisamos pesquisar esse fenômeno sem paranoia e sem ingenuidade.

Precisamos saber quem opera essas estruturas, para quais finalidades e com quais efeitos sobre a construção artificial ou espontânea de popularidade, rejeição, consenso e mobilização.

É justamente por provocar perguntas dessa natureza que considero O Partido Digital Bolsonarista um livro importante. Seu mérito maior talvez seja obrigar a sociologia política a mudar o ângulo da câmera.

O objeto não é somente Bolsonaro. É a transformação da própria forma de organizar politicamente a sociedade.

O século XX conheceu o partido da fábrica, do sindicato, do diretório, do jornal, do comício, do rádio e da televisão. O século XXI está conhecendo o partido da plataforma, do influenciador, do algoritmo, da inteligência artificial e do smartphone.

Talvez estejamos assistindo ao nascimento de uma nova morfologia do poder.

O partido já não precisa apenas conquistar territórios.

Precisa conquistar atenção.

Já não precisa apenas ocupar ruas.

Precisa ocupar telas.

E quando a tela passa quase o dia inteiro junto ao corpo, a política encontra algo que nenhum velho diretório partidário jamais possuiu: a possibilidade de acompanhar silenciosamente cada indivíduo, do despertar ao sono.

O partido do futuro talvez não tenha uma porta pela qual possamos entrar.

Talvez já estejamos dentro dele.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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