Opinião

Augusto Cury e a eleição que ainda não aconteceu

O desempenho de Augusto Cury nas pesquisas abre uma incógnita na disputa presidencial e coloca em teste os limites da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro

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Há um instante raro nas eleições em que os números deixam de ser apenas números e começam a produzir perguntas. Não respostas, perguntas.

É quando alguma coisa se move fora do lugar previsto, quando um nome considerado lateral aparece onde não deveria aparecer, quando a geometria confortável dos favoritos recebe uma pequena rachadura.

Pode ser apenas espuma, uma dessas ondulações que a campanha produz e desfaz com a mesma velocidade. Pode ser o começo de alguma coisa. O fascinante é justamente não sabermos ainda.

Augusto Cury, com seus 11% na pesquisa BTG/Nexus, entrou nesse território impreciso onde a política se encontra com o inesperado.

Não conheço instrumento mais perigoso para analisar uma eleição do que a certeza.

A eleição presidencial brasileira de 2026 continua, a meu juízo, estruturada por uma bipolaridade muito difícil de romper: Lula e Flávio Bolsonaro. Não vejo, neste momento, evidências empíricas suficientes para afirmar que essa arquitetura tenha sido desmontada.

Vejo, entretanto, sinais que merecem atenção. E entre convicções pessoais e evidências, fico sempre com as evidências.

A sociologia que me interessa não é aquela que obriga a realidade a obedecer à teoria. É aquela que aceita o desconforto de descobrir que a sociedade resolveu fazer outra coisa.

Por isso, os 11% de Augusto Cury na BTG/Nexus precisam ser observados com curiosidade e cautela. São um indício. Um sinal. Talvez o começo de um trend. Ainda não uma tendência consolidada.

Não se compara mecanicamente uma pesquisa de um instituto com a pesquisa de outro instituto. Metodologias, amostras, questionários, modos de coleta e desenhos estatísticos são diferentes. A comparação metodologicamente mais segura é aquela realizada dentro das séries produzidas pelo mesmo instituto.

Agora teremos uma oportunidade extraordinária. Quaest e Datafolha estão para divulgar novas pesquisas.

Se Cury estiver realmente deixando de ser uma ocorrência circunstancial para se transformar em fenômeno eleitoral, alguma coisa dessa movimentação deverá aparecer também nesses levantamentos.

Pode aparecer com 11%, 9%, 7% ou qualquer outro número. Não é a coincidência decimal que importa. Importa verificar se institutos diferentes começam a captar, cada um segundo sua metodologia, o mesmo movimento social.

E Augusto Cury não caiu de Marte sobre a urna eletrônica.

Esse talvez seja o primeiro equívoco de quem recebeu sua candidatura como excentricidade. Augusto Cury é muito conhecido no Brasil. Muito. Antes de existir o candidato, existia havia décadas o escritor.

Médico, psiquiatra, conferencista, autor de dezenas de livros, tornou-se um extraordinário fenômeno editorial. Seus livros venderam dezenas de milhões de exemplares, chegaram a dezenas de países, ocuparam livrarias, aeroportos, escolas, consultórios, salas de professores, escritórios, igrejas, mesas de cabeceira.

O Vendedor de Sonhos, Ansiedade: Como Enfrentar o Mal do Século e tantos outros títulos fizeram circular seu nome por espaços sociais aos quais a literatura política raramente chega.

Há algo sociologicamente precioso nisso.

Cury entrou na casa das pessoas antes de entrar na política. Não pediu inicialmente que ninguém votasse nele. Pediu que o lessem.

Depois falou para auditórios, empresas, educadores, famílias. Tornou-se palestrante conhecido. Construiu uma linguagem baseada em ansiedade, inteligência emocional, sofrimento, sonhos, relações humanas, família, esperança e capacidade de recomeçar.

Quando finalmente resolveu pedir votos, milhões de brasileiros já sabiam quem ele era.

Isso muda tudo.

Sua campanha começa com um patrimônio que não aparece nos diretórios partidários. Cury possui capital simbólico, reconhecimento social e uma enorme audiência pré-eleitoral.

Nas redes sociais, essa condição ficou ainda mais evidente. Depois do debate presidencial da Band, ampliou fortemente sua base de seguidores. As buscas por seu nome dispararam.

Levantamento da Vox Radar apontou crescimento de 900% nas pesquisas pelo nome durante aquela semana. Seu Instagram ganhou uma quantidade extraordinária de seguidores e o engajamento também cresceu.

A televisão produziu curiosidade. A curiosidade correu para o Google. O Google conduziu parte dela às redes. As redes multiplicaram vídeos. Os vídeos chegaram a pessoas que não tinham acompanhado o debate. E, poucos dias depois, apareceu a pesquisa.

Não afirmo causalidade. Registro uma sequência.

Talvez esteja aí uma das histórias interessantes desta eleição.

Cury parece ter encontrado algo que estava espalhado pela sociedade sem representação eleitoral nítida: o cansaço.

Há brasileiros cansados não apenas de Lula ou de Bolsonaro, mas da obrigação de viver permanentemente entre Lula e Bolsonaro. Cansados de transformar almoço de família em assembleia ideológica, grupo de WhatsApp em trincheira, igreja em comitê, amizade em teste de fidelidade política.

Depois de tantos anos de cólera distribuída industrialmente pelas redes sociais, talvez exista mercado eleitoral para uma palavra antiga e quase ingênua: pacificação.

É exatamente essa palavra que pode criar dificuldades para Renan Santos e, principalmente, para Flávio Bolsonaro.

Cury e Renan procuram parcelas do eleitorado que rejeitam a polarização, mas oferecem sentimentos políticos muito diferentes.

Renan trabalha com a energia da ruptura e do enfrentamento. Cury fala a língua da conciliação e da gestão das emoções. Um tenta organizar a insatisfação pelo combate. O outro tenta organizá-la pela serenidade.

No campo de Flávio Bolsonaro existe uma questão ainda mais delicada. Cury começou a despertar curiosidade entre cristãos conservadores, inclusive evangélicos, católicos e espíritas.

Se isso adquirir escala, estaremos diante de uma novidade sociológica relevante. Não porque esses eleitores estejam necessariamente caminhando para a esquerda. Exatamente o contrário.

Eles podem continuar conservadores, rejeitando Lula, defendendo valores tradicionais e, simultaneamente, deixando de considerar o bolsonarismo como destino eleitoral obrigatório.

Essa possibilidade merece enorme atenção.

Cury fala de pacificadores. Fala de família. Fala de sofrimento humano.

Sua biografia pública, médico, escritor de sucesso, palestrante, casado há décadas, homem que aparentemente já conquistou riqueza e reconhecimento antes de entrar na política, permite que simpatizantes construam ao redor dele uma narrativa de missão.

Em ambientes cristãos, essa linguagem encontra códigos culturais conhecidos. E sua condição de psiquiatra ganha uma inesperada contemporaneidade numa sociedade angustiada, ansiosa e emocionalmente exausta.

Isso significa que Augusto Cury será presidente? Evidentemente, não.

Significa que chegará ao segundo turno? Também não.

Continuo considerando muito difícil romper a bipolaridade Lula versus Flávio Bolsonaro. Mas essa é minha percepção hoje, 1º de setembro. Não é uma profissão de fé.

Minhas percepções eleitorais estão sempre submetidas aos dados empíricos. Às pesquisas quantitativas. Às qualitativas. Aos movimentos das séries históricas. À composição social dos votos. À rejeição. À intensidade das preferências. Ao que dizem as ruas e ao que silenciam os entrevistados.

Aprendi a desconfiar das eleições brasileiras que parecem resolvidas antes da hora.

De 1989 a 2022, nossa história presidencial está cheia de novidades, surpresas, deslocamentos bruscos e contrafluxos de percepção.

A política brasileira adora humilhar previsões categóricas. Já vimos favoritos evaporarem, candidatos crescerem quando ninguém esperava, ondas sociais serem percebidas tarde demais, campanhas reorganizarem sentimentos que pareciam estabilizados.

O eleitor brasileiro tem uma curiosa indisciplina diante dos roteiros escritos para ele.

Em 4 de outubro de 2026, será novamente esse eleitor quem falará.

Até lá, Augusto Cury merece ser observado sem deslumbramento analítico, mas também sem arrogância.

Os 11% da Nexus são apenas uma pesquisa. Entretanto, uma pesquisa é também um fato político quando modifica o olhar dos partidos, dos candidatos, dos jornalistas, dos financiadores, dos influenciadores e dos próprios eleitores.

Esperemos a Quaest. Esperemos o Datafolha. Observemos as próximas Nexus.

Quero saber quem está chegando a Cury, quem está saindo dele, quantos permanecem, quantos apenas experimentam seu nome. Quero saber o que acontece entre mulheres, jovens, cristãos, conservadores, eleitores periféricos e aqueles que dizem não suportar mais a polarização.

Quero os números, mas quero também saber o que existe dentro deles.

Porque talvez não exista fenômeno Cury algum.

Talvez exista.

É precisamente essa dúvida que torna o momento interessante.

A eleição de 2026 ainda não aconteceu. Parece uma obviedade escrever isso, mas não é.

Em tempos de pesquisas instantâneas, algoritmos, torcidas digitais e comentaristas que anunciam o futuro todas as noites, lembrar que a eleição ainda não aconteceu tornou-se quase uma posição metodológica.

Augusto Cury escreveu durante décadas sobre a mente humana. Agora entrou num território muito mais indisciplinado do que qualquer teoria sobre ela: a cabeça do eleitor brasileiro.

E essa, felizmente, ninguém conseguiu ainda colocar inteiramente dentro de uma planilha.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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