“Marx diz que as revoluções são a locomotiva da história mundial. Mas talvez as coisas se passem de maneira inteiramente diferente. Talvez as revoluções sejam o gesto, executado pela humanidade que viaja nesse trem, de puxar o freio de emergência.” Walter Benjamin, notas preparatórias para “Sobre o conceito de história” , 1940.
Escrevo estas linhas quando inicio uma longa viagem pela China. Vou atravessar um país que realizou, em poucas décadas, uma das mais extraordinárias transformações materiais da história humana, percorrendo cidades gigantescas, viajando em trens que cortam o território a centenas de quilômetros por hora, observando fábricas automatizadas, redes digitais, inteligência artificial, novas infraestruturas e uma sociedade que avança aceleradamente na direção daquilo que, há séculos, aprendemos a chamar de progresso. Não parto, entretanto, para julgar a China, muito menos para procurar nela a confirmação de alguma certeza anterior. Levo comigo uma inquietação que a ultrapassa e que diz respeito ao destino de todos nós: o problema já não é apenas quem conduz o trem, mas a direção para a qual ele segue.
Ouso formular a questão de maneira ainda mais incômoda: a humanidade deu seu maior passo errado quando iniciou o longo caminho que desembocaria, na modernidade, no modo de produção capitalista. Sei que, ao dizer isso, entro em tensão até mesmo com Marx e com boa parte da tradição marxista que o sucedeu, porque também nela permaneceu viva a confiança no desenvolvimento das forças produtivas como condição da emancipação. Para Marx a Revolução seria a aceleração deste processo.
O capitalismo teria realizado uma tarefa histórica contraditória ao multiplicar extraordinariamente nossa capacidade de produzir, cabendo à revolução libertar essas forças das relações capitalistas que as aprisionavam. Mas o mundo que construímos nos obriga hoje a fazer uma pergunta mais radical: basta mudar quem controla as forças produtivas ou precisamos interrogar as próprias forças produtivas que criamos? Um sistema abstrato que nos domina na busca de reprodução do valor de modo incessante
A questão aparece quando olhamos para o metabolismo material de nossa civilização. Construímos cidades que somente permanecem habitáveis mediante um consumo gigantesco de energia, transportamos mercadorias por milhares de quilômetros, climatizamos edifícios inteiros enquanto aquecemos o planeta, extraímos minerais em um continente, processamos componentes em outro e montamos produtos em um terceiro para depois fazê-los circular novamente pelo mundo.
Alimentamos centros de dados, redes digitais, automóveis, aviões, navios, siderúrgicas e uma infraestrutura planetária que exige quantidades crescentes de matéria e energia simplesmente para continuar funcionando. É impossível imaginar toda a humanidade reproduzindo indefinidamente esse padrão. Bilhões de seres humanos aspiram, legitimamente, às condições materiais desfrutadas pelas populações mais ricas, mas o planeta não dispõe de matéria, energia e capacidade de regeneração suficientes para universalizar uma civilização fundada no consumo crescente. O problema, portanto, não está nos povos que ainda querem alcançar melhores condições de vida. Está no modelo de vida que lhes apresentamos como destino.
Existe uma contradição ainda mais profunda. Construímos uma civilização na qual não basta produzir o necessário, nem sequer produzir muito. É preciso produzir mais do que no período anterior. Transformamos o crescimento em medida universal de sucesso e passamos a observar o Produto Interno Bruto como se ele fosse o eletrocardiograma da sociedade. Se o PIB cresce, comemoramos; se cresce menos, preocupamo-nos; se permanece estável, falamos em estagnação; se diminui, anunciamos crise. Uma economia que produza exatamente a mesma quantidade de riqueza material de que sua população necessita será considerada fracassada se não superar o resultado do ano anterior. A própria ideia de estabilidade tornou-se uma anomalia porque o capital não pode simplesmente reproduzir-se: precisa ampliar-se.
É aí que a irracionalidade se revela por inteiro. Nenhuma sociedade pode aumentar indefinidamente sua produção material em um planeta finito. Nenhuma civilização pode estabelecer como horizonte consumir permanentemente mais energia, extrair mais minerais, movimentar mais mercadorias e transformar mais natureza em matéria produtiva. Entretanto, construímos nossas instituições econômicas, nossos Estados, nossos empregos, nossos sistemas previdenciários e nossas expectativas sociais sobre a premissa de que amanhã será necessário produzir mais do que hoje. Criamos uma sociedade que interpreta a ausência de crescimento como fracasso, embora o crescimento infinito seja fisicamente impossível.
Precisamos, portanto, separar emancipação de abundância mercantil. Viver melhor não pode significar indefinidamente produzir mais, consumir mais, viajar mais quilômetros, substituir objetos mais rapidamente e gastar quantidades crescentes de energia. Uma sociedade emancipada precisará descobrir outra ideia de riqueza: tempo disponível, saúde, conhecimento, habitação, alimentação, cultura, convivência, natureza preservada e liberdade para desenvolver capacidades humanas fora da compulsão permanente da produção. O capitalismo não criou apenas uma distribuição desigual da riqueza; criou uma determinada definição de riqueza e nos convenceu de que avançar significa ampliar incessantemente a produção de mercadorias. O fato é que a maioria das mercadorias que temos a mão hoje para a nossa sobrevivência são claramente desnecessárias .
Mas, fico aqui pensando: onde começamos a mudar nossos passos? Na verdade, não houve um instante inaugural, nem uma assembleia na qual a humanidade decidiu criar o capitalismo. Imagino, entretanto, aquele camponês deixando por algumas horas o universo fechado do feudo e chegando a uma feira medieval. Ali encontrava desconhecidos, objetos vindos de lugares distantes, mercadores, moedas e relações que já não dependiam inteiramente dos vínculos pessoais da comunidade. Uma outra visão de mundo.
Ora, nao romantizo o feudalismo, mundo de servidão, violência e hierarquias brutais. Mas naquela longa transformação começava a ganhar força uma mediação que atravessaria os séculos: pessoas passariam cada vez mais a relacionar-se através das coisas, enquanto as coisas começariam a organizar as relações entre as pessoas.
A terra tornou-se mercadoria, o alimento tornou-se mercadoria, o tempo ganhou preço e, finalmente, a própria capacidade humana de trabalhar tornou-se mercadoria. A mudança então já não estava apenas nos mercados, mas dentro de nós. Passamos a compreender a natureza como recurso, o tempo como dinheiro, a atividade humana como trabalho abstrato e a riqueza como acumulação. Aquela pequena feira cresceu até transformar-se no mercado mundial. Hoje florestas, rios, genes, informações, atenção e até emoções podem adquirir preço. A feira já não está diante de nós: estamos dentro dela.
Foi esse longo caminho que nos trouxe ao paradoxo de uma civilização capaz de produzir abundância e obrigada a produzir sempre mais; capaz de criar máquinas para nos libertar do trabalho e aterrorizada diante da possibilidade de que elas efetivamente o façam; capaz de compreender os mecanismos do aquecimento global e, simultaneamente, incapaz de interromper a dinâmica econômica que o produz.
Criamos uma máquina social que precisa crescer permanentemente dentro de um planeta que não cresce. Esta é a essência do passo errado: não uma escolha consciente realizada em algum momento remoto, mas uma sucessão de passos aparentemente racionais que terminou submetendo a vida a uma abstração que exige movimento incessante.
É com essa inquietação que embarco para a China. Quero olhar seus trens velozes, suas cidades, suas tecnologias e sua impressionante transformação social sem negar suas conquistas e sem transformá-las antecipadamente em condenação. Mas levarei comigo a pergunta de Benjamin. Capitalistas, liberais, socialistas e marxistas, apesar de suas diferenças imensas, compartilharam por demasiado tempo a crença de que emancipar a humanidade significava fazer a locomotiva avançar mais depressa. A questão que o século XXI nos apresenta é exatamente a inversa. Diante da crise ecológica, da automação, da inteligência artificial e de uma civilização que precisa consumir cada vez mais energia apenas para reproduzir sua própria complexidade, o desafio já não é descobrir quem deve ocupar a cabine da locomotiva, mas decidir coletivamente para onde queremos ir.
Aquele camponês diante da feira medieval não poderia saber aonde seus primeiros passos conduziriam. Nós já podemos olhar para trás e enxergar grande parte do caminho percorrido. Por isso nossa responsabilidade é maior. Começamos finalmente a perceber que o trem avança em direção a uma catástrofe. Não precisamos voltar ao ponto de partida, nem destruir tudo aquilo que aprendemos durante a viagem. Precisamos encontrar outro caminho, no qual viver melhor não dependa de produzir sempre mais e no qual uma sociedade possa considerar-se próspera sem precisar superar, a cada ano, a quantidade de mercadorias e energia consumidas no ano anterior.
O primeiro gesto verdadeiramente revolucionário de nosso tempo é justamente aquele imaginado por Benjamin: enquanto ainda houver trilhos diante de nós, ter a coragem coletiva de puxar o freio de emergência.
Serra da Mantiqueira, agosto de 2026
Arlindenor Pedro
contato@utopiasposcapitalistas.com







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