* Paulo Baía
O Brasil talvez seja mais difícil de compreender quando tentamos organizá-lo do que quando nos permitimos observá-lo. Existe em nossa formação social alguma coisa que resiste às gavetas, aos binarismos confortáveis, às fronteiras excessivamente nítidas e, sobretudo, às explicações que chegam prontas ao passado antes mesmo de escutar seus mortos. Somos uma sociedade feita de cicatrizes e encontros, violências e afetos, coerções e negociações, cores que nunca foram apenas cores, culturas que jamais permaneceram imóveis. É nesse território inquieto que Mary Del Priore e Gian Melo instalam História das mestiçagens no Brasil, obra coletiva publicada pela Editora Unesp. Sua primeira virtude é devolver complexidade a um país que tantas vezes prefere reduzir a própria história a esquemas.
O plural do título é uma declaração historiográfica. Não existe uma mestiçagem brasileira, uniforme, pacificadora, percorrendo cinco séculos como receita secreta da nacionalidade. Existem mestiçagens: indígenas, africanas e europeias; biológicas, culturais, linguísticas, religiosas, alimentares, familiares e políticas. Existem misturas produzidas pela violência e outras construídas pelo afeto; as estimuladas pelo Estado e as realizadas à margem dele; as nascidas dentro da escravidão e aquelas vividas entre homens e mulheres livres, pobres, soldados, lavradores, artesãos, libertos e trabalhadores que constituíam a imensa base humana da sociedade.
É precisamente aqui que reconheço a coragem intelectual e cívica de Mary Del Priore. Intelectual porque historiadores existem, entre outras razões, para desconfiar das verdades excessivamente confortáveis, inclusive das verdades de seu próprio tempo. Cívica porque, numa sociedade em que a divergência historiográfica pode rapidamente ser convertida em julgamento moral, Mary reivindica algo essencial ao ofício do historiador: a liberdade de seguir os documentos mesmo quando eles conduzem a territórios desconfortáveis.
Não há nesse gesto absolvição da colonização, diminuição da monstruosidade da escravidão, esquecimento do patriarcado ou recusa do racismo. Há uma exigência mais difícil: nenhuma dessas realidades pode ser transformada, isoladamente, numa chave capaz de abrir todas as portas da história brasileira.
É nesse sentido que deve ser compreendida sua afirmação, provocadora e necessária ao debate, de que constitui um mito reduzir a origem da mestiçagem brasileira ao estupro. Mary não afirma que estupros não existiram. Existiram, foram brutais e encontraram na escravidão condições terríveis de dominação e impunidade. O argumento é mais complexo. Séculos de relações entre milhões de seres humanos não podem ser comprimidos numa única cena histórica: o senhor branco violentando a mulher escravizada.
Os documentos registram também famílias, casamentos, concubinatos prolongados, uniões informais, reconhecimentos de filhos, alforrias, relações entre pobres, libertos, indígenas, africanos, europeus e mestiços. Registram dependências e desejos, negociações e estratégias, afetos constituídos dentro de estruturas desiguais. Amor não elimina poder. Poder, por sua vez, não explica sozinho a totalidade dos sentimentos humanos. A história não se torna menos cruel quando recuperamos sua complexidade; torna-se menos caricatural.
Talvez esteja aí uma das grandes provocações da obra: retirar o mestiço da condição de nota de rodapé da formação nacional. O Censo do Império de 1872 já revelava a enorme presença dos pardos. Ainda assim, durante muito tempo representamos o passado brasileiro como um teatro ocupado quase exclusivamente por dois personagens imóveis: o senhor branco e o escravo negro. Ambos são indispensáveis para compreender a ordem social, mas, ao redor deles, entre eles e, muitas vezes, dentro das próprias famílias, havia uma sociedade muito mais heterogênea. Pardos, caboclos, mamelucos, mulatos, negros livres, indígenas integrados a circuitos diversos, libertos e brancos pobres compunham um mundo que não cabe facilmente numa fotografia de duas cores.
As próprias palavras mudavam. “Pardo”, “preto”, “negro”, “mulato”, “caboclo”, “crioulo” e “branco” não conservaram sentidos idênticos durante séculos. A contribuição historiográfica de Eduardo França Paiva ajuda a compreender essa mobilidade. Cor, qualidade e condição precisam ser lidas dentro do tempo que as produziu. Um indivíduo podia receber classificações diferentes ao longo da vida. Liberdade, patrimônio, profissão, reputação, relações sociais e patente militar podiam interferir na maneira pela qual era percebido.
Isso não demonstra ausência de racismo. Demonstra algo mais interessante: o racismo brasileiro construiu uma gramática histórica própria. Uma fronteira pode ser móvel e continuar sendo fronteira. Fluidez jamais significou igualdade. Se aproximar-se socialmente da brancura proporcionava vantagens, a própria tentativa de aproximação revelava o valor atribuído à brancura.
O desconcertante estudo de Hendrik Kraay sobre os chamados “escravos brancos” ilumina essa contradição. Como a escravidão seguia a condição materna, sucessivas gerações de cruzamentos podiam produzir indivíduos percebidos fenotipicamente como brancos que continuavam juridicamente escravizados. A exceção faz ranger o edifício classificatório. Escravidão e negritude estiveram fortemente associadas na formação brasileira, mas não constituíam categorias juridicamente idênticas. Quando aparência branca e condição escrava se encontravam no mesmo indivíduo, a sociedade era obrigada a confrontar as ambiguidades de suas próprias classificações.
As políticas pombalinas oferecem outro deslocamento fascinante. A Coroa portuguesa chegou a estimular casamentos entre portugueses e indígenas como estratégia de ocupação territorial. O corpo convertia-se em geopolítica; a família, em instrumento imperial. A mestiçagem podia ser incentivada pelo mesmo Estado que organizava hierarquias entre populações. Não existe, portanto, uma essência política da mistura. Ela pode representar dominação, acomodação, resistência, sobrevivência, estratégia ou desejo. Seu significado depende de quem se encontra, em qual época e sob quais relações de poder.
Mas os corpos contam somente parte dessa história. Yeda Pessoa de Castro permite perceber que a África permanece inscrita na língua portuguesa falada no Brasil. Palavras cruzaram o Atlântico com homens e mulheres submetidos à brutalidade do tráfico. Sobreviveram aos navios, aos mercados e às senzalas. Foram modificadas, incorporadas, abrasileiradas. A língua tornou-se um arquivo sem paredes. Falamos histórias cujas genealogias muitas vezes desconhecemos.
O mesmo acontece na cozinha, na música, nas festas e na religião. Ingredientes indígenas encontraram técnicas europeias e saberes africanos. Símbolos católicos foram reinterpretados. Devoções ganharam outros significados. Culturas perseguidas deixaram marcas indeléveis na própria sociedade que as perseguia. Eis um dos paradoxos mais belos e dolorosos do Brasil: a cultura aproximava aquilo que a estrutura social mantinha distante.
Serge Gruzinski alarga esse horizonte ao mostrar que mestiçagens pertencem também à circulação de imagens, crenças, técnicas, objetos e imaginários provocada pelas expansões ibéricas. A fantasia da pureza começa então a perder sentido. Portugueses, africanos e indígenas jamais constituíram três blocos homogêneos esperando o encontro americano. Cada um desses universos continha diferenças, migrações, guerras, alianças e intercâmbios anteriores.
Neste ponto da conversa com Mary Del Priore, permito-me trazer alguém que não está aqui como autor da coletânea, mas como escolha minha de resenhista: Nunes Pereira.
Eu, Paulo Baía, o trago para estas páginas porque sua presença torna mais rica a conversa que proponho com Mary e oferece uma face humana àquilo que estamos chamando de mestiçagens. Quero colocar diante do livro um mestiço investigando mestiçagens. E, ao fazê-lo, coloco inevitavelmente também a minha própria mestiçagem diante dele. Não como confissão ornamental, mas como posição de observação. Nunes Pereira, Mary Del Priore e este resenhista encontram-se, assim, numa conversa em que o objeto estudado deixa de permanecer apenas do lado de fora de quem observa.
Nunes Pereira, maranhense cuja aventura intelectual se ligou de maneira indissociável à Amazônia, foi um autodidata mestiço, inovador e criativo. Sua universidade não esteve limitada às salas formais de ensino. Foram também o rio, a floresta, as comunidades, a escuta, a viagem, os livros buscados com obstinação e a observação paciente de homens e mulheres que a cultura oficial brasileira tantas vezes preferiu transformar em tipos abstratos.
Ele não era um curioso improvisado. Seu autodidatismo era trabalho, disciplina e fome de conhecimento. Interessou-se por línguas, religiosidades, culturas indígenas e populações negras. Estudou mundos que instituições acadêmicas brasileiras ainda aprendiam a enxergar. Percebeu indígenas e negros não como peças imóveis de um museu racial, mas como produtores de cultura e sujeitos da experiência.
Por isso o convoco para esta resenha.
Nunes Pereira parece pertencer, ele próprio, à matéria humana que investigava: um intelectual de fronteiras, difícil de conter nas classificações estreitas com que instituições gostam de organizar homens e saberes. Sua condição mestiça não constitui explicação automática de sua obra, mas acrescenta uma dimensão fascinante ao diálogo. Existe algo de extraordinariamente brasileiro na imagem desse autodidata mestiço observando sociedades, crenças e culturas também constituídas por contatos, resistências e recriações.
Ao aproximá-lo de Mary Del Priore, não pretendo fabricar uma genealogia intelectual inexistente. Quero produzir uma conversa. Nunes Pereira ajuda a lembrar que a mestiçagem brasileira não nasceu como conceito universitário. Foi experiência vivida antes de se tornar categoria analítica. Homens e mulheres mestiços existiram antes que sociólogos, antropólogos e historiadores decidissem o que fazer conceitualmente com eles.
E aqui minha própria mestiçagem encontra lugar nesta resenha. Não para substituir argumento por biografia, mas para reconhecer que nenhum olhar é inteiramente desencarnado. Também observo esse debate de dentro de uma sociedade que me constituiu. Investigar mestiçagens é, em alguma medida, investigar a história social dos corpos, das famílias, das palavras e dos mundos que nos produziram.
É nesse ponto que História das mestiçagens no Brasil conversa com a grande tradição do pensamento social brasileiro.
Gilberto Freyre realizou uma operação intelectual decisiva ao retirar a mestiçagem do campo da degeneração racial, onde parte do pensamento oitocentista a havia colocado, e situá-la no centro da formação social e cultural brasileira. Casa-Grande & Senzala é muito mais complexo do que a caricatura conciliatória à qual algumas leituras posteriores tentaram reduzi-lo. É necessário distinguir Freyre da vulgarização de Freyre. Uma coisa é sua interpretação densa, contraditória e inovadora da sociedade patriarcal e escravista. Outra é a transformação posterior da mestiçagem numa espécie de certificado automático de harmonia racial.
A crítica sociológica a essa fantasia foi indispensável. Florestan Fernandes, Roger Bastide, Oracy Nogueira, Guerreiro Ramos, Carlos Hasenbalg e outros demonstraram, por caminhos diferentes, que mistura não produz igualdade por geração espontânea. Uma sociedade pode ser mestiça e racista. Pode possuir famílias racialmente diversas e conservar desigualdades. Pode incorporar culturas negras e indígenas e continuar discriminando os homens e mulheres associados a elas.
Essa conquista intelectual não precisa ser abandonada para que as mestiçagens voltem a ser estudadas.
Ao contrário, a originalidade e a coragem da coletânea estão justamente em recusar a falsa escolha entre reconhecer o racismo e reconhecer a mestiçagem. Ambos pertencem à história brasileira. A pergunta realmente fecunda é compreender como puderam coexistir durante tanto tempo.
A resposta começa numa constatação incômoda: a proximidade dos corpos nunca garantiu a proximidade dos direitos. Os corpos cruzaram fronteiras muito antes que os direitos conseguissem fazê-lo. A sociedade incorporou palavras africanas antes de oferecer igualdade aos afrodescendentes. Transformou alimentos indígenas em patrimônio cotidiano enquanto destruía territórios indígenas. Converteu ritmos negros em símbolos nacionais depois de persegui-los. Fez da mistura uma imagem de si sem democratizar, na mesma velocidade, riqueza, prestígio e poder.
A cultura aproximava aquilo que a estrutura social mantinha distante. Essa é uma das chaves possíveis para compreender o Brasil.
Por isso a mestiçagem não deve funcionar como anestesia da história. Mas tampouco pode ser expulsa da história porque perturba categorias contemporâneas. O passado não possui obrigação de confirmar o vocabulário político do presente.
É aqui que volto à coragem cívica de Mary Del Priore. Num tempo em que se exige frequentemente do intelectual uma declaração prévia de pertencimento antes mesmo de se examinar seu argumento, Mary preserva uma virtude antiga e indispensável do ofício: permitir que a documentação complique nossas convicções.
Isso não é relativizar a violência. É recusar a caricatura. Não é negar o racismo. É tentar compreendê-lo historicamente. Não é restaurar o mito da democracia racial. É separar a existência histórica das mestiçagens do uso ideológico que posteriormente se fez delas. Essa distinção é decisiva.
Talvez devêssemos abandonar definitivamente a velha pergunta sobre qual das “três raças” fez o Brasil. Não foram três essências colocadas dentro de um recipiente tropical. Foram milhões de pessoas concretas: povos indígenas muito diversos entre si; africanos vindos de sociedades, línguas e cosmologias diferentes; portugueses também formados por longa história de encontros mediterrâneos, europeus, africanos, judaicos e islâmicos. Depois chegaram italianos, espanhóis, alemães, japoneses, sírios, libaneses, judeus e muitos outros.
O Brasil nunca terminou de acontecer.
Talvez seja essa uma das imagens mais bonitas sugeridas pela leitura. Somos menos um caldeirão do que um tecido. Alguns fios permanecem reconhecíveis; outros se cruzaram tantas vezes que separá-los destruiria o desenho. Há fios violentamente arrancados de seus lugares de origem. Há os quase apagados. Há aqueles que ocupam a superfície e os que permaneceram escondidos durante séculos. Nenhum deles, isoladamente, constitui o tecido inteiro.
A metáfora permite preservar diferença e encontro. Permite reconhecer ancestralidade sem inventar pureza. Permite reconhecer violência sem apagar criação. Permite reconhecer hierarquia sem negar a capacidade humana de agir dentro dela.
É aí que a obra organizada por Mary Del Priore e Gian Melo alcança sua maior grandeza. Não oferece uma nova mitologia destinada a substituir a antiga. Oferece algo muito mais raro: complexidade, documentação, pluralidade e disposição para incomodar.
A formação brasileira é incompreensível sem as mestiçagens. Mas as mestiçagens são incompreensíveis sem o poder.
Retiremos o poder e teremos a fantasia de uma mistura naturalmente harmoniosa. Retiremos as mestiçagens e teremos outra fantasia, a de populações hermeticamente separadas durante cinco séculos, sem descendências, alianças, conflitos, desejos, negociações e transformações recíprocas.
O Brasil histórico encontra-se na tensão entre essas duas imagens.
Foi nesse Brasil que Nunes Pereira observou, escutou, estudou e escreveu. Um mestiço procurando compreender mundos feitos também de contatos, memórias e recriações. É desse mesmo Brasil que escrevo esta resenha, trazendo minha própria mestiçagem não como argumento de autoridade, mas como reconhecimento de que também pertenço à matéria social sobre a qual reflito. E é a esse Brasil que Mary Del Priore retorna com a coragem de quem sabe que o dever do historiador não é proteger certezas.
Nunes Pereira soube enxergar esse país quando ainda faltavam muitas das palavras acadêmicas com que hoje o descrevemos. Mary Del Priore tem a coragem de voltar a enxergá-lo quando algumas dessas palavras correm o risco de se converter em grades.
Entre ambos permanece o mesmo Brasil: mestiço sem reconciliação plena, plural sem igualdade substantiva, marcado por violências que não anulam suas criações e por criações que jamais absolvem suas violências.
A história não existe para nos oferecer um passado confortável. Existe para impedir que sejamos confortavelmente ignorantes sobre aquilo que somos.
* Sociólogo, cientista político ensaísta e professor da UFRJ da UFRJ







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