Opinião

Artur da Távola, o azar e meus consultores chow chow

Entre pesquisas eleitorais, lembranças de Artur da Távola e teorias sobre azar na política, números da disputa pelo governo do Rio despertam memórias, dúvidas e até consultas aos cachorros

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Amigos e amigas, passei a vida estudando estatística, sociologia e política, sempre acompanhado pela literatura. Julgava ter reunido ferramentas suficientes para compreender uma eleição no Rio de Janeiro. Agora, olhando as pesquisas, suspeito que deixei uma lacuna na formação: a circulação do azar entre os aliados.

Quem entendia desse assunto era meu saudoso e querido amigo Paulo Alberto, o jornalista Artur da Távola. Tinha um lado místico que provocava confusões entre amigos e companheiros de política. Conversar com ele exigia atenção aos argumentos e às forças ocultas do universo. Às vezes, uma explicação muito bem construída perdia para um pressentimento.

Artur da Távola tinha uma assessoria felina permanente. Seus gatos falavam com ele, e só com ele. O que lhe diziam tinha força para desmontar agendas, alterar trajetos, modificar textos e cancelar reuniões. Eram muito poderosos os gatos de Artur da Távola.

Nós podíamos argumentar, apresentar razões, insistir na importância de um compromisso. Mas, se os gatos tivessem outra orientação, começava a revisão de tudo.

Era uma dificuldade organizar aquela agenda: a reunião estava confirmada, o trajeto definido, o texto pronto. Faltava apenas a aprovação dos gatos. E os gatos, pelo visto, não estavam sujeitos a prazo, contraditório ou pedido de reconsideração. Artur da Távola recebia as mensagens, e nós recebíamos as consequências.

Hoje, ao ver a pesquisa da Quaest, de Felipe Nunes, esse jovem, ousado e brilhante sociólogo e cientista político, lembrei de Artur da Távola. Quase ouvi sua voz comentando os números, com aquela seriedade que tornava suas observações ainda mais desconcertantes.

Ele tinha uma implicância antiga com Rafael de Almeida Magalhães, vinda dos tempos da Guanabara. Eu procurava explicações nas trajetórias dos dois. Rafael havia sido vice-governador de Carlos Lacerda; Paulo Alberto foi cassado e viveu exilado no Chile com a família. Mas a história política não esclarecia inteiramente aquela irritação.

Quando eu insistia, ele encerrava a investigação:

“Paulo, o Rafael dá azar.”

Melhor tê-lo como adversário, dizia. Como aliado, perderíamos a eleição. Eu ficava tentando compreender o mecanismo. O azar passava pelo aperto de mão? Pela fotografia no palanque? Uma declaração de apoio já contaminava a campanha ou precisava haver reunião com cafezinho?

Artur da Távola não demonstrava dúvidas. Eu é que precisava ampliar a bibliografia.

Também me voltou a lembrança de uma visita que lhe fiz no hospital, pouco antes de sua morte. Falamos de política, como tantas vezes. Triste, ele me disse que Sérgio Cabral Filho havia sido uma de suas maiores decepções: “Paulo, ele está fora da linha descaradamente”.

Em outro momento, mencionei Eduardo Paes com elogios. Artur da Távola imediatamente o comparou a Rafael. Eduardo também dava azar. Melhor tê-lo na oposição.

Eu visitava um amigo querido e recebia uma hipótese que nenhum programa de estatística saberia processar. Como medir o azar? Qual seria a margem de erro? O instituto precisava contratar um astrólogo ou bastava distribuir arruda aos entrevistadores?

Olhando agora os números, a pergunta voltou: será que Eduardo Paes dá azar mesmo quando está do nosso lado? Douglas Ruas está chegando perto, e depressa, trazendo a tiracolo Carlos Portinho e Carlos Jordy. Olho a pesquisa, lembro de Artur da Távola e penso: meu Deus, que enredo é esse?

Na falta dele, tento consultar meus chow chow, Leon e Iza. Considero estudar zoossemiótica para entender suas mensagens. Mas eles só me oferecem carinho e festa. Quando querem ventiladores, ar-condicionado ou um passeio no Parque do Flamengo, comunicam tudo com precisão. Sobre eleições, mantêm um silêncio profissional.

Talvez saibam e prefiram me poupar.

A vida já me espanta nos jogos do Flamengo e quando a Portela entra na Marquês de Sapucaí. Conheço o assombro de uma bola na trave, aquele instante em que o gol já aconteceu dentro da minha cabeça, mas o placar se recusa a reconhecer.

E conheço o tormento das apurações do Carnaval na Quarta-feira de Cinzas, quando cada nota da Portela parece testar, ao mesmo tempo, meu coração, minha fé e minha capacidade de continuar sentado.

Agora, a política fluminense ameaça me levar ao tarô de Marselha, aos mapas astrais e à interpretação de gravuras rupestres. Vou acabar procurando uma benzedeira que aceite tabelas.

No meio desse assombro, sinto saudade de Artur da Távola. Da inteligência, do carinho e das conversas que continuavam dentro da gente depois da despedida.

Artur da Távola, meu querido, você poderia ter deixado uma receita contra o azar. Leon e Iza são ótimos companheiros, mas até agora só me mandaram ligar o ventilador.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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