O silêncio carregado de lembranças e pedidos por justiça tomou conta da Assembleia Legislativa do Rio nesta segunda-feira (18), data em que é celebrado o Dia de Luta Jovem Preto Vivo.
A data foi instituída pela Lei Estadual 10.298/2024 e marca os seis anos da morte do adolescente João Pedro Matos Pinto, morto durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo.
Familiares de crianças e adolescentes mortos em episódios de violência também participaram de um encontro marcado por relatos sobre perdas, demora judicial e críticas à política de segurança pública fluminense.
A atividade foi conduzida pelo deputado estadual Professor Josemar (Psol), que nos últimos anos se mobilizou em torno do caso, sendo inclusive o autor da lei que criou o Dia do Jovem Preto Vivo.
Cobrança por justiça
Durante a reunião, realizada na sede da Alerj, no Centro do Rio, familiares relataram a dificuldade de obter respostas judiciais nos casos envolvendo mortes de jovens em operações policiais. Neilton Pinto, pai de João Pedro, afirmou que a família segue aguardando um desfecho para o processo.
“A justiça até hoje não fez a sua obrigação. Não podem passar seis anos e não termos uma resposta. Em primeira instância, os policiais foram absolvidos e agora os réus vão ser submetidos a júri popular, mas o que nos mata é a demora. Que a justiça cumpra o seu papel, não só no caso do meu filho, mas em todos os outros”, declarou.
No dia da morte do adolescente, João Pedro estava na casa de um tio, onde brincava com outras crianças. Investigações apontaram que o disparo que atingiu o jovem partiu da arma de um dos policiais envolvidos na operação. A residência ficou marcada por dezenas de tiros.
A mãe do adolescente, Rafaela Mattos, também falou sobre a expectativa pelo julgamento. “Estamos há mais de um ano esperando pela data do júri popular. Aguardamos que a justiça aconteça, após seis anos de luta. Meu filho era alegre e tinha muita vontade de viver. O que mais marca é que, hoje, não posso estar com ele. São seis dias das mães sem o João”, afirmou.
Debate sobre violência
Ao longo do encontro, representantes de movimentos sociais e entidades ligadas aos direitos humanos defenderam políticas voltadas à reparação das famílias atingidas pela violência.
Segundo o Josemar, que já pensou em criar um monumento para as vítimas da violência no estado, a discussão envolve também a responsabilização do poder público.
“É uma luta para a gente cobrar justiça porque todas as mães que aqui estavam são vítimas de violência do Estado. E a gente identifica que tem um olhar racista sobre todos esses casos. É fundamental que o Estado garanta a reparação das famílias e a punição dos agentes envolvidos e que a gente possa ter justiça por João Pedro e por todos os jovens que perderam suas vidas e tiveram seus sonhos ceifados”, disse.
Representando a Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado (RAAVE), Marilene dos Santos relembrou a morte do filho, executado aos 15 anos na comunidade do Fallet, em 2012. Segundo ela, é necessário ampliar o apoio às famílias afetadas pela violência nas periferias.
“É preciso saber quem está com você, na busca por ajuda jurídica e psicológica. Precisamos rebater pessoas que querem ver o sangue derramado em nossas favelas e periferias”, declarou.
Entidades e movimentos
O encontro também reuniu integrantes de entidades de defesa da infância, da juventude e dos direitos humanos. A vice-presidente do Conselho Estadual da Defesa da Criança e do Adolescente, Mônica Alckmin, comentou os impactos das mortes para as famílias.
“O estado do Rio tem o maior número de organizações de familiares vítimas do estado e isso já diz muito sobre a política de segurança que existe. Precisamos fazer uma busca de justiça não só para o autor do crime, mas também para o estado, que possibilitou aquela morte. Os familiares perdem não só um ente querido, mas uma história de vida inteira”, afirmou.
Integrante do Movimento Negro Evangélico, Andresa Oliveira também participou da atividade e falou sobre os impactos da violência sobre a população negra.
“Estamos dentro de um contexto em que igrejas querem dominar e governar, mas muitas vezes se calam diante da dor dos nossos irmãos. Nós precisamos lutar pelo direito do povo preto de envelhecer. Além desta perda, também há a perda de construir uma vida com as suas famílias”, disse.
Também estiveram presentes representantes da Defensoria Pública, movimentos sociais e familiares de outras vítimas da violência no estado do Rio de Janeiro.






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