Vorcaro tentou montar conglomerado de mídia com fortuna do Master para se proteger, diz publicitário

Thiago Miranda relata bastidores de negociações envolvendo portais, influenciadores digitais e estratégias de gestão de crise ligadas ao ex-controlador do Banco Master

O empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, teria investido milhões de reais na formação de um grupo de veículos de comunicação e influência digital antes da intervenção do Banco Central e do avanço das investigações que culminaram em sua prisão. A notícia foi publicada originalmente pelo portal Brasil 247 em novembro de 2025, com novas informações veiculadas nesta segunda-feira (18) pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo. Quem forneceu os novos detalhes foi publicitário Thiago Miranda, proprietário da agência Mithi, que afirma ter participado diretamente das negociações envolvendo aportes financeiros, contratos com influenciadores e aquisições de participação em empresas de mídia.

Miranda entregou documentos e contratos à imprensa relatando supostas operações conduzidas por Vorcaro por meio de aliados empresariais. Entre os papéis apresentados está um contrato de compra e venda referente ao Portal Léo Dias, no qual o publicitário afirma ter vendido 17% da empresa por R$ 10 milhões ao empresário Flávio Carneiro, apontado por ele como representante do banqueiro.

Segundo Miranda, o negócio foi fechado em julho de 2024, após reuniões em São Paulo que teriam contado com a participação do jornalista e empresário Léo Dias.

De acordo com o relato, Vorcaro demonstrava interesse em ampliar sua presença no setor de comunicação e já possuía relações com outros veículos de imprensa naquele momento.

“Estamos otimistas e felizes com o nosso deal. Vamos juntos”, escreveu Miranda a Vorcaro em uma mensagem enviada após uma reunião sobre o negócio. “Vamos fazer algo grande. Contem comigo”, respondeu o empresário, segundo capturas de tela apresentadas pelo publicitário.

Rede de veículos

Thiago Miranda afirma que Daniel Vorcaro discutia pessoalmente os detalhes financeiros das aquisições e deixava claro que desejava estruturar um conglomerado de mídia sob sua influência.

Segundo ele, o banqueiro já tinha participação indireta na revista IstoÉ, no portal Brazil Journal e também no PlatôBR.

Miranda sustenta que Flávio Carneiro atuava formalmente nas operações por meio da empresa Foone Empreendimentos, enquanto Vorcaro permaneceria nos bastidores das negociações.

“Sempre foi claro para mim que era ele quem estava comprando o portal era o Vorcaro. Ele nunca deixou dúvida a respeito disso”, afirmou o publicitário.

“Até porque não faz muito sentido, né? Se eu fui na casa dele, negociei com ele, ele que definiu o valor que ia pagar [e barganhou] ‘Olha, tá muito caro, não, tá, é, preciso reduzir esse valor. Amanhã eu mando fazer o pagamento’. Então ele é o dono da empresa”, declarou.

Procurado, Flávio Carneiro confirmou participação societária nos portais, mas negou qualquer vínculo oculto de Vorcaro com a Foone Empreendimentos.

“Daniel Vorcaro nunca foi sócio, direto ou indireto, da Foone”, afirmou em nota.

Ele também declarou que o Banco Master atuava apenas como anunciante do Portal Léo Dias.

A Foone possui participação de um fundo administrado pela Reag, gestora ligada ao empresário João Carlos Mansur, apontado como parceiro de negócios de Vorcaro. Segundo informações já divulgadas pelo jornal Estadão, o fundo Duke, ligado à operação, teria como controlador Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro.

Flávio Carneiro também aparece em investigações anteriores da Operação Lava-Jato, citado na delação de Joesley Batista como intermediário em supostos pagamentos ilícitos ao ex-senador Aécio Neves.

Silêncio sobre o Banco Master

Thiago Miranda afirmou que o Portal Léo Dias recebia aproximadamente R$ 1,2 milhão mensais do Banco Master em troca de publicidade institucional. Apesar disso, segundo ele, nenhum conteúdo favorável ao banco teria sido efetivamente publicado.

O publicitário admite, porém, que os veículos ligados ao grupo evitaram cobrir temas negativos relacionados ao banco, incluindo a operação da Polícia Federal que atingiu Vorcaro e os desdobramentos da liquidação da instituição financeira.

Segundo Miranda, a única pauta encomendada diretamente pelo banqueiro teria sido uma reportagem sobre supostos conflitos envolvendo o empresário André Esteves, controlador do BTG Pactual, apontado como desafeto de Vorcaro.

Mesmo reconhecendo a ausência de cobertura crítica, o publicitário nega ter havido interferência editorial direta.

Relação próxima

Miranda afirma que, após a venda de participação no Portal Léo Dias, passou a frequentar a residência de Daniel Vorcaro e a atuar diretamente em estratégias de comunicação e gerenciamento de crise do empresário.

Ele relata que participou da intermediação de contatos entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro para tratar do financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Segundo o publicitário, a proximidade aumentou após a revogação da primeira prisão do banqueiro, em novembro de 2025.

A partir desse período, Miranda afirma ter assumido parte da estratégia de defesa pública do empresário, estruturada em um projeto batizado de “Projeto DV”.

O plano previa pagamentos milionários a influenciadores digitais para disseminar conteúdos que levantassem dúvidas sobre a atuação do Banco Central na liquidação do Banco Master.

De acordo com o relato, a iniciativa previa um investimento mensal de R$ 3,5 milhões e foi apresentada a Vorcaro em dezembro, em São Paulo, por meio de uma apresentação com cerca de 70 slides.

O conteúdo do projeto foi citado por Miranda em depoimento prestado à Polícia Federal.

Influenciadores e contratos

Antes de depor oficialmente, Thiago Miranda compartilhou contratos firmados entre a agência Mithi e influenciadores digitais, jornalistas e plataformas de conteúdo.

Entre os nomes citados estão Fofoquei, Alfinetada, Tricotei, Queironica, Easy Fatos, GPS, Not Journal e o jornalista Luiz Bacci.

Os documentos mostram contratos com pagamentos que variavam entre R$ 30 mil e R$ 1,5 milhão por mês, dependendo do alcance e da audiência dos perfis contratados.

Segundo Miranda, após o fechamento dos acordos, eram criados grupos de WhatsApp para distribuição das pautas e alinhamento das abordagens.

“Em cima disso, a gente pedia pra que eles reproduzissem a sua opinião ou o que eles achavam daquilo que tava sendo comentado E aí o jornalista trabalhava em cima dessas matérias. Então tudo que foi feito, o influenciador não criou da cabeça dele. Ele fez por matérias que foram produzidas por jornalistas”, afirmou.

“Esse era a regra do negócio: repercutir o que tinha saído em algum veículo”.

Após a revelação da operação, Miranda retirou do ar o site e os perfis da agência Mithi.

Respostas e negativas

Os advogados de Léo Dias afirmaram desconhecer o teor das declarações de Thiago Miranda.

“Os advogados de Leo Dias manifestam o desconhecimento quanto ao teor das afirmações feitas por Thiago Miranda. Todavia, já adotaram providências para a busca de informações e dados que possam interessar à defesa dele e da empresa”.

Representantes do PlatôBR e do Brazil Journal disseram que eventuais esclarecimentos caberiam a Flávio Carneiro.

Já o grupo controlador da revista IstoÉ divulgou nota negando qualquer atuação coordenada por Daniel Vorcaro e afirmando que o grupo “não atua como conglomerado de mídica digital, sendo controlador do Grupo IstoÉ, que mantém gestão editorial independente, autônoma e alinhada aos princípios do jornalismo profissional, sem qualquer interferência externa de agentes políticos, financeiros ou empresariais. Desde a aquisição daas referidas publicações, jamais houve transferência de tituaridade, cessão de controle ou participação de terceiros em sua estruura societária ou editorial.”

Na manifestação enviada à imprensa, Flávio Carneiro também negou participação de Vorcaro no Brazil Journal e no PlatôBR.

“O Platô é uma iniciativa minha e tem como Publisher e editor-geral o jornalista Rodrigo Rangel. Nem o Banco Master, nem seu acionista, jamais foram sócios, investidores ou anunciantes do veículo. Daniel Vorcaro nunca foi sócio ou investidor do Brazil Journal, do qual participo societáriamente desde 2020. O Brazil Journal e todos seus projetos foram desenvolvidos e financiados com modelo de negócios integralmente sustentado pelo mercado publicitário, sempre de forma transparente e regular sem qualquer investimento externo.”

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