Integrantes da cúpula das Forças Armadas começaram a discutir reservadamente como poderia ser a relação dos militares com um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), que enfrenta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial. As conversas incluem possíveis nomes para o Ministério da Defesa e para o comando do Exército.
Segundo relatos obtidos pela Folha de S.Paulo, o assunto circula em conversas por telefone e WhatsApp e também apareceu paralelamente à reunião do Alto Comando do Exército em Brasília. O colegiado reúne 16 generais de quatro estrelas e está reunido nesta semana para discutir promoções.
Entre os oficiais ouvidos pelo jornal, existe a expectativa de que, caso Flávio seja eleito, o Ministério da Defesa volte a ser ocupado por um civil identificado com o bolsonarismo. O nome mais citado nas conversas é Marcos Degaut, ex-secretário de Produtos de Defesa durante o governo Jair Bolsonaro.
Degaut aparece nas conversas
Degaut mantém relação próxima com Eduardo Bolsonaro e teve atuação direta em assuntos relacionados à indústria de Defesa durante o governo Bolsonaro. Em outubro de 2021, quando comandava a Secretaria de Produtos de Defesa, sua agenda oficial registrou encontros com uma delegação do grupo estatal Edge, dos Emirados Árabes Unidos, no Estado-Maior do Exército, na ApexBrasil e na Presidência da República.
Depois de deixar o governo, Degaut trabalhou para o próprio Edge Group na América Latina. Sua passagem pela companhia é um dos pontos observados por integrantes das Forças Armadas diante da possibilidade de ele assumir uma função estratégica em um eventual governo de Flávio.
A questão ganhou peso porque o grupo dos Emirados ampliou significativamente sua presença na indústria brasileira de Defesa. A Edge concluiu em setembro deste ano a aquisição da empresa brasileira de engenharia aeroespacial Akaer e já possui participação na fabricante de sistemas de defesa SIATT.
Não há, até agora, anúncio de Flávio Bolsonaro sobre quem ocuparia o Ministério da Defesa caso seja eleito. Os nomes mencionados fazem parte de discussões e avaliações internas relatadas por militares.
Comando do Exército entra no radar
Outra discussão envolve uma eventual substituição do general Tomás Ribeiro Paiva no comando do Exército. De acordo com a Folha, um dos nomes mais mencionados é Francisco Humberto Montenegro Júnior, atualmente chefe do Estado-Maior do Exército e, portanto, uma das principais autoridades da Força.
Montenegro é considerado um general com experiência na articulação política e mantém relação próxima com Tomás. Um obstáculo, porém, seria a antiguidade: ele não ocupa a primeira posição na fila dos generais que poderiam ser escolhidos para comandar a Força.
Nesse critério, Luciano Guilherme Cabral Pinheiro, secretário de Economia e Finanças do Exército, aparece como uma possibilidade.
Outros generais também são mencionados nas conversas relatadas pela reportagem, entre eles Kleber Nunes de Vasconcellos e Luiz Fernando Baganha. Este último trabalhou no Gabinete de Segurança Institucional durante o governo Jair Bolsonaro e foi número dois do então ministro Augusto Heleno.
Não existe, segundo um militar ouvido pela Folha, interlocução institucional entre o Exército e a campanha de Flávio Bolsonaro. As discussões são tratadas como avaliações internas diante da possibilidade de mudança no comando político do país.
Relação com Bolsonaro pesa
As conversas ocorrem em um momento particularmente sensível para as Forças Armadas. A passagem de militares pelo governo Jair Bolsonaro e os desdobramentos das investigações sobre a tentativa de ruptura institucional de 2022 produziram forte desgaste político dentro das Forças.
Dezenove militares foram condenados no episódio, segundo a reportagem, entre eles ex-integrantes da cúpula militar. Nesse contexto, oficiais avaliam com cautela uma eventual reaproximação com o bolsonarismo.
Tomás Paiva assumiu o comando do Exército no início do terceiro governo Lula após a saída do general Júlio César de Arruda. Antes de assumir, havia defendido publicamente o respeito ao resultado eleitoral e a despolitização das Forças Armadas.
A relação de Tomás com integrantes da família Bolsonaro também entra nas avaliações. Segundo aliados de Flávio ouvidos pela Folha, integrantes do grupo político do ex-presidente não esqueceram a posição adotada pelo general durante a crise institucional que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023.
Marinha e Aeronáutica também são citadas
As especulações não ficam restritas ao Exército. Na Marinha, o nome mencionado para uma eventual troca no comando é o do almirante Arthur Fernando Bettega. Na Força Aérea Brasileira, o candidato considerado natural nas conversas internas seria o tenente-brigadeiro Walcyr Josué de Castilho Araújo.
Por enquanto, tudo permanece no campo das avaliações internas. Qualquer mudança dependeria primeiro do resultado do segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula e, posteriormente, das decisões do presidente eleito sobre o Ministério da Defesa e os comandos militares.







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