A investigação da Polícia Federal e do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) sobre a Operação Magen, realizada nesta quarta-feira (7), revelou que policiais e ex-policiais militares acusados de integrar uma quadrilha que vendia fuzis ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, também cobravam para realizar investigações clandestinas e obter informações sigilosas para criminosos.
Segundo o MPRJ, o grupo utilizava contatos e acessos dentro das forças de segurança para atender interesses de terceiros. Em um dos episódios investigados, um ex-PM teria tentado conseguir imagens de câmeras de segurança do Estado para ajudar um miliciano acusado de homicídio a construir uma versão de defesa.
Os sete investigados foram denunciados pelo Ministério Público e se tornaram réus. Entre eles estão policiais da ativa e ex-PMs que, mesmo após expulsões da corporação e envolvimento em outros crimes, chegaram a ocupar cargos comissionados na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e no Detran.
Grupo cobrava para fazer investigações particulares
Uma das conversas obtidas pelos investigadores envolve o ex-PM Vitor Hugo Marinho Garcia, conhecido como Batata, apontado como um dos líderes da organização criminosa, e o policial civil Carlos Barnabé Souza.
Nas mensagens, Vitor Hugo discute com o agente a possibilidade de realizar uma investigação particular para um empresário que havia sido vítima de uma tentativa de sequestro. Segundo o relato analisado pelo MP, a mulher e o filho do empresário chegaram a ser amarrados durante a ação criminosa.
Para os investigadores, a conversa indica que os suspeitos transformavam a experiência e os contatos adquiridos nas forças de segurança em serviços clandestinos oferecidos mediante pagamento.
O MP também afirma que integrantes do grupo praticavam extorsões contra criminosos e utilizavam informações obtidas ilegalmente em sistemas policiais.
Carlos Barnabé, que é policial civil da ativa, foi denunciado por violação de sigilo funcional. Segundo a investigação, ele teria fornecido informações sigilosas à organização. O agente está foragido.
Ex-PM tentou conseguir imagens para miliciano
Outro episódio citado pelo Ministério Público envolve Gilson Ingrácio de Souza Júnior, conhecido como Juninho Varão, apontado como miliciano e acusado de homicídio.
Segundo o MPRJ, Vitor Hugo procurou um policial militar que tinha acesso aos sistemas de câmeras da Secretaria de Segurança para tentar obter imagens que pudessem favorecer a defesa de Juninho Varão.
A intenção seria conseguir registros que mostrassem o miliciano em um restaurante em determinado horário, criando um álibi para afastá-lo do local onde o homicídio teria ocorrido.
Para os investigadores, o caso reforça a suspeita de que integrantes do grupo utilizavam contatos dentro das forças de segurança para fornecer serviços e informações a criminosos.
Ex-PMs expulsos ocuparam cargos públicos
A investigação também identificou que alguns dos suspeitos conseguiram ocupar cargos comissionados mesmo depois de terem sido expulsos da Polícia Militar ou presos por crimes.
Eduardo Thales Lopes Pires, ex-PM, foi expulso da corporação e posteriormente nomeado para um cargo comissionado na Alerj. Ele foi localizado pelos agentes em um condomínio na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio.
Vitor Hugo Marinho Garcia, apontado como um dos líderes da organização, também trabalhou no Detran. Ele ocupava um cargo na presidência do órgão e foi exonerado em maio deste ano.
O ex-PM foi preso em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Na casa dele, os agentes apreenderam um fuzil, R$ 67 mil em dinheiro e 14 celulares.
“Chama atenção do Ministério Público o desvio de integrantes formais do Estado para o crime organizado”, afirmou o promotor Bruno Humelino, do Gaesf.
Segundo o promotor, alguns dos ex-PMs já haviam sido expulsos por crimes graves e, posteriormente, voltaram a ser presos por suspeitas de extorsão e agiotagem, mesmo tendo conseguido nomeações para cargos públicos.
Quadrilha teria negociado 22 armas com Peixão
Além das investigações clandestinas, a organização é acusada de fornecer armamento para Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do Terceiro Comando Puro (TCP) e apontado como principal liderança do grupo criminoso que atua no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio.
Segundo a investigação, pelo menos 22 armas teriam sido negociadas com o traficante. Entre elas estão 13 fuzis calibre 5.56. O grupo também teria fornecido granadas e uniformes das polícias Civil e Militar.
Outro investigado, Marcel Rodrigues Fernandes, foi preso em um hotel de alto padrão na Barra da Tijuca. No quarto em que estava hospedado, os agentes encontraram um fuzil calibre 7.62.
Na residência dele, em Angra dos Reis, na Costa Verde, a polícia apreendeu outro fuzil.
Marcel apresentou à Polícia Federal registro como colecionador, atirador desportivo e caçador (CAC) e, por isso, não foi autuado pelas armas naquele momento.
O investigado também ocupou cargo comissionado na Alerj até outubro do ano passado, com remuneração média de R$ 8 mil mensais. Segundo levantamento do RJ2, ele estava lotado no gabinete do deputado Felipinho Ravis (PP), que não é investigado.
Marcel também trabalhou no Detran e foi exonerado em maio.
De acordo com a investigação, ele movimentou mais de R$ 33 milhões em cinco anos, valor considerado incompatível com seus rendimentos declarados.
Justiça bloqueia mais de R$ 250 milhões
O policial militar Johan Borja Portela, lotado no Batalhão Ambiental, também é apontado como integrante do esquema investigado.
A Justiça determinou a apreensão de quase 30 veículos e o bloqueio de mais de R$ 250 milhões em bens e valores relacionados aos investigados.
Os réus respondem, de acordo com as acusações atribuídas individualmente a cada um, por crimes como tráfico de drogas e armas, extorsão, agiotagem, violação de sigilo funcional, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
O que dizem os citados
A Polícia Militar informou que a Corregedoria da corporação participou da operação e que será instaurado procedimento administrativo para apurar a conduta do policial investigado. A instituição afirmou manter o compromisso com a lisura da tropa.
A Corregedoria da Polícia Civil informou que já instaurou processo administrativo para investigar a conduta do agente citado.
A Alerj declarou que não comenta ações policiais e judiciais que não tenham relação com o Parlamento.
O Detran informou que os investigados que ocupavam cargos no órgão foram exonerados.







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