Economia argentina caminha para recessão técnica e aumenta pressão sobre Milei

Indústria e construção reagiram em agosto, mas avanço foi insuficiente para compensar as fortes quedas registradas em julho

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A economia argentina apresentou uma recuperação em setores importantes em agosto, mas o avanço não foi suficiente para compensar as fortes perdas registradas no mês anterior. Com isso, o país caminha para uma possível recessão técnica, aumentando os desafios econômicos enfrentados pelo presidente Javier Milei antes das eleições de 2027.

A construção civil cresceu 0,4% em agosto na comparação com julho, segundo dados oficiais divulgados nesta quarta-feira (7). O resultado, porém, recuperou apenas uma pequena parcela do tombo de 4,4% registrado no mês anterior.

Na indústria manufatureira, a reação foi maior: a atividade avançou 1,9% em agosto. Ainda assim, o crescimento também ficou abaixo do necessário para compensar integralmente a queda de 5,1% observada em julho.

Os números têm peso adicional porque construção e indústria concentram a maior parcela dos trabalhadores formais do país e funcionam como indicadores relevantes do comportamento da economia real argentina.

PIB pode ter caído novamente

A possibilidade de recessão técnica aparece também nas expectativas dos economistas consultados pelo Banco Central da Argentina.

A pesquisa de expectativas de mercado divulgada nesta semana aponta para uma contração de 1% do Produto Interno Bruto entre julho e setembro em relação ao trimestre anterior.

Caso a projeção seja confirmada, será o segundo trimestre consecutivo de retração da atividade econômica, configuração normalmente utilizada para caracterizar uma recessão técnica.

Ainda não é possível, porém, afirmar oficialmente que o país entrou nesse quadro. Os números definitivos do PIB argentino referentes ao terceiro trimestre serão divulgados apenas em dezembro.

“Houve alguma recuperação tanto na indústria manufatureira quanto na construção, mas ela ficou muito longe de ser suficiente para sustentar a esperança de evitar uma recessão técnica”, afirmou Jimena Zúñiga, economista da Bloomberg Economics.

Segundo ela, apesar da elevada volatilidade dos indicadores econômicos de curto prazo, o processo de crescimento parece mais fraco do que indicavam os números de alguns meses atrás.

Previsão de crescimento despenca

Outra sinalização negativa veio das projeções para o conjunto de 2026.

Os analistas consultados pelo Banco Central reduziram a expectativa de crescimento da economia argentina para 1,5%. No fim do ano passado, a estimativa era de expansão de 3,5%.

Isso representa uma redução de dois pontos percentuais na projeção em menos de um ano.

Os dados acrescentam uma nova preocupação para Milei. O presidente argentino conseguiu reduzir a inflação em relação aos níveis de crise encontrados no início de seu mandato, mas agora enfrenta dificuldades para consolidar um ciclo mais forte de crescimento econômico.

Em entrevista à Bloomberg no mês passado, Milei minimizou as preocupações com a estagnação e destacou que a atividade ainda apresenta crescimento quando observada na comparação anual.

O presidente afirmou que esse desempenho o deixa “muito tranquilo” em relação às chances de reeleição em 2027.

Emprego entra no radar

O desempenho do mercado de trabalho também passou a ocupar espaço entre as preocupações sobre a economia argentina.

Pesquisa da AtlasIntel para a Bloomberg News mostrou que cerca de 70% dos argentinos entrevistados classificaram a situação do mercado de trabalho como ruim.

O levantamento apontou ainda aprovação de Milei em 38% em agosto, próxima dos menores níveis registrados durante sua Presidência. O argentino, no entanto, rejeitou os resultados das pesquisas, argumentando que levantamentos desse tipo não seriam confiáveis no país.

Para investidores, a evolução da atividade econômica ganha importância adicional à medida que se aproxima a campanha eleitoral de 2027.

Os próximos indicadores, especialmente os dados oficiais do PIB do terceiro trimestre que serão conhecidos em dezembro, deverão esclarecer se a recuperação registrada em agosto representou apenas uma reação pontual depois das quedas de julho ou se será suficiente para interromper a sequência de retração da economia argentina.

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