Greves, bloqueios de escolas e protestos ampliam tensão na França antes da eleição presidencial

Nesta terça-feira, manifestações ocorreram em cerca de 30 cidades e reuniram aproximadamente 260 mil pessoas, segundo o governo francês. Em Paris, foram contabilizados 56 mil participantes

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A França enfrenta uma onda de protestos, greves e bloqueios em meio a dificuldades para equilibrar as contas públicas. A crise reúne manifestações de estudantes, paralisações de servidores, bloqueios em portos e pressão nos mercados financeiros, em um cenário de instabilidade política a poucos meses da eleição presidencial.

Os protestos estudantis ganharam força nesta semana. Nesta terça-feira, manifestações ocorreram em cerca de 30 cidades e reuniram aproximadamente 260 mil pessoas, segundo o governo francês. Em Paris, foram contabilizados 56 mil participantes. Organizações estudantis apresentaram uma estimativa de 450 mil manifestantes.

O movimento também afetou as escolas. Cerca de 1.800 unidades foram parcialmente bloqueadas ou fechadas, segundo as autoridades. Os estudantes reclamam do subfinanciamento da educação, da falta de professores, das condições das instalações, da carga horária e da estrutura das salas de aula diante das mudanças climáticas.

Confrontos aumentam pressão sobre o governo

Desde o início dos protestos, no fim de setembro, houve confrontos entre manifestantes e forças de segurança. O governo francês informou que 215 estudantes, 85 integrantes do corpo docente e 715 policiais ficaram feridos.

Quase 500 pessoas foram presas durante a jornada de terça-feira, elevando para mais de 6.500 o número de detenções desde 28 de setembro, de acordo com o Ministério do Interior. Diante da mobilização, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou a suspensão das aulas do Ensino Médio por meio período entre quarta e sexta-feira.

A mobilização estudantil ocorre ao mesmo tempo em que servidores públicos protestam contra a proposta de congelamento salarial. Pescadores também bloquearam portos e terminais de combustível em reação ao aumento do preço do diesel.

Dívida e juros pressionam as contas públicas

A instabilidade social ocorre em meio à deterioração das finanças públicas francesas. A dívida do país está em torno de US$ 4 trilhões, equivalente a aproximadamente R$ 20 trilhões, ou 119% da produção econômica anual.

O aumento das taxas dos títulos públicos franceses também elevou a preocupação com o custo do endividamento. A previsão é de que o serviço da dívida chegue a cerca de US$ 100 bilhões, aproximadamente R$ 500 bilhões, em 2027.

Além da dívida, a França enfrenta aumento dos gastos com saúde e aposentadorias provocado pelo envelhecimento da população. O país também ampliou as despesas militares em razão da guerra na Ucrânia.

Governo tenta aprovar novo orçamento

Para conter o avanço do déficit, o governo de Lecornu propõe aumentar alguns impostos e congelar despesas de programas sociais, incluindo auxílio-moradia e abono de família.

A aprovação do orçamento deve exigir negociações com diferentes forças políticas. O governo também pode recorrer a mecanismos constitucionais para viabilizar a aprovação do texto.

O Reunião Nacional, partido de Marine Le Pen, terá papel importante nesse processo. A legenda possui 118 das 577 cadeiras da Assembleia Nacional, o maior número entre os partidos. Uma das possibilidades avaliadas por analistas é que parlamentares da sigla se abstenham, permitindo a aprovação do orçamento.

Marine Le Pen aparece como ameaça eleitoral

A crise fiscal também se mistura ao cenário da eleição presidencial. Pesquisas recentes apontam Marine Le Pen na liderança em diferentes cenários eleitorais, embora uma vitória no pleito ainda não seja considerada garantida.

A líder da extrema direita foi condenada por corrupção financeira, acusação que nega. Jordan Bardella, presidente do Reunião Nacional, também foi alvo de acusações de antissemitismo, que nega.

Analistas avaliam que Le Pen poderia enfrentar dificuldades em um segundo turno contra um candidato de centro. Em outra configuração, porém, o avanço simultâneo de forças de direita e esquerda radical poderia alterar a disputa e aumentar as chances da extrema direita.

Pressão sobre Macron aumenta

A crise ocorre nos últimos meses do governo de Emmanuel Macron, cuja trajetória política também passou a ser associada à expressão francesa “fin de règne”, usada para descrever o encerramento de um ciclo político.

Os problemas atuais têm semelhanças com episódios anteriores de mobilização social no país, como os protestos dos coletes amarelos, iniciados em 2018 contra o aumento dos combustíveis e posteriormente ampliados para reivindicações econômicas e políticas.

Agora, a alta dos preços de energia voltou a alimentar a insatisfação. Macron participou de uma reunião do G7 na qual os países concordaram em liberar 100 milhões de barris de diesel e petróleo bruto de seus estoques para tentar reduzir a pressão sobre os preços dos combustíveis.

Disputa sobre o futuro da União Europeia

Uma eventual vitória de Marine Le Pen também poderia provocar impactos sobre a relação da França com a União Europeia. Analistas avaliam que uma Presidência da extrema direita levantaria dúvidas sobre a participação francesa no orçamento do bloco e sobre a política europeia do país.

A comparação com o Brexit, que levou o Reino Unido a deixar a União Europeia, já aparece nas avaliações sobre a eleição francesa. Para especialistas, a combinação entre crise fiscal, instabilidade política e pressão social pode transformar a disputa presidencial em um momento decisivo para o país e para o bloco europeu.

Enquanto isso, o governo tenta responder às reivindicações dos estudantes e acusa o partido de esquerda radical A França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, de participar da mobilização. Mélenchon declarou apoio aos manifestantes, mas defendeu métodos não violentos.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também comentou os protestos. Em publicação na Truth Social, ele atribuiu a crise à imigração e ao avanço do islã na França.

A combinação entre endividamento elevado, aumento dos custos públicos, pressão dos mercados, protestos sociais e disputa eleitoral coloca o governo francês diante de uma série de decisões econômicas e políticas nos próximos meses.

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