- Uma eleição dividida em dois planos
A pesquisa Genial/Quaest realizada no Estado do Rio de Janeiro entre os dias 21 e 25 de julho de 2026 revela uma eleição organizada em dois planos muito distintos. No primeiro, Eduardo Paes aparece isolado, com uma vantagem larga, consistente e distribuída por diferentes segmentos sociais e eleitorais.
No segundo, Douglas Ruas e Anthony Garotinho disputam, em condição de empate estatístico, a possibilidade de chegar à segunda colocação. O levantamento entrevistou 1.200 eleitores fluminenses, possui margem de erro estimada em três pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Esses elementos metodológicos são fundamentais. Uma pesquisa eleitoral não é uma profecia, nem uma urna antecipada. É uma fotografia produzida segundo regras estatísticas, capturada num determinado momento da vida política.
Essa fotografia, contudo, não é estática. Ela possui luz, sombra, distância e perspectiva. Permite observar quem ocupa o centro da cena, quem aparece nas margens, quem conserva força acumulada e quem ainda procura uma forma política capaz de transformar reconhecimento em voto.
No cenário mais amplo, Eduardo Paes alcança 38%. Anthony Garotinho e Douglas Ruas aparecem com 10% cada. Os demais candidatos ficam abaixo de 3%. Há ainda 19% de eleitores indecisos e 16% que declaram intenção de votar em branco, anular o voto ou não comparecer.
A vantagem de Paes sobre cada um dos dois candidatos empatados na segunda colocação é de 28 pontos percentuais. Sua intenção de voto é quase quatro vezes superior à de Douglas Ruas e à de Anthony Garotinho.
Há outro dado de grande significado político.
A soma de Ruas e Garotinho chega a 20%. Mesmo juntos, os dois principais adversários permanecem 18 pontos abaixo de Eduardo Paes. Portanto, a liderança não decorre apenas da fragmentação da oposição. Paes possui uma posição própria, autônoma e amplamente superior.
A eleição fluminense, nesse momento, parece um território com uma montanha central e duas colinas em disputa ao redor. A montanha é Eduardo Paes. As colinas, ainda próximas em altura, são Douglas Ruas e Anthony Garotinho.
- A série histórica da Quaest e a trajetória de Eduardo Paes
A comparação entre as pesquisas Genial/Quaest de abril e julho de 2026 permite observar a linha de evolução das principais candidaturas.
Em abril, Eduardo Paes registrava 34% no cenário mais amplo. Douglas Ruas aparecia com 9% e Anthony Garotinho com 8%.
Em julho, Paes sobe para 38%, enquanto Ruas chega a 10% e Garotinho também alcança 10%. A variação nominal é clara. Eduardo Paes cresce quatro pontos percentuais. Anthony Garotinho avança dois pontos. Douglas Ruas oscila um ponto.
É necessário interpretar essas mudanças dentro da margem de erro. Oscilações pequenas não podem ser automaticamente classificadas como crescimento estatisticamente consolidado. A passagem de Ruas de 9% para 10%, por exemplo, pode representar apenas uma oscilação amostral.
O avanço de Garotinho de 8% para 10% também deve ser lido com cautela.
A variação de Eduardo Paes, de 34% para 38%, possui maior relevância política e estatística. Ainda que pesquisas distintas não devam ser comparadas como se fossem uma única medição contínua, a direção observada reforça a percepção de consolidação.
Paes não apenas permanece na liderança. Ele amplia sua distância em relação aos concorrentes e aumenta a capacidade de receber votos quando alguns nomes são retirados dos cenários estimulados.
Nos cenários mais reduzidos, Eduardo Paes chega a 42%, enquanto Douglas Ruas alcança 11%. A simplificação da disputa não produz uma concentração expressiva no candidato bolsonarista. Ao contrário, beneficia proporcionalmente o líder.
Esse movimento é central para compreender a eleição. Quando o cardápio de candidaturas diminui, parte relevante dos eleitores desloca sua preferência para Eduardo Paes. Isso demonstra que sua candidatura possui elasticidade eleitoral. Elasticidade é a capacidade de crescer para além do núcleo inicial de apoio.
Uma candidatura rígida fala apenas para os seus. Uma candidatura elástica consegue receber eleitores que não pertencem organicamente ao seu campo político, mas que a consideram aceitável, funcional ou segura.
Eduardo Paes aparece como uma embarcação capaz de recolher passageiros vindos de portos diferentes. Alguns chegam pela proximidade com o presidente Lula. Outros, pela identidade de centro. Outros, ainda, pela memória administrativa da Prefeitura do Rio de Janeiro. Há também os que não se identificam com sua trajetória, mas o consideram mais preparado do que os adversários.
A série histórica da Quaest sugere, portanto, uma trajetória de crescimento e recepção. Paes amplia seu desempenho sem depender exclusivamente da transferência de votos de uma única liderança nacional.
- A base social e política da liderança de Paes
Eduardo Paes lidera entre homens e mulheres, entre jovens, adultos e idosos, além de apresentar bom desempenho em diferentes faixas de renda e escolaridade.
Seu melhor resultado ocorre entre eleitores lulistas e segmentos de centro-esquerda. Entretanto, a candidatura também demonstra capacidade de alcançar independentes, moderados e parcelas do eleitorado de centro-direita.
Essa composição é sociologicamente relevante. O Rio de Janeiro não é uma unidade eleitoral homogênea. É um mosaico formado por metrópole, periferias, cidades médias, regiões turísticas, áreas industriais, territórios agrícolas, municípios dependentes de receitas petrolíferas e localidades marcadas pela presença de redes religiosas, policiais, militares, empresariais e comunitárias.
Uma candidatura competitiva ao Governo do Estado precisa dialogar com essa diversidade. Precisa falar com a Zona Sul e com a Baixada Fluminense, com a Região dos Lagos e com o Norte Fluminense, com o Médio Paraíba e com a Região Serrana. Precisa compreender que o estado possui muitos centros e muitas periferias.
A força de Eduardo Paes nasce da articulação entre quatro capitais políticos.
O primeiro é o capital de reconhecimento. Depois de sucessivos mandatos como prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Paes é um nome conhecido por grande parte do eleitorado estadual, especialmente na capital, que possui peso decisivo no conjunto dos votos.
O segundo é o capital administrativo. Sua imagem está associada à experiência executiva, ao manejo da máquina pública e à capacidade de coordenação de grandes projetos. Essa imagem não elimina críticas, controvérsias ou avaliações negativas, mas oferece uma credencial de governabilidade.
O terceiro é o capital de coalizão. Paes consegue circular por diferentes ambientes políticos. Dialoga com o lulismo, com setores centristas, com lideranças empresariais, com prefeitos e com grupos que não se identificam integralmente com a esquerda ou com a direita.
O quarto é o capital de aceitabilidade. Esse talvez seja o elemento mais importante da pesquisa. Paes não é apenas o candidato preferido de um grupo. É também o candidato tolerado, considerado possível ou percebido como viável por parcelas maiores da sociedade.
Nas eleições majoritárias, a aceitabilidade funciona como uma ponte. Ela permite que o eleitor deixe sua primeira preferência e caminhe para uma escolha considerada mais segura. A Quaest mostra que Eduardo Paes possui essa ponte. Douglas Ruas e Anthony Garotinho ainda precisam construí-la.
- O paradoxo do voto espontâneo
A pesquisa espontânea apresenta um dado aparentemente contraditório. Sem a apresentação dos nomes dos candidatos, 84% dos entrevistados não conseguem indicar em quem pretendem votar.
Eduardo Paes aparece com 9%. Douglas Ruas registra 3%. Anthony Garotinho tem 1%.
O número não enfraquece a liderança de Paes. Ao contrário, mostra que ele também está à frente no grau de lembrança espontânea. Seus 9% representam o triplo do percentual de Ruas e nove vezes o resultado de Garotinho.
O dado central, entretanto, é a enorme parcela sem candidato espontâneo. Isso significa que a eleição estadual ainda não ocupou plenamente a consciência cotidiana dos eleitores.
Existe uma diferença entre reconhecer um nome numa lista e lembrá-lo sem qualquer estímulo. Na pesquisa estimulada, o eleitor escolhe entre alternativas apresentadas. Na espontânea, precisa associar sozinho uma pessoa ao cargo de governador.
A distância entre os dois resultados mostra que muitos eleitores conhecem Eduardo Paes, Douglas Ruas e Anthony Garotinho, mas ainda não transformaram esse conhecimento em decisão política sedimentada.
O cenário permanece aberto à campanha, à propaganda eleitoral, aos debates, às alianças, aos acontecimentos nacionais e às disputas municipais. A Quaest também indica que 55% dos entrevistados admitem mudar de candidato, enquanto 43% afirmam possuir uma escolha definida.
Entre os eleitores de Eduardo Paes, 56% consideram a decisão definitiva. Entre os apoiadores de Douglas Ruas, o percentual chega a 61%. Entre os eleitores de Anthony Garotinho, apenas 45% dizem ter uma escolha consolidada, enquanto 53% admitem mudança. Esses dados revelam naturezas eleitorais distintas.
Douglas Ruas possui uma base pequena, mas proporcionalmente mais rígida. Eduardo Paes possui uma base muito maior e majoritariamente estabilizada. Anthony Garotinho apresenta um eleitorado numericamente competitivo com o de Ruas, porém mais móvel e sujeito a deslocamentos.
A campanha de 2026 ainda possui uma larga planície de eleitores disponíveis. A questão é saber qual candidatura terá organização, mensagem, capilaridade e credibilidade para ocupá-la.
- Douglas Ruas e a dificuldade de transformar bolsonarismo em voto estadual
Douglas Ruas possui um ativo político importante. É o candidato identificado com o campo de Flávio Bolsonaro, com o Partido Liberal e com setores conservadores organizados no Estado do Rio de Janeiro.
Essa vinculação oferece recursos eleitorais. O bolsonarismo possui presença social, religiosa, parlamentar, militar, policial e digital no território fluminense. Possui linguagem própria, lideranças reconhecidas e capacidade de mobilização.
Ruas também pode se apresentar como candidato de oposição a Eduardo Paes e ao campo político alinhado ao presidente Lula. Em uma campanha nacionalizada, essa identidade pode ajudá-lo a consolidar parte do eleitorado de direita.
Entretanto, os números mostram uma dificuldade evidente. Até julho, Douglas Ruas não conseguiu converter toda a força simbólica e eleitoral do bolsonarismo em intenção de voto para o Governo do Estado.
Seu desempenho permanece entre 9% e 11%, dependendo do cenário. Isso é pouco para uma candidatura que procura representar um campo político que já obteve votações expressivas no Rio de Janeiro.
A transferência de votos nunca é automática. Um eleitor pode votar em Flávio Bolsonaro ou em outro candidato do mesmo campo para a Presidência da República e escolher Eduardo Paes, Anthony Garotinho ou outro nome para governador.
A política estadual possui seus próprios códigos. O eleitor distingue os cargos, avalia experiências administrativas e considera relações regionais. O voto presidencial não desce mecanicamente pela chapa como água por uma calha.
Há também um problema de identidade. Douglas Ruas corre o risco de ser percebido apenas como o candidato de Flávio Bolsonaro, e não como portador de um projeto estadual próprio.
O apoio de uma liderança nacional pode abrir portas. Entretanto, para permanecer dentro da casa política do eleitor, o candidato precisa apresentar voz própria, programa reconhecível e uma narrativa específica sobre segurança pública, saúde, educação, finanças, mobilidade, desenvolvimento regional e reconstrução institucional.
Ruas ainda não demonstrou, nos números da Quaest, que conseguiu completar essa passagem.
- Desidratação eleitoral ou estagnação política?
A expressão desidratação eleitoral precisa ser usada com responsabilidade analítica. Na comparação direta entre abril e julho, Douglas Ruas não perde intenção de voto. Ele passa de 9% para 10% no cenário mais amplo. Nos cenários reduzidos, permanece entre 10% e 11%.
Portanto, não existe queda numérica comprovada pela Quaest. O conceito mais preciso é estagnação. Ruas está parado numa faixa baixa, enquanto Eduardo Paes cresce quatro pontos e Anthony Garotinho alcança o empate na segunda colocação.
Ainda assim, é possível falar em desidratação relativa. Ruas não perde necessariamente eleitores, mas perde exclusividade política. Em abril, aparecia nominalmente à frente de Garotinho. Em julho, os dois estão empatados com 10%.
A candidatura de Ruas também pode estar enfrentando uma desidratação organizacional e territorial. Há movimentos de prefeitos, vereadores, deputados e lideranças municipais que procuram aproximação com Eduardo Paes.
Em menor escala, algumas dessas forças podem se deslocar para Anthony Garotinho, especialmente em regiões onde ele conserva memória eleitoral e relações políticas antigas. É importante registrar, contudo, que a pesquisa Quaest não mede diretamente migração de apoios entre lideranças municipais.
Para afirmar que a maioria dos apoios de Douglas Ruas nos 92 municípios está migrando para Eduardo Paes, seria necessário construir um levantamento nominal, município por município.
Seria preciso identificar prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, presidentes de partidos, deputados estaduais, deputados federais e lideranças comunitárias.
Sem esse inventário, a migração deve ser tratada como uma tendência observada nos bastidores, e não como uma conclusão estatística.
A formulação mais rigorosa é esta: Douglas Ruas apresenta sinais de enfraquecimento relativo na capacidade de atrair e reter apoios territoriais, enquanto Eduardo Paes amplia sua rede política. Anthony Garotinho aparece como destino secundário de parte desses deslocamentos, principalmente em áreas onde possui vínculos históricos.
A candidatura de Ruas assemelha-se a uma árvore que ainda conserva folhas, mas encontra dificuldades para expandir sua copa. A de Paes, ao contrário, estende galhos em várias direções e produz sombra sobre campos eleitorais distintos.
- Ricardo Couto e a nova arquitetura institucional do estado
A conjuntura eleitoral não pode ser compreendida sem considerar o papel do desembargador Ricardo Couto como governador interino do Estado do Rio de Janeiro.
O que inicialmente parecia uma interinidade breve transformou-se numa administração de longa duração política. Sua permanência no Palácio Guanabara alterou o equilíbrio entre Executivo, Legislativo, partidos e estruturas administrativas.
Ricardo Couto passou a promover auditorias, exonerações, revisão de órgãos, reorganização fiscal e investigação de possíveis irregularidades. Também apontou a existência de uma espécie de captura do Executivo por interesses parlamentares, marcada pela disputa de deputados por secretarias e espaços de poder.
A redução de milhares de cargos de indicação política e a revisão das estruturas estaduais modificaram a ecologia eleitoral. A política fluminense sempre foi fortemente influenciada pelo controle de secretarias, autarquias, fundações, contratos, convênios, nomeações e relações com prefeituras.
Esses instrumentos funcionavam como canais de irrigação do poder territorial. Quando o governo interino fecha ou redireciona esses canais, as antigas redes perdem capacidade de sustentação. Prefeitos e parlamentares passam a buscar novos pontos de apoio.
Essa reorganização não deve ser interpretada como uma ação eleitoral de Ricardo Couto em favor de Eduardo Paes. O governador interino ocupa uma função institucional, não uma candidatura partidária. Entretanto, os efeitos indiretos podem favorecer Paes.
A retirada da máquina estadual das mãos de grupos ligados ao ciclo político anterior enfraquece candidaturas dependentes dessa estrutura. Também aumenta a importância do discurso de competência administrativa, reconstrução fiscal e reorganização do Estado.
Nesse terreno, Eduardo Paes aparece melhor posicionado. Possui experiência executiva, relações federativas, capacidade de articulação e uma narrativa de gestão.
Douglas Ruas, por sua vez, perde a possibilidade de disputar apoiado por uma máquina estadual estável e politicamente alinhada. Precisa construir sua candidatura num ambiente em que estruturas antigas foram desmontadas ou submetidas a controle.
A gestão de Ricardo Couto funciona como uma ponte institucional entre um ciclo que se encerra e outro que ainda não começou. Essa ponte não pertence a nenhum candidato, mas seu desenho favorece quem melhor consegue apresentar-se como administrador de uma nova ordem.
- O empate estrutural entre Douglas Ruas e Anthony Garotinho
Douglas Ruas e Anthony Garotinho registram 10% no cenário mais amplo da Quaest. Considerando a margem de erro de três pontos percentuais, não existe qualquer base estatística para afirmar que um esteja à frente do outro.
O empate é numérico, político e estrutural.
É numérico porque os dois aparecem com o mesmo percentual.
É político porque representam tradições distintas da direita popular fluminense.
Douglas Ruas expressa uma direita bolsonarista, recente, nacionalizada, partidária e fortemente digital. Sua principal fonte de energia vem da associação com Flávio Bolsonaro e com o PL.
Anthony Garotinho representa uma tradição anterior. Sua trajetória mistura personalismo, comunicação popular, presença religiosa, atuação radiofônica, políticas sociais, redes municipais e forte identidade com o Norte Fluminense.
É também um empate territorial. Ruas depende da estrutura atual do PL e da capacidade de transferência do bolsonarismo. Garotinho possui memória eleitoral própria, especialmente em Campos dos Goytacazes e em regiões onde governou, fez campanha e construiu relações ao longo de décadas.
Há ainda um empate comunicacional. Douglas Ruas utiliza a marca Bolsonaro como selo de identificação. Garotinho oferece uma voz pessoal, reconhecida pelo eleitorado e alimentada por presença digital, comentários políticos e ativismo presencial.
Nos cenários de segundo turno, Garotinho aparece com 18% contra Eduardo Paes, enquanto Douglas Ruas registra 16%. A diferença de dois pontos está dentro da margem de erro. Portanto, também nesse teste não é possível afirmar superioridade estatística de um sobre o outro. O segundo lugar permanece aberto. Não existe, neste momento, um adversário único e consolidado de Eduardo Paes.
- Anthony Garotinho entre a memória e o presente
Anthony Garotinho é uma das figuras mais conhecidas da história política do Estado do Rio de Janeiro. Sua candidatura opera em dois tempos. O primeiro é o tempo da memória. Nele estão a Prefeitura de Campos dos Goytacazes, o Governo do Estado, a candidatura à Presidência da República, os programas de rádio, as políticas sociais e a construção de uma identidade popular que marcou a política fluminense durante muitos anos.
O segundo é o tempo presente. Garotinho mantém presença nas redes sociais, produz análises políticas, participa de encontros, visita municípios e procura reativar antigas alianças. Ele não vive apenas da lembrança.
Trabalha para converter a lembrança em mobilização contemporânea.
Essa combinação ajuda a explicar seus 10%. Garotinho consegue empatar com Douglas Ruas, apesar de não possuir o mesmo apoio partidário nacional, porque carrega uma marca política própria.
Sua voz não precisa ser apresentada ao eleitor como novidade. Ela já faz parte da paisagem sonora da política fluminense. Para muitos, é uma voz familiar. Para outros, é uma voz associada a controvérsias e conflitos do passado. Essa é, ao mesmo tempo, sua força e sua fraqueza.
A força está no reconhecimento, na capilaridade histórica e na autonomia política. A fraqueza está na elevada exposição, na rejeição acumulada e na dificuldade de renovar sua imagem diante das novas gerações.
Garotinho é uma espécie de arquivo vivo da política estadual. Cada eleitor abre esse arquivo de maneira diferente. Alguns encontram políticas sociais e identidade popular. Outros encontram conflitos, denúncias e desgaste.
Sua campanha dependerá da capacidade de organizar a memória favorável sem permitir que a rejeição ocupe toda a narrativa.
- A rejeição impede Garotinho de chegar ao segundo lugar?
A resposta estatística e política é não. Uma rejeição elevada reduz o teto eleitoral e dificulta o crescimento, sobretudo em um segundo turno. Entretanto, não torna impossível alcançar a segunda colocação no primeiro turno.
Para ficar em segundo lugar, Anthony Garotinho não precisa ser aceito pela maioria do eleitorado. Precisa obter mais votos do que Douglas Ruas e os demais concorrentes.
A própria pesquisa mostra que ele já está empatado com Ruas, ambos com 10%. Logo, não há qualquer base lógica para classificar sua chegada ao segundo lugar como impossível.
O verdadeiro problema de Garotinho aparece na expansão posterior.
No cenário de segundo turno contra Eduardo Paes, Garotinho tem 18%, enquanto Paes registra 48%. Há ainda 23% de brancos, nulos ou abstenções declaradas e 11% de indecisos.
A rejeição pode impedir que Garotinho receba votos de candidaturas eliminadas. Pode estimular o voto útil em outro candidato. Pode também transformar sua eventual chegada ao segundo turno em uma disputa de baixa competitividade.
Entretanto, sua candidatura ainda possui uma reserva eleitoral possível. Como apenas 45% de seus apoiadores consideram o voto definitivo, existe instabilidade. Essa instabilidade pode produzir perdas, mas também permite crescimento.
Garotinho está num terreno arenoso. Pode perder espaço com facilidade, mas também pode encontrar caminhos por regiões nas quais Douglas Ruas ainda não construiu presença suficiente.
- Os cenários de segundo turno
Nos testes de segundo turno, Eduardo Paes vence os dois principais adversários por larga margem. Contra Anthony Garotinho, Paes aparece com 48%, enquanto Garotinho registra 18%. A vantagem é de 30 pontos percentuais.
Contra Douglas Ruas, Paes chega a 52%, enquanto Ruas possui 16%. A vantagem sobe para 36 pontos. Esses dados demonstram que a liderança de Eduardo Paes não está restrita ao primeiro turno. Ele também possui maior capacidade de agregar eleitores quando a disputa é reduzida a dois nomes.
O confronto com Douglas Ruas produz uma votação maior para Paes do que o confronto com Garotinho. Uma hipótese plausível é que Ruas estimule maior polarização nacional.
Diante de um candidato claramente identificado com o bolsonarismo, eleitores lulistas, centristas, independentes e moderados podem convergir mais intensamente para Eduardo Paes.
Garotinho produz uma geometria diferente. Sua candidatura pertence a uma tradição própria da política fluminense. Não se encaixa integralmente no esquema nacional entre lulismo e bolsonarismo.
Mesmo assim, o resultado é igualmente desfavorável ao ex-governador.
Eduardo Paes demonstra, nos dois cenários, uma capacidade superior de acolher votos transferidos. Ele aparece como um recipiente político de boca larga, enquanto os adversários ainda operam com recipientes menores, limitados por rejeição, identidade ideológica ou baixa capilaridade.
- Os demais candidatos e a dignidade do pluralismo
Os candidatos situados abaixo de 3% não devem ser tratados como figuras decorativas. A democracia não existe apenas para confirmar os favoritos. Ela também oferece espaço para a apresentação de ideias, valores, projetos alternativos e críticas ao poder dominante.
Candidaturas minoritárias podem inserir temas ignorados pelos líderes, representar segmentos sociais específicos, pressionar programas de governo e formar novas lideranças.
William Siri, André Marinho, Juliete Pantoja e os demais nomes apresentados nos diferentes cenários exercem legitimamente o direito de disputar a direção política do Estado do Rio de Janeiro. Entre eles, Cyro Garcia merece um destaque positivo.
Professor, sindicalista e militante histórico, Cyro representa uma tradição socialista, classista e independente. Sua trajetória está ligada às lutas dos trabalhadores, à defesa dos serviços públicos, ao movimento sindical e à crítica das desigualdades sociais.
Seu desempenho eleitoral reduzido não diminui a importância de sua presença. A democracia também se mede pela diversidade dos projetos disponíveis, e não apenas pelo tamanho inicial de cada candidatura.
Uma eleição sem vozes minoritárias seria como uma biblioteca formada por um único livro. Poderia possuir muitas páginas, mas teria pouca imaginação política.
- A disputa pelos 92 municípios
A eleição para governador não será decidida apenas na capital. O Estado do Rio de Janeiro possui 92 municípios, cada um com dinâmicas próprias, lideranças locais, interesses econômicos, identidades regionais e redes políticas específicas.
Eduardo Paes procura expandir sua influência a partir da capital para o conjunto do território estadual. Sua estratégia depende de alianças com prefeitos, vereadores, parlamentares e grupos municipais.
Douglas Ruas precisa impedir que o PL seja reduzido a uma força nacional sem suficiente enraizamento estadual. O apoio de Flávio Bolsonaro pode abrir palanques, mas não substitui o trabalho municipal.
Anthony Garotinho busca reativar vínculos antigos e reconstruir sua presença no interior. Sua força potencial está justamente nas áreas onde a memória de seus governos e de sua atuação política permanece viva. Os movimentos de apoio tendem a beneficiar Eduardo Paes em maior escala.
Sua liderança nas pesquisas, sua experiência administrativa e sua capacidade de formar coalizões oferecem segurança às lideranças locais.
Em menor dimensão, Garotinho também pode receber apoios de grupos que não desejam aderir a Paes, mas que não se sentem representados por Douglas Ruas.
A política municipal costuma seguir uma lógica pragmática. Prefeitos e vereadores observam quem possui chance de vitória, capacidade de governar, acesso ao Governo Federal e condições de manter relações institucionais.
Nesse tabuleiro, Eduardo Paes começa com uma vantagem considerável.
Contudo, é necessário separar percepção e comprovação. Para demonstrar quantitativamente a migração de apoios, será indispensável construir uma cartografia política dos 92 municípios. Sem essa cartografia, a tendência pode ser descrita, mas não transformada em número definitivo.
- A eleição ainda não está encerrada
A Genial/Quaest de julho mostra uma liderança consolidada, mas não uma eleição concluída. Eduardo Paes lidera todos os cenários, cresce na série histórica, amplia seu percentual quando o número de candidatos diminui e vence com larga vantagem nos testes de segundo turno.
Douglas Ruas permanece estagnado numa faixa entre 9% e 11%. Possui uma base ideologicamente mais firme, mas ainda não conseguiu transformar o potencial do bolsonarismo em hegemonia no campo oposicionista.
Anthony Garotinho empata com Ruas, preserva reconhecimento histórico e demonstra capacidade de mobilização contemporânea. Sua rejeição restringe o crescimento, mas não impede matematicamente a chegada à segunda colocação.
Os demais candidatos mantêm viva a pluralidade democrática e contribuem para que a eleição não seja apenas uma contabilidade de favoritos.
Ricardo Couto reorganiza institucionalmente o estado, desmonta redes antigas, reduz espaços de indicação política e cria uma conjuntura na qual a experiência administrativa ganha maior valor.
Nesse ambiente, Eduardo Paes aparece como o principal beneficiário indireto. Não porque o governo interino trabalhe por sua candidatura, mas porque a nova ordem institucional enfraquece grupos dependentes da máquina e favorece quem consegue representar estabilidade, gestão e capacidade de reconstrução.
Ainda assim, 84% dos eleitores não indicam espontaneamente um candidato. Mais da metade admite mudar de voto. Esses números mostram que existe uma vasta área de incerteza.
A eleição fluminense permanece como um rio largo. Eduardo Paes navega à frente, com corrente favorável e embarcação mais robusta. Douglas Ruas e Anthony Garotinho disputam a segunda posição, cada um com seus remos, seus mapas e suas limitações. Os demais candidatos mantêm abertas outras margens, outras vozes e outras possibilidades.
A liderança de Paes é real, ampla e crescente. A disputa pelo segundo lugar é rigorosamente equilibrada. O resultado final, contudo, ainda depende da campanha, das alianças, dos debates, das crises, dos acontecimentos nacionais e da capacidade de cada candidatura chegar aos diferentes territórios sociais do Estado do Rio de Janeiro.
Pesquisa não é destino. É sinalização. A Genial/Quaest acende, neste momento, uma luz clara sobre a estrada eleitoral: Eduardo Paes está muito mais próximo de transformar liderança em hegemonia do que Douglas Ruas ou Anthony Garotinho estão de transformar o segundo lugar em alternativa efetiva de poder.
Mas o voto, como toda construção humana, conserva uma parte de liberdade, surpresa e invenção. É nesse espaço que a política continuará sendo escrita.
Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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