Opinião

Quando até os portelenses se emocionam

Às vésperas de mais uma disputa eleitoral, o país convive com o desgaste da polarização, enquanto manifestações culturais como o carnaval e o futebol revelam a persistência de laços capazes de unir adversários e renovar a esperança coletiva.

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* Paulo Baía

Junho de 2026 tem alguma coisa das plataformas da Central do Brasil quando o fim da tarde começa a pousar sobre a cidade. Há trens chegando, outros se despedindo, vendedores de café anunciando suas garrafas térmicas e passageiros carregando nas mãos a pressa e as pequenas esperanças do cotidiano. Os prefeitos e vereadores eleitos em outubro de 2024 já carregam quase dois anos de mandatos. O presidente da República, os governadores, deputados estaduais e federais, dois terços do Senado e os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal aproximam-se do encerramento do ciclo iniciado em janeiro de 2023. Em fevereiro de 2027, uma nova legislatura ocupará os plenários e cinquenta e quatro novos senadores encontrarão os vinte e sete que continuarão em seus mandatos até 2030. Outro capítulo da República abrirá suas páginas. As urnas serão abertas apenas em outubro, mas as campanhas já começaram desde os primeiros dias deste ano. Elas estão nas viagens, nos discursos, nas pesquisas e até nas conversas aparentemente distraídas das mesas de bar. O Brasil possui uma característica singular. Antes que uma eleição termine, a seguinte já começa a ser sonhada. Somos uma República que nunca deixa de anunciar outra República.

Max Weber enxergava a política como vocação. A frase parece simples, mas carrega uma exigência enorme. Governar nunca foi um exercício de vaidade, nem um desfile de egos, nem uma indústria de ressentimentos. Governar é carregar responsabilidades diante dos vivos, respeitar as heranças dos mortos e assumir compromissos com aqueles que ainda nem nasceram. Poucas tarefas exigem tanta inteligência e tanta delicadeza. Os governantes administram orçamentos e repartições, mas também governam medos, sonhos, memórias e esperanças.

Escrevo estas linhas sem espírito de torcida partidária. Sou Flamengo. O futebol permite exageros. Já abracei desconhecidos depois de gols improváveis e transformei derrotas em dramas particulares. A política exige outro comportamento. A sociologia política jamais prometeu neutralidade absoluta. Prometeu algo mais difícil e mais honesto. A capacidade de compreender sem se deixar sequestrar pelas paixões do instante.

E o Brasil de 2026 é um país cansado.

Esse cansaço mora nas amizades interrompidas e nas famílias que aprenderam a mudar de assunto para preservar os afetos. Mora nas conversas interrompidas antes que a temperatura suba. Mora nas mesas da Praça São Salvador, nos botequins da Tijuca, nas esquinas de Madureira, nos trens que passam por Realengo, nas tardes de Sepetiba, nas ruas de Duque de Caxias e Belford Roxo, nos quintais de Xerém, nas rodas de Nilópolis, nos cafés de Petrópolis e nas manhãs frias de Nova Friburgo. Mora no horizonte largo de Campos dos Goytacazes, nas praias de Búzios, nas pedras de Paraty, nas águas de Angra dos Reis, nas madrugadas da Lapa e nos fins de tarde de Copacabana, onde o mar continua ensinando aos homens que nenhuma onda, por mais forte que seja, dura para sempre. Há um Brasil que grita e há outro que guarda silêncio. E o silêncio, frequentemente, pesa mais do que os gritos.

As palavras começaram a chegar cansadas ao fim do expediente. Democracia, liberdade, justiça, verdade, povo, igualdade, soberania, ética pública, eficiência, corrupção, autoritarismo e ditadura pareciam operários antigos saindo de uma fábrica depois de um turno excessivamente longo. Haviam carregado nas costas guerras e paixões que nunca lhes pertenceram. Fascismo e fascista sofreram um destino ainda mais curioso. Repetidas em todas as direções, transformadas em atalhos emocionais, passaram a significar tudo e nada ao mesmo tempo. Investigação e inquérito também perderam parte da densidade que possuíam. Arrastadas para os tribunais das redes sociais e para os espetáculos cotidianos da indignação, foram submetidas ao uso excessivo, genérico e vulgar. Nenhuma palavra foi feita para viver em estado permanente de batalha.

As eleições de outubro acontecerão nesse ambiente. Mas a vida brasileira continua ensinando coisas que os profissionais da amargura se recusam a aprender. O futebol e o carnaval conhecem segredos que a ciência política, às vezes, esquece. Os jogos aparentemente perdidos podem ser virados. Os carnavais desacreditados podem terminar em apoteose. Os marasmos da vida não possuem a última palavra.

Quem já viu a Mangueira entrar na Marquês de Sapucaí conhece esse mistério. O verde e rosa parece iluminar a avenida inteira. Os mangueirenses choram. E até os portelenses, orgulhosos de sua águia azul e branca, se emocionam. O mesmo acontece com os apaixonados pelo Salgueiro, pela Beija-Flor de Nilópolis, pela Viradouro, pela Acadêmicos do Grande Rio, pela Mocidade Independente de Padre Miguel e pelo velho Império Serrano, que guarda em Madureira uma parte da alma do samba brasileiro. Existem instantes em que a beleza suspende as rivalidades. A arte produz armistícios sentimentais. Uma República também deveria ser assim. Não um lugar onde desaparecem as diferenças, mas uma casa onde diferentes conseguem se emocionar diante daquilo que é maior do que eles próprios.

O mesmo acontece quando o Cacique de Ramos ocupa as ruas da cidade e transforma a alegria em patrimônio coletivo. O mesmo acontece quando um gol improvável do Flamengo aos quarenta e oito minutos faz desconhecidos se abraçarem como velhos amigos. O futebol e o carnaval carregam uma sabedoria antiga. Eles conhecem as reviravoltas da existência. Conhecem a arte de derrotar o desânimo.

As campanhas eleitorais que já começaram poderiam aprender alguma coisa com essas liturgias populares. Poderiam ser intensas sem serem brutais. Poderiam ser apaixonadas sem serem odientas. Poderiam ser vibrantes sem se transformarem em guerras civis emocionais. A política não precisa ser um velório permanente. Ela pode voltar a ser uma celebração da convivência.

A vida, felizmente, continua sendo maior do que os sacerdotes do ressentimento. A Copa do Mundo de futebol acontece neste momento e um goleiro da seleção da Nigéria já se transformou em um dos campeões afetivos do torneio. Sua beleza, seu carisma e sua presença seduziram multidões em diferentes países. Homens e mulheres, jovens e idosos, gente anônima e figuras públicas deixaram escapar sorrisos e comentários bem-humorados diante daquele espetáculo inesperado. Entre essas pessoas, uma escritora de oitenta anos, símbolo da cidade do Rio de Janeiro, revelou com a leveza dos que permanecem jovens por dentro que gostaria de dançar um rock com aquele homem. Ao mesmo tempo, uma atriz jovem, bonita e talentosa, tomada pelo mesmo espanto alegre que acompanha os seres humanos quando a beleza surge diante dos olhos, deixou escapar uma exclamação que vale por uma pequena crônica sobre a felicidade. Diante do goleiro nigeriano que conquistou multidões nesta Copa do Mundo, ela reagiu com humor, entusiasmo e espontaneidade, dizendo para o mundo que Jesus a abane.

Os profissionais da tristeza provavelmente olharão essas cenas com ironia. Mas existe ali uma pequena lição sobre a condição humana. A escritora que é um símbolo do Rio de Janeiro e a jovem atriz talentosa pertencem a gerações diferentes, mas foram unidas pela mesma capacidade de encantamento. Existe algo de eternamente jovem nisso. Existe uma recusa em aceitar que a vida deva ser administrada pelos especialistas em ressentimento. Uma sociedade começa a envelhecer quando perde a capacidade do espanto.

O Brasil nunca foi uma invenção dos ressentidos. Foi construído por gente que faz samba depois das tragédias, por gente que se abraça nos estádios, por gente que continua amando depois das decepções e por gente que ainda é capaz de sorrir diante da beleza inesperada da vida.

A esperança, palavra tão desprestigiada em nosso tempo, continua sendo uma das últimas reservas morais da experiência humana. É ela que faz mães e pais seguirem em frente. É ela que sustenta os sonhos dos jovens e aquece as memórias dos mais velhos. É ela que permite recomeçar depois das derrotas e continuar amando depois das decepções. A esperança não é ingenuidade. É coragem. E a alegria também é uma forma de inteligência.

Que as campanhas eleitorais de outubro de 2026, que já começaram desde os primeiros dias deste ano, tenham a beleza da Mangueira entrando na avenida e emocionando até portelenses, salgueirenses, beija-florenses, torcedores da Viradouro, da Grande Rio, da Mocidade e do Império Serrano. Que tenham a irreverência do Cacique de Ramos nas ruas da cidade. Que tenham a explosão de felicidade de um gol improvável do Flamengo. Que tenham a juventude indomável de uma escritora de oitenta anos que ainda deseja dançar um rock e o entusiasmo encantado de uma atriz jovem, bonita e talentosa que, diante da beleza inesperada do mundo, exclama que Jesus a abane. Porque a República brasileira não nasceu para ser um tribunal permanente de ressentimentos. Ela nasceu para ser uma casa comum. E casas comuns precisam de memória, de conversa, de afeto e de esperança.

A mais bela vocação da política continua sendo cuidar da vida. E é essa alegria teimosa, exuberante e generosa que continua impedindo que o Brasil deixe de acreditar em si mesmo. Os profissionais da tristeza jamais compreenderão esse mistério. Mas é ele que faz uma escola de samba emocionar seus rivais, um gol improvável transformar desconhecidos em irmãos e um goleiro da Nigéria seduzir multidões e arrancar de uma escritora símbolo do Rio de Janeiro o desejo de dançar um rock e de uma atriz jovem, bonita e talentosa uma exclamação apaixonada. É ele que faz os brasileiros continuarem apostando na vida, mesmo quando tudo parece recomendar o contrário. Porque, ao fim e ao cabo, a esperança é uma forma de coragem. E a alegria também é uma forma de inteligência.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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