Opinião

Quando a Sociologia devolve o direito de pensar

Pablo Ortellado devolve ao debate público uma das maiores virtudes da boa Sociologia: a capacidade de separar conceitos, desfazer confusões analíticas e restituir a complexidade de fenômenos que, muitas vezes, foram reduzidos a dogmas

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* Paulo Baía

Há manhãs em que um texto reorganiza o olhar. Foi o que aconteceu comigo ao ler “Como os movimentos se tornaram inquestionáveis”, de autoria de Pablo Ortellado, publicado na editoria de Opinião do jornal O Globo, em 17 de julho de 2026. Nem sempre um artigo de jornal consegue produzir esse efeito. Este consegue. Não apenas porque aborda um dos temas mais delicados da vida pública contemporânea, mas porque o faz com a serenidade intelectual de quem sabe que compreender é sempre mais difícil do que julgar.

Vivemos uma época em que as opiniões circulam em velocidade superior à reflexão. As palavras chegam antes das ideias. Os rótulos costumam anteceder os argumentos. As identidades passam a valer mais do que os conceitos. Nesse ambiente, cresce a tentação de transformar convicções em verdades indiscutíveis e causas legítimas em territórios protegidos contra qualquer forma de crítica. É exatamente nesse ponto que o artigo de Pablo Ortellado oferece uma contribuição valiosa ao debate público.

Pablo Ortellado sabe o que uma boa Sociologia faz. Pablo Ortellado devolve ao debate público uma das maiores virtudes da boa Sociologia: a capacidade de separar conceitos, desfazer confusões analíticas e restituir a complexidade de fenômenos que, muitas vezes, foram reduzidos a dogmas. Essa talvez seja a maior qualidade do seu texto. Em vez de alimentar simplificações, ele convida o leitor a abandonar certezas confortáveis para recuperar o exercício da dúvida, da distinção conceitual e da inteligência crítica.

O artigo não combate movimentos sociais, tampouco questiona a legitimidade das lutas democráticas. Sua preocupação é outra. Pablo Ortellado examina um fenômeno característico do nosso tempo. O momento em que determinadas identidades políticas ou determinados movimentos passam a ocupar um lugar simbólico que parece dispensá-los do contraditório. Quando isso acontece, deixa de existir apenas uma defesa de causas. Surge também uma espécie de blindagem moral que dificulta o próprio exercício da crítica.

Essa reflexão possui alcance muito maior do que o episódio imediato que lhe serve de contexto. Ela diz respeito à maneira como sociedades democráticas constroem legitimidades, organizam conflitos e preservam o pluralismo. Nenhuma democracia madura pode abrir mão do direito de questionar. Nenhuma tradição intelectual comprometida com a liberdade pode aceitar que existam sujeitos, instituições ou movimentos colocados acima da crítica. O pensamento social nasceu precisamente para evitar que a vida coletiva fosse aprisionada por verdades definitivas.

Como sociólogo, reconheço nesse artigo uma tradição intelectual que remonta aos melhores momentos das Ciências Sociais. A tradição que distingue análise de adesão, conceito de palavra de ordem, investigação de propaganda. A Sociologia nunca foi uma ciência destinada a confirmar certezas. Sua vocação sempre consistiu em iluminar aquilo que parecia natural, revelar ambiguidades e mostrar que a realidade social é mais rica e mais contraditória do que sugerem os discursos organizados em torno de campos ideológicos.

Talvez seja exatamente por isso que a leitura do texto provoque uma sensação rara. O leitor termina o artigo com mais perguntas do que respostas. E isso não representa uma fragilidade. Representa sua maior força. Um bom texto sociológico não oferece conforto intelectual. Oferece instrumentos para pensar melhor.

Também merece destaque a forma como Pablo Ortellado escreve. Sua linguagem é clara, elegante e acessível, sem abrir mão da precisão analítica. Há equilíbrio entre rigor conceitual e comunicação pública. Qualidade cada vez menos frequente em um tempo que costuma premiar o excesso de ruído e a fabricação de certezas instantâneas.

Considero que “Como os movimentos se tornaram inquestionáveis”, publicado por Pablo Ortellado em O Globo, no dia 17 de julho de 2026, é uma leitura necessária para todos aqueles que valorizam o pensamento crítico e a democracia. O artigo merece circular amplamente porque demonstra que o debate público não se fortalece quando elimina o dissenso. Fortalece-se quando recupera a capacidade de distinguir, argumentar, ouvir e pensar.

Ao terminar a leitura, permaneceu comigo uma impressão simples. Ainda existe espaço para uma Sociologia que não renuncia ao rigor nem ao compromisso com a vida pública. Uma Sociologia que prefere compreender antes de condenar, distinguir antes de classificar e refletir antes de aderir. É essa tradição que Pablo Ortellado reafirma em seu artigo. E é exatamente por isso que sua leitura merece ser compartilhada.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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