PF amplia cerco sobre filme de Bolsonaro e cobra da Ancine dados sobre financiamento e responsáveis

Investigadores deram dez dias para agência detalhar situação de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente que virou foco de crise na campanha de Flávio Bolsonaro após revelações sobre R$ 61 milhões captados junto a Daniel Vorcaro

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A Polícia Federal ampliou a investigação em torno de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, e determinou prazo de dez dias para que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) forneça informações sobre a produção, informa Malu Gaspar em sua coluna no jornal O Globo. Entre os pontos de interesse estão a situação jurídica da obra, as empresas e pessoas envolvidas, o financiamento e a eventual utilização de recursos públicos ou incentivos fiscais.

O pedido faz parte da investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça. O longa, que tem lançamento previsto para depois das eleições, a partir de novembro, passou a ocupar o centro de uma controvérsia política após a divulgação de informações sobre recursos obtidos junto ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Em ofício de duas páginas assinado na última terça-feira (18), os investigadores solicitaram que a Ancine “esclareça a situação jurídica atual” do longa perante a agência, “bem como o cronograma de execução da obra eventualmente informado ao órgão regulador”.

A PF também pediu informações sobre registro, “comunicação de produção, certificação ou qualquer outro procedimento administrativo relacionado à obra cinematográfica”.

PF busca responsáveis e origem dos recursos

Uma das principais frentes abertas pelos investigadores é identificar todas as pessoas físicas e jurídicas formalmente vinculadas a “Dark Horse”. A Polícia Federal quer informações sobre produtores, coprodutores, distribuidoras, representantes legais e demais participantes registrados nos sistemas da Ancine.

Outro questionamento é se a produção recebeu incentivos fiscais, recursos públicos federais ou “quaisquer benefícios vinculados às políticas públicas de financiamento do setor”.

A apuração ocorre depois de o filme provocar uma crise na campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Mensagens divulgadas anteriormente mostraram o candidato cobrando recursos de Daniel Vorcaro que seriam destinados à produção cinematográfica.

Após uma série de reportagens do Intercept Brasil, Flávio reconheceu ter captado R$ 61 milhões de Vorcaro. Segundo as informações divulgadas, os recursos foram transferidos por meio de uma empresa ligada ao empresário para um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.

Uma das linhas investigadas pela PF é se parte do dinheiro destinado formalmente ao projeto cinematográfico teria sido utilizada para custear despesas de Eduardo durante sua permanência nos Estados Unidos. A investigação busca esclarecer o caminho dos recursos e a razão da utilização do fundo como intermediário.

O episódio transformou o longa em munição eleitoral para aliados do presidente Lula e em um problema para a campanha de Flávio Bolsonaro, que passou a enfrentar questionamentos sobre a origem e a destinação do financiamento.

Ancine já autuou produtora

A investigação federal encontra uma produção que já estava sob escrutínio administrativo da Ancine. Em 28 de julho, a agência abriu um processo e autuou a Go Up Entertainment por irregularidades relacionadas às gravações realizadas no Brasil.

O auto de infração da Superintendência de Fiscalização e Combate à Pirataria aponta como irregularidade “produzir no Brasil a obra cinematográfica estrangeira DARK HORSE sem comunicar o fato à ANCINE.”

Pelas normas do setor, produções internacionais filmadas no território brasileiro devem ficar sob responsabilidade de uma empresa registrada na Ancine. Também é necessária a comunicação da produção, acompanhada de documentos como contrato, plano de filmagem e passaportes dos profissionais estrangeiros contratados.

Segundo as informações disponíveis, esses procedimentos não foram cumpridos no caso de “Dark Horse”. A autuação pode resultar na aplicação de multa entre R$ 2 mil e R$ 100 mil.

Procurada, a Go Up afirmou que “pretende colaborar com as investigações e esclarecer no que for necessário dentro das possibilidades da produtora”, mas acrescentou que “se reserva nos seus direitos constitucionais e legais, especialmente quanto à vedação de fishing expedition”.

O advogado da empresa, Ricardo Sayeg, afirmou que o projeto passa atualmente por uma nova fase comercial.

“O filme ‘Dark Horse’ é uma produção cinematográfica norte-americana e encontra-se, neste momento, em uma nova etapa de estruturação comercial. A Europa Filmes está trabalhando no início do planejamento de comercialização e distribuição da obra no mercado brasileiro. Simultaneamente, nos Estados Unidos, também estão em andamento os procedimentos de registro e classificação indicativa da obra, como parte da preparação para sua exploração comercial. A expectativa é de que essa etapa seja concluída nos EUA até o final deste mês”, afirmou o advogado da Go Up, Ricardo Sayeg.

Produtora e instituto entram no radar

A trajetória das organizações envolvidas na produção também passou a receber atenção. A Go Up Entertainment pertence à jornalista Karina Ferreira da Gama, que, segundo as informações disponíveis, não havia lançado anteriormente nenhum filme no Brasil ou no exterior.

Karina chegou ao projeto por intermédio do deputado federal Mário Frias (PL-SP), responsável pelo roteiro de “Dark Horse”.

A jornalista também preside o Instituto Conhecer Brasil. A entidade entrou no radar do STF devido ao repasse de R$ 2 milhões em emendas enviadas pelo deputado para produção de filmes.

Embora tenha registro na Ancine desde 2020, o instituto também não havia lançado produções cinematográficas no Brasil ou no exterior.

Esses elementos aumentam o interesse dos investigadores em reconstruir formalmente a estrutura empresarial e financeira que permitiu a realização do longa.

Filme terá lançamento de grande porte

Apesar das controvérsias, a distribuição comercial de “Dark Horse” continua em preparação. Em 22 de junho, a Europa Filmes apresentou à Ancine pedido de “registro de obra estrangeira” (ROE) para permitir a exibição da produção nos cinemas brasileiros.

O planejamento prevê um lançamento de grande porte, com pelo menos 650 salas e cópias dubladas distribuídas pelo país. A dimensão pretendida colocaria o longa em um patamar de lançamento semelhante ao alcançado por grandes produções nacionais.

O trailer mostra que parte da produção foi filmada no Brasil, com diálogos em inglês e elenco majoritariamente estrangeiro. Jair Bolsonaro é interpretado pelo ator americano Jim Caviezel, conhecido internacionalmente por interpretar Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, dirigido por Mel Gibson.

A Europa Filmes trabalha com três projeções para o desempenho comercial. No cenário considerado pessimista, seriam aproximadamente 800 mil espectadores. A estimativa intermediária varia entre 1,5 milhão e 2 milhões de pessoas. Na previsão mais otimista, o público superaria a marca de 2 milhões.

O diretor-geral da distribuidora, Wilson Feitosa, sustenta que “Dark Horse” não deve ser tratado como propaganda bolsonarista. O material divulgado até agora, porém, apresenta a obra como um thriller político ambientado durante a campanha presidencial de 2018 e dá destaque ao atentado sofrido por Bolsonaro em Juiz de Fora, Minas Gerais.

Flávio tem participação discreta no longa

Apesar do impacto do caso sobre sua campanha presidencial, Flávio Bolsonaro teria participação reduzida na trama. O personagem inspirado no senador aparece de forma secundária e com poucos diálogos.

Michelle Bolsonaro, por outro lado, teria presença significativamente maior na narrativa.

Após integrantes da campanha assistirem ao filme, a avaliação interna teria sido de que a produção se aproxima mais de um thriller policial sobre o atentado de 2018 do que de uma cinebiografia tradicional do ex-presidente.

Essa característica é utilizada por assessores de Flávio para contestar o argumento de adversários de que o lançamento poderia servir diretamente como instrumento para promover sua candidatura presidencial.

O longa também recria um debate da eleição de 2018, mas sem utilizar os nomes reais de adversários de Bolsonaro, como Fernando Haddad (PT) e Marina Silva (Rede). O autor do atentado de Juiz de Fora é apresentado como militante de esquerda, mas o personagem não recebe o nome de Adélio Bispo.

Enquanto a estratégia comercial avança para um lançamento após as eleições, a investigação da Polícia Federal busca esclarecer quem efetivamente participou da produção, de onde vieram os recursos e como o dinheiro captado para o projeto foi movimentado. As respostas que a Ancine terá de fornecer poderão ajudar a estabelecer a estrutura jurídica e financeira por trás de “Dark Horse” e orientar os próximos passos do inquérito no STF.

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