A Agência Nacional do Cinema (Ancine) abriu um novo capítulo na controvérsia envolvendo o filme “Dark Horse”, produção internacional inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo informa a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, a agência reguladora autuou a produtora Go Up Entertainment por irregularidades relacionadas às gravações realizadas em território brasileiro, procedimento que poderá resultar em multa administrativa e aumenta a pressão sobre um projeto que já vinha sendo alvo de questionamentos políticos e financeiros.
Segundo documentos obtidos pelo blog que revelou o caso, a autuação foi lavrada em 28 de julho pela Superintendência de Fiscalização e Combate à Pirataria da Ancine. O auto de infração aponta que a empresa teria “produzir no Brasil a obra cinematográfica estrangeira DARK HORSE sem comunicar o fato à ANCINE.”
A investigação administrativa ocorre em um momento delicado para a produção. O filme já havia provocado repercussão nacional após a divulgação de mensagens envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nas quais ele apareceria solicitando recursos ao empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para financiar o longa-metragem. O episódio acabou incorporado ao debate político da campanha presidencial de 2026.
O que motivou a autuação
As normas da Ancine determinam que qualquer produção cinematográfica estrangeira realizada no Brasil deve ser executada por uma empresa devidamente registrada junto à agência. Cabe a essa empresa comunicar oficialmente o início das filmagens e apresentar uma série de documentos obrigatórios, incluindo contrato da produção, cronograma das gravações e documentação dos profissionais estrangeiros envolvidos.
De acordo com a fiscalização, essas exigências não teriam sido cumpridas pela Go Up Entertainment durante a realização de “Dark Horse”.
Com a autuação, a produtora poderá ser penalizada com multa que varia entre R$ 2 mil e R$ 100 mil. A decisão final caberá à Superintendência de Fiscalização da Ancine, que deverá concluir o processo administrativo ainda neste mês.
Apesar da possível sanção, a autuação não impede automaticamente o lançamento do filme nos cinemas brasileiros. A estreia, entretanto, ainda depende da concessão do Registro de Obra Estrangeira (ROE), autorização necessária para a distribuição comercial no país.
Em junho, a Europa Filmes protocolou o pedido de registro junto à Ancine. A distribuidora planeja uma estreia de grande porte, com previsão de exibição em cerca de 650 salas de cinema e versões dubladas distribuídas em todo o território nacional.
Técnicos classificam caso como grave
Nos bastidores da agência, a avaliação é de que a suposta infração possui elevada gravidade. Segundo relatos obtidos pela equipe responsável pela reportagem original, a tendência seria pela aplicação da penalidade máxima, diante da forma como as gravações ocorreram.
Conforme apurado, parte das filmagens teria sido realizada em São Paulo sem a comunicação exigida pela regulamentação. Entre as cenas gravadas estaria a reconstituição do atentado a faca sofrido por Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018.
“Não foi uma gravação clandestina na Amazônia, longe de todos”, compara uma fonte que acompanha de perto o assunto nos bastidores. “Não foi uma simples captura de imagem, houve a mobilização de equipamentos e pessoas em um set de filmagens na maior cidade do país, com denúncias de violação da legislação trabalhista.”
A Ancine também solicitou esclarecimentos à Spcine, empresa pública vinculada à Prefeitura de São Paulo responsável pelo fomento ao audiovisual, para verificar se as autoridades municipais foram previamente comunicadas sobre a realização das gravações.
Antes da autuação, a agência já havia encaminhado notificações à Go Up nos meses de fevereiro e março, solicitando que a empresa “comprovar a comunicação à Ancine da produção da obra estrangeira Dark Horse” e ressaltando que essa “é uma obrigação” prevista em instrução normativa em vigor desde 2008.
Somente em 17 de julho, a Go Up e a Europa Filmes enviaram um memorando à Ancine informando, “de forma expressa e para fins de resposta à exigência administrativa”, que tinham conhecimento de que a “produção da obra foi realizada parcialmente no território da República Federativa do Brasil”.
Financiamento também é alvo de questionamentos
Além das questões regulatórias, a produção continua cercada de dúvidas quanto ao financiamento.
A proprietária da Go Up Entertainment, a jornalista Karina Ferreira da Gama, nunca lançou um longa-metragem comercial no Brasil ou no exterior. Ela também preside o Instituto Conhecer Brasil, entidade registrada na Ancine desde 2020, mas que igualmente não possui filmes lançados.
Segundo a reportagem, Karina passou a integrar o projeto por intermédio do deputado federal Mario Frias (PL-SP), responsável pelo roteiro de “Dark Horse”. O Instituto Conhecer Brasil também passou a ser alvo de apuração no Supremo Tribunal Federal (STF) após o recebimento de R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas à produção audiovisual.
Procurada, a Ancine informou que não comenta processos administrativos em andamento.
Karina afirmou que ainda não havia sido formalmente comunicada sobre a autuação.
“Não tenho ciência, não sei do que se trata. Não tenho nada a dizer”, declarou.
Ao ser questionada sobre o cumprimento das exigências legais para a produção do filme, acrescentou:
“Tudo que a gente tinha de fazer para produzir, a gente fez. Inclusive avisar as autoridades brasileiras”.
Segundo ela, as tratativas iniciais ocorreram por meio de um sindicato em São Paulo, sem informar qual entidade.
Filme ganhou dimensão política
A controvérsia envolvendo “Dark Horse” extrapolou o universo cinematográfico e passou a influenciar o cenário político nacional.
Após reportagens do The Intercept Brasil, o senador Flávio Bolsonaro reconheceu ter captado R$ 61 milhões junto ao empresário Daniel Vorcaro por meio de uma estrutura financeira ligada a um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Nem Flávio nem os demais envolvidos esclareceram por que os recursos passaram por essa estrutura intermediária, circunstância que alimentou especulações e críticas de adversários políticos.
Enquanto isso, integrantes da campanha do senador sustentam que o impacto eleitoral do filme tende a ser limitado. Pessoas que assistiram ao longa avaliam que o personagem inspirado em Flávio Bolsonaro ocupa papel secundário na narrativa, com poucos diálogos, ao contrário da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, cuja participação seria significativamente maior.
Segundo integrantes do núcleo político do candidato, a obra se aproxima mais de um thriller policial centrado no atentado contra Jair Bolsonaro em 2018 do que de uma cinebiografia tradicional da família Bolsonaro.
Agora, antes mesmo de enfrentar o julgamento do público nas salas de cinema, “Dark Horse” terá de superar uma etapa decisiva no campo regulatório. O desfecho do processo administrativo na Ancine poderá definir não apenas o valor da eventual multa aplicada à produtora, mas também acrescentar novos capítulos a uma produção que, desde sua concepção, vem sendo marcada por disputas políticas, questionamentos sobre financiamento e controvérsias legais.






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