Distribuidora de ‘Dark Horse’ pede registro na Ancine para lançar o filme em cinemas brasileiros

Produção enfrenta questionamentos sobre recursos, burocracia e impacto nas eleições de 2026

A menos de quatro meses das eleições presidenciais de 2026, o filme “Dark Horse”, inspirado na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, deu um passo importante para chegar aos cinemas brasileiros. Segundo informa a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, a distribuidora Europa Filmes protocolou junto à Agência Nacional do Cinema (Ancine) o pedido de Registro de Obra Estrangeira (ROE), procedimento obrigatório para que uma produção internacional possa ser exibida comercialmente no país.

O requerimento foi apresentado no dia 22 de junho e representa apenas a primeira etapa do processo de autorização. Segundo a Ancine, a obra ainda precisará obter o Certificado de Registro de Título e a classificação indicativa do Ministério da Justiça antes de ser liberada para exibição.

Embora o prazo médio para análise desse tipo de registro seja de aproximadamente 30 dias, o processo poderá se estender. A agência informou que ainda aguarda esclarecimentos sobre a realização de filmagens em território brasileiro que, segundo o órgão, não teriam sido comunicadas previamente, conforme exigem as normas vigentes.

Caso as pendências não sejam esclarecidas, a situação pode atrasar ou até inviabilizar o lançamento comercial do longa nos cinemas brasileiros.

Distribuidora assume projeto após recusa

A entrada da Europa Filmes ocorre após outra importante empresa do setor, a Paris Filmes, recusar a distribuição da produção.

Mesmo com uma distribuidora definida, a estreia ainda depende do interesse das redes exibidoras. Segundo informações publicadas pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo, grandes grupos do setor demonstram resistência à exibição de “Dark Horse”.

Entre as preocupações apontadas estão a possibilidade de baixa bilheteria e o receio de que o filme acirre a polarização política durante o período eleitoral, provocando protestos ou conflitos em salas de cinema e centros comerciais.

Produção retrata campanha de Bolsonaro

O trailer oficial divulgado recentemente apresenta o longa como um thriller político ambientado durante a campanha presidencial de 2018.

Grande parte da narrativa gira em torno do atentado a faca sofrido por Jair Bolsonaro em 6 de setembro daquele ano, em Juiz de Fora (MG), e de sua recuperação médica.

No material promocional, o ex-presidente é apresentado como “voz do povo” que “enfrentou o sistema”, “sistema que falhou em silenciá-lo”.

A produção possui elenco predominantemente internacional. Jair Bolsonaro é interpretado por Jim Caviezel, conhecido pelos papéis em “A paixão de Cristo” e “O conde de Monte Cristo”. Já Michelle Bolsonaro é interpretada por Camille Guaty, atriz que participou da série “The Good Doctor: O bom doutor”.

Os diálogos foram gravados em inglês, estratégia voltada à ampliação do potencial de comercialização do filme no mercado internacional.

Ancine cobra esclarecimentos sobre filmagens

Outro ponto que permanece sob análise envolve o cumprimento das regras para produções estrangeiras realizadas em território brasileiro.

Em ofícios enviados à produtora Go Up Entertainment em fevereiro e março deste ano, a Superintendência de Fiscalização da Ancine solicitou que a empresa “comprovar a comunicação à Ancine da produção da obra estrangeira Dark Horse” e destacou que a medida “é uma obrigação” prevista em instrução normativa em vigor desde 2008.

A agência busca esclarecer, entre outros aspectos, se a Go Up atuou como produtora principal da obra ou apenas prestou serviços para uma empresa estrangeira responsável pelo projeto.

Pelas normas da Ancine, toda filmagem internacional realizada no Brasil deve ocorrer sob responsabilidade de empresa registrada na agência, que deve apresentar documentação como contrato de produção, plano de filmagem e informações sobre profissionais estrangeiros envolvidos.

Segundo as informações disponíveis, esses procedimentos não teriam sido cumpridos, o que pode impactar a análise do pedido de registro.

Produtora também é alvo de questionamentos

Além da burocracia envolvendo o registro da obra, a própria produtora responsável pelo filme tornou-se objeto de questionamentos.

A Go Up Entertainment pertence à jornalista Karina Ferreira da Gama, que, segundo as informações divulgadas, nunca lançou um longa-metragem no Brasil ou no exterior.

Karina passou a integrar o projeto por intermédio do deputado federal Mario Frias (PL-SP), autor do roteiro de “Dark Horse”.

Ela também preside o Instituto Conhecer Brasil, entidade que recebeu recursos provenientes de emendas parlamentares e que passou a ser analisada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) após o repasse de R$ 2 milhões destinados à produção de filmes.

Apesar de possuir registro na Ancine desde 2020, o instituto também não lançou produções cinematográficas até o momento.

Financiamento gera repercussão política

A origem dos recursos utilizados para produzir “Dark Horse” transformou-se em um dos principais focos da controvérsia envolvendo o longa.

O tema ganhou repercussão após reportagens do Intercept Brasil divulgarem mensagens nas quais o senador Flávio Bolsonaro cobra recursos do banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção.

Posteriormente, Flávio Bolsonaro confirmou a captação de R$ 61 milhões junto a Vorcaro. Segundo as informações divulgadas, os recursos foram pagos por meio de uma empresa ligada ao empresário para um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.

As circunstâncias dessa operação passaram a ser questionadas, especialmente em razão da utilização de um fundo intermediário para a transferência dos recursos. Segundo o material divulgado, nem os envolvidos nem seus representantes explicaram o motivo da adoção desse modelo financeiro.

As reportagens também levantaram a hipótese de que parte dos recursos pudesse estar relacionada ao financiamento da permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, interpretação que se tornou objeto de debate político.

Disputa chegou ao Tribunal Superior Eleitoral

Antes mesmo de assegurar uma distribuidora, “Dark Horse” já havia chegado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em maio, o grupo Prerrogativas e o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) ingressaram com uma ação pedindo investigação sobre o financiamento da produção e a suspensão da estreia do filme até o término das eleições presidenciais.

Os autores sustentaram que o longa poderia funcionar como “peça de comunicação política de enorme impacto”, além de configurar propaganda eleitoral “dissimulada”, financiada por recursos milionários de “origem suspeita”, com indícios de abuso de poder econômico, uso indevido dos meios de comunicação, caixa 2, doação empresarial indireta e lavagem de dinheiro.

No mês passado, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, arquivou o pedido por entender que os autores da ação não possuíam legitimidade processual para apresentar a demanda.

Enquanto o debate jurídico e político continua, o futuro comercial de “Dark Horse” ainda depende da conclusão dos procedimentos administrativos na Ancine, da obtenção da classificação indicativa e da adesão das redes exibidoras. Somente após essas etapas será possível saber se o filme chegará às salas de cinema durante o período eleitoral.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo